Os fósseis em âmbar são como uma cápsula do tempo, preservando a estrutura tridimensional de animais, plantas e outros itens pré-históricos de interesse. De vez em quando, entretanto, os paleontólogos tropeçam em alguns espécimes e cenas particularmente bizarros.

Os fósseis convencionais, com seus espécimes amassados como massa de panqueca, podem nos ensinar muito sobre o passado, mas carecem de um certo toque especial. Os fósseis de âmbar, por outro lado, são cheios de todo tipo de emoção, exibindo características que ainda parecem frescas, apesar de terem milhões de anos. E como muitas criaturas foram preservadas em âmbar ao serem inadvertidamente apanhadas na resina de uma árvore, seus comportamentos e condições finais costumam ficar à mostra. Aqui estão alguns dos fósseis de âmbar mais incomuns descobertos ao longo dos anos.

Pegos no flagra

Moscas acasalando em âmbar de 41 milhões de anos atrás. Crédito: Jeffrey StillwellMoscas acasalando em âmbar de 41 milhões de anos atrás. Crédito: Jeffrey Stillwell

Cerca de 41 milhões de anos atrás, durante o final do Eoceno Médio, um par de moscas de pernas longas (Dolichopodidae) estava acasalando quando uma gota de resina de árvore arruinou sua diversão. Os paleontólogos acreditam que é o primeiro exemplo de “comportamento congelado” no registro fóssil australiano, já que a maioria dos fósseis âmbar são encontrados no hemisfério norte.

O inseto mais feio (ou seria o mais fofo?) já achado em âmbar

Inseto Aethiocarenus burmanicus. Crédito: George Poinar, JrInseto Aethiocarenus burmanicus. Crédito: George Poinar, Jr

Em 2017, os cientistas descreveram uma nova espécie de inseto chamado Aethiocarenus burmanicus, que foi encontrado em um âmbar birmanês de 100 milhões de anos. A criatura do Cretáceo exibia características nunca vistas antes em um inseto, como uma cabeça em forma de triângulo, um estranho par de olhos esbulhados e glândulas em seu pescoço. Embora os paleontólogos que estudaram o espécime nunca tenham admitido, eles encontraram um inseto muito feio.

Porco mofado

Porco mofo visto em microscópio. Crédito: G. Poinar et al., 2019Crédito: G. Poinar et al., 2019

O âmbar também pode preservar criaturas em microescala, como essa bizarra criatura conhecida como porco mofo. Descobertos no ano passado, esses pequenos animais se assemelham aos tardígrados, que às vezes são chamados de ursos d’água. Os microinvertebrados cenozóicos foram encontrados na República Dominicana e datavam de 30 milhões de anos. As criaturas foram chamadas de porcos mofados por causa de sua aparência corpulenta e dieta rica em fungos.

Aranha e carrapato

Visão superior e inferior do carrapato. Crédito: J. A. Dunlop et al., 2018/Cretaceous Research Visão superior e inferior do carrapato. Crédito: J. A. Dunlop et al., 2018/Cretaceous ResearchVisão superior e inferior do carrapato. Crédito: J. A. Dunlop et al., 2018/Cretaceous Research

Em um dia fatídico do Cretáceo, um carrapato infeliz conseguiu se prender em alguma seda de aranha antes de ficar preso em uma gota pegajosa de seiva de árvore. Um dia seriamente infeliz para o carrapato, mas a descoberta marcou “a primeira vez que essa interação específica entre carrapatos e aranhas foi documentada no registro fóssil”, segundo os pesquisadores.

Inseto na pena de dinossauro

Um inseto Mesophthirus engeli rastejando em penas de dinossauro. Crédito: Taiping GaoUm inseto Mesophthirus engeli rastejando em penas de dinossauro. Crédito: Taiping Gao

Uma pesquisa do ano passado detalhou um pedaço de âmbar contendo penas de dinossauros e um inseto semelhante a um piolho chamado Mesophthrius Engeli. Danos reveladores às penas sugerem que os insetos estavam de fato parasitando seu hospedeiro, não apenas andando entre penas descartadas no mesmo monte de resina de árvore. Este pedaço de âmbar foi encontrado em Mianmar e data de cerca de 100 milhões de anos.

