Um novo estudo divulgado nesta semana é o mais recente a mostrar que a pandemia de COVID-19 está afetando fortemente a saúde mental dos cidadãos dos EUA. A pesquisa descobriu que mais de um quarto dos adultos entrevistados apresentaram sintomas de depressão recentemente — três vezes mais do que relatado em uma pesquisa feita antes da pandemia.

Pesquisadores da Universidade de Boston e de outros lugares recrutaram mais de 1.400 pessoas entre o final de março e meados de abril de 2020, entrevistando-as por telefone. Esses voluntários, destinados a ser uma amostra representativa nacionalmente, responderam a um questionário usado rotineiramente para rastrear sintomas de depressão (um exemplo de pergunta seria questionar quantos dias nas últimas duas semanas você teve pouco interesse ou prazer em fazer as coisas). Em seguida, suas respostas foram comparadas a uma amostra de pessoas que participaram da versão 2017-2018 da National Health and Nutrition Examination Survey, uma pesquisa anual sobre o estilo de vida e hábitos de dieta dos americanos, conduzida pelo governo. O mesmo questionário foi usado em ambas as pesquisas.

Aqueles com pontuação alta o suficiente para serem considerados moderados (10 ou mais em uma escala de 1 a mais de 20) foram considerados como tendo sintomas claros de depressão. No geral, 27,8% dos participantes atenderam a esses critérios durante o período pandêmico em março e abril, em comparação com 8,7% que relataram o mesmo na pesquisa anterior. Em todas as idades e grupos demográficos, esses níveis aumentaram, embora as mesmas tendências se mantivessem antes e durante a pandemia. Mais mulheres relataram sintomas de depressão do que homens em qualquer período de tempo, por exemplo, mas a lacuna aumentou durante a pandemia (33,3% das mulheres tiveram sintomas de depressão durante a pandemia, em comparação com 21,9% dos homens).

Quando incluíram pessoas com sintomas leves de depressão, essa disparidade aumentou. Pouco mais da metade dos americanos (52,5%) relatou alguns sintomas de depressão durante a pandemia, em comparação com 24,7% antes.

Os resultados foram publicados na última semana no JAMA Network Open.

“Pelo que sabemos, este é o primeiro estudo representativo dos EUA que avaliou os sintomas de depressão usando o Patient Health Questionnaire – 9 em adultos nos Estados Unidos antes e durante a pandemia de COVID-19”, escreveram os autores. “Encontramos uma mudança nos sintomas de depressão, com menos pessoas sem sintomas e mais pessoas com mais sintomas durante a pandemia que antes”.

Ter sintomas de depressão não significa necessariamente ter depressão clínica ou grave, que pode ser muito difícil de tratar e pode durar meses ou anos. É possível que muitas pessoas que experimentaram os sintomas durante março e abril já tenham se recuperado ou irão fazê-lo sem a necessidade de tratamento específico. Mas embora o número de mortes diárias nos EUA tenha atingido seu pico atual em março e abril, o país como um todo teve mais de 150 mil mortes desde então, enquanto novos casos diários permanecem muitos altos e perto de 1.000 pessoas ainda morrem todos os dias em média.

Esta também não é a primeira evidência a sugerir que os efeitos diretos e indiretos em pandemia, como a morte ou doença de entes queridos ou a perda de emprego devido aos lockdowns e escasso apoio governamental, estão afetando a saúde mental coletiva dos EUA e em outros lugares.

De fato, de acordo com os pesquisadores, há evidências de que a pandemia pode estar tendo um impacto maior na saúde mental do que outros eventos traumáticos de grande escala na história recente que afetaram países, como os protestos em Hong Kong contra o governo que levaram a milhares de prisões e ferimentos de manifestantes. E ao contrário de muitos desastres naturais, que são localizados em uma área e/ou de curta duração, a precipitação contínua da pandemia não deve desaparecer tão cedo, especialmente nos EUA, que continua a relatar a maioria das mortes e casos conhecidos no mundo por uma ampla margem.

Como costuma acontecer durante a pandemia, esses efeitos na saúde mental provavelmente atingirão segmentos vulneráveis da população com muito mais força do que outros. No estudo, pessoas com renda mais baixa corriam maior risco de sintomas de depressão do que aquelas com renda alta, enquanto ter menos de US$ 5.000 em economias estava relacionado a um riso 50% maior de sintomas de depressão. Isso parece concordar com um relato de maio feito por Tedhros Adhanom, diretor geral da OMS, falando justamente do risco de pobres serem mais propício a estes problemas em tempos de pandemia.

No Brasil, o ELSA (Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto) começou a fazer uma pesquisa semelhante, porém o resultado só deve sair em dezembro de 2020.