O ornitorrinco é uma colcha de retalhos maluca da natureza, já que essa estranha criatura se parece com meia dúzia de animais diferentes, todos juntos. Acontece que os ornitorrincos estavam escondendo mais uma característica notável: ELES PODEM BRILHAR NO ESCURO.

Não basta ser um mamífero que põe ovos, ostenta um bico de pato e pés palmados, caça usando eletrorrecepção e empunha esporas venenosas. O ornitorrinco também apresenta um brilho verde sob a luz ultravioleta. Os detalhes dessa descoberta inesperada foram publicados no início deste mês na revista científica Mammalia.

O ornitorrinco agora entra para um clube muito exclusivo, já que é um dos três únicos mamíferos biofluorescentes conhecidos, os outros dois sendo gambás e esquilos voadores. Dito isso, o ornitorrinco permanece sozinho como o único monotremato conhecido, ou mamífero produtor de ovos, capaz de realizar esse truque (os únicos outros monotremados existentes são quatro espécies de equidna). É claro que a biofluorescência é vista em muitos outros organismos, como fungos, peixes, fitoplâncton, répteis, anfíbios e pelo menos uma espécie de tardígrado.

A mesma equipe envolvida no novo estudo, liderada pela bióloga Paula Spaeth Anich, do Northland College, foi quem descobriu a biofluorescência em esquilos voadores no ano passado. A descoberta aconteceu por acaso durante pesquisas noturnas de líquenes (organismos resultantes de uma simbiose entre um fungo e um parceiro capaz de fazer fotossíntese, como a alga verde). Suas observações de campo foram posteriormente confirmadas com espécimes de esquilos voadores mantidos em um museu.

Com isso em mente, os cientistas decidiram tentar a sorte com outro mamífero crepuscular noturno. Ornitorrincos, como o esquilo voador (e gambás também), são ativos durante as horas escuras do amanhecer, anoitecer e durante a noite. Para o novo estudo, a equipe analisou três espécimes de ornitorrinco de museu (dois machos e uma fêmea) provenientes do Field Museum of Natural History em Chicago e do University of Nebraska State Museum (a Lista Vermelha da IUCN atualmente descreve o ornitorrinco como uma espécie quase ameaçada e com tendência de declínio populacional).

O pelo do ornitorrinco parece marrom na luz visível, mas, como mostra a nova pesquisa, seu pelo brilha em verde ou ciano sob a luz ultravioleta. Então, a próxima vez que você tiver um happy hour por videoconferência, lembre-se de contar a seus amigos que o pelo do ornitorrinco absorve comprimentos de onda UV entre 200 e 400 nanômetros e, em seguida, emite luz visível entre 500 e 600 nanômetros, um processo óptico que resulta em fluorescência.

Como o artigo aponta, tanto machos como fêmeas parecem exibir essa característica, embora os autores aconselhem um pouco de cautela, dado o tamanho insignificante da amostra. Além disso, os pesquisadores estão “confiantes de que a fluorescência que observamos não é uma propriedade de espécimes de museu em geral”.

Supondo que você ainda tenha um público cativo neste happy hour, você pode dizer a seus amigos que a bioluminescência do ornitorrinco é provavelmente uma adaptação às condições de pouca luz. Seu pelo brilhante pode ser uma forma de as espécies se verem e interagirem umas com as outras à noite, quando “a absorção de raios ultravioleta e a fluorescência podem ser particularmente importantes para os mamíferos”, escrevem os pesquisadores.

A descoberta também é interessante de uma perspectiva evolucionária. Monotremados, marsupiais e mamíferos placentários (eutherianos) se separaram de um ancestral comum há cerca de 150 milhões de anos, quando o Triássico estava chegando ao fim. Isso, queridos leitores, é muito tempo, já que os descendentes desse divórcio evolucionário tiveram que lutar para abrir caminho durante os períodos jurássico e cretáceo que se seguiram, sem mencionar a extinção em massa que exterminou todos os dinossauros não-aviários. É muito tempo e muita evolução possível.

Em um comunicado de imprensa da De Gruyter, Anich disse que “foi intrigante ver que animais que eram parentes tão distantes também tinham pelo biofluorescente”. Os autores encerram seu artigo com uma questão relacionada: “A biofluorescência é uma característica ancestral dos mamíferos?”

É difícil saber. Se esses três grupos extremamente díspares de mamíferos mantiveram essa característica após 150 milhões de anos, isso significa que os genes responsáveis ​​pela pelagem biofluorescente estão altamente conservados, na linguagem dos biólogos. Não é impossível, mas outra explicação razoável é que essas três espécies – gambá, esquilo voador e ornitorrinco – adquiriram seu pelo brilhante de forma independente como consequência da evolução convergente. Na natureza, vale aquilo que funcionar melhor, e é por isso que características comuns podem aparecer em espécies não relacionadas.

Esta última descoberta também pode significar que a bioluminescência em mamíferos não é tão rara quanto pensamos. E, de fato, é exatamente para onde a equipe se dirige a seguir, em sua busca para encontrar mais mamíferos capazes de brilhar no escuro.