Exibição sexual

O macho apresentava antebraços e patas traseiras semelhantes a vagens, que costumava atrair parceiros. Crédito: D. Zheng et al., 2017
O macho apresentava antebraços e patas traseiras semelhantes a vagens, que costumava atrair parceiros. Crédito: D. Zheng et al., 2017

Esta donzelinha (zygoptera) macho, apanhada dentro de âmbar birmanês de 100 milhões de anos, estava tentando cortejar uma fêmea quando a natureza tinha outros planos. No momento da morte, a donzelinha assumiu uma pose especial em que poderia exibir seus antebraços e patas traseiras exagerados, no que os cientistas chamaram de exemplo extremo de exibição sexual.

Mais um inseto excitado

Acima: aranha com a identificação de seu pênis. Abaixo: close do falo da aranha. Crédito: J. A. Dunlop et al., 2016Acima: aranha com a identificação de seu pênis. Abaixo: close do falo da aranha. Crédito: J. A. Dunlop et al., 2016

As aranhas Pholcidae, além de seus apêndices estendidos, são dotadas também de outras formas, como revelou este pedaço de âmbar descoberto em 2016. Aqui está como eu a descrevi à época:

Quando morreu, esta criatura ancestral estava claramente em estado de excitação e, possivelmente, perto de uma fêmea. Como isso passou de uma união potencial para uma posteridade paleontológica, ninguém sabe. Talvez tenha se transformado em resina gotejante em meio a toda excitação sexual. Alternativamente, as patas compridas da aranha macho podem ter caído acidentalmente em alguma resina de árvore enquanto fazia suas tarefas diárias, e enquanto lutava, sua pressão arterial subiu, forçando seu pênis a se espremer acidentalmente.

O pênis desse inseto era tão único em termos de forma que os cientistas tiveram que criar uma família inteiramente nova de aracnídeos e uma nova espécie Halitherses grimaldii. Como escreveram os pesquisadores: “Este é o primeiro registro de um órgão copulador masculino desta natureza preservado em âmbar e é de especial importância devido à idade do depósito”, que data de cerca de 99 milhões de anos.

Uma aranha tentando comer uma vespa

Uma aranha atacando uma vespa parasita. Crédito: OSU College of ScienceUma aranha atacando uma vespa parasita. Crédito: OSU College of Science

Este é um dos meus fósseis em âmbar favoritos, tanto por causa de cena dramática quanto pelo nível requintado de preservação. Que momento para a resina cair repentinamente sobre o par, enquanto a aranha estava prestes a morder a vespa parasita, que pode ter caçado ovos de aranha na época. Este pedaço de âmbar — o primeiro a documentar um ataque de aranha — foi encontrado em Mianmar e data do final do Cretáceo, entre 97 milhões e 110 milhões de anos atrás.

O ácaro e a formiga

Jason Dunlop / Museum für Naturkunde, BerlimO ácaro está firmemente preso à cabeça da formiga. Crédito: Jason Dunlop / Museum für Naturkunde, Berlim

Datado de cerca de 44 milhões a 49 milhões de anos atrás, este é o exemplo mais antigo de um ácaro preso a seu hospedeiro. O ácaro é semelhante aos que existem hoje, levando os cientistas a acreditar que ele estava parasitando a formiga, ao invés de atacá-la.

Crânio de lagarto

Um crânio preservado em âmbar birmanês de 99 milhões de anos. Crédito: Lida Xing
Um crânio preservado em âmbar birmanês de 99 milhões de anos. Crédito: Lida Xing

Este notável fóssil de âmbar foi originalmente pensado para conter o menor dinossauro no registro fóssil (uma espécie de criatura semelhante a um beija-flor), mas uma reavaliação do fóssil, junto com novas evidências, forçou uma mudança, com cientistas concluindo que o o minúsculo crânio provavelmente pertencia a um lagarto. Ainda assim, é um espécime muito legal.