Vint Cerf conhece bem a internet. Ele cocriou sua versão militar embrionária, e agora serve ao Google como “evangelista da internet”. Por isso deve causar surpresa em todos sua declaração de que a internet não é um direito humano. Mas ele está certo.

O papo de Cerf, que merece uma leitura completa no NYT, chega a seguinte conclusão: direitos humanos são coisas fundamentais para nossa sobrevivência como humanos. Coisas que permitem não só que sobrevivamos, mas que evoluamos como espécie: água limpa, não ser estuprado, expressar nossos pensamentos sem represália. Tais direitos poderiam ser escritos em pedras e fariam sentido a 500 anos atrás e daqui a 500 anos também. Por quê? Porque eles não têm nada a ver com tecnologia — o que também não significa que a tecnologia não é uma parte importante do desenho todo:

A tecnologia é um permitidor de direitos, não um direito em si… É um erro colocar qualquer tecnologia nesta categoria exaltada, fazendo com que, com o tempo, valorizemos as coisas erradas. Por exemplo, em uma época, se você não tivesse um cavalo, era difícil ter uma vida justa. Mas o importante neste caso era o direito de ter uma vida justa, e não o direito a ter um cavalo. Hoje, se nós tivéssemos o direito de ter um cavalo, eu não sei onde o colocaria.

Na mosca. A internet é atualmente uma parte indispensável na hora de permitir o discurso livre — mas ela não é o discurso livre. Algum dia, não haverá mais internet, porque usaremos algo melhor do que ela. E olhar para trás e ver que erguemos tal ideia ao mesmo plano de vida, liberdade e outras coisas realmente importantes será bem constrangedor.

E isso não significa que devemos desistir de tornar a internet ainda mais incrível e acessível, diz Cerf:

Melhorar a internet é só uma das propostas que, apesar de ser bem importante, existem para melhorar a condição humana. Deve ser feita com apreciação aos direitos humanos e cívicos que precisam de proteção — sem partir do pressuposto de que o acesso em si é um direito.

É tudo uma questão de prioridades. Vamos nos preocupar com pessoas que estão realmente morrendo de fome antes de pensarmos em oferecer um Twitter para que elas falem sobre isso. [NYT]