O governo Trump não tem medido esforços para manter a tecnologia chinesa fora dos Estados Unidos e até mesmo de outros países. A China decidiu pagar na mesma moeda e, segundo  o Financial Times, Pequim ordenou que todos os escritórios do governo e instituições públicas deverão remover computadores e softwares estrangeiros dentro dos próximos três anos.

Em plena guerra comercial, essa decisão poderia causar um grande prejuízo para empresas norte-americanas com forte presença no país. No entanto, uma medida drástica dessas não é tão fácil e simples de ser implementada, visto que envolve uma série de questões.

As companhias que devem ser mais afetadas são as grandes fabricantes de computadores e servidores, como HP e Dell, além de fabricantes de chip, como Intel e AMD. Por outro lado, a chinesa Lenovo, que está no top 3 de maiores fabricantes de PC do mundo, deve se beneficiar. A questão é saber qual substituto a empresa achará para as opções de processadores da AMD e da Intel.

A ordem teria sido dada pelo Escritório Central do Partida Comunista Chinês. De acordo com a corretora China Securities, a mudança implicaria na substituição de aproximadamente 20 a 30 milhões de dispositivos de hardware. O cronograma estipulado pelo governo é que 30% dessa troca seja iniciada já em 2020, continuando com 50% em 2021, para que os 20% restantes sejam finalizados em 2022. Devido a essa estratégia, a política foi batizada de “3-5-2”.

O plano da China de se tornar mais independente tecnologicamente não é algo novo. Segundo a Bloomberg, em 2014 Pequim já havia anunciado que pretendia extinguir a maior parte da tecnologia estrangeira dos bancos, forças militares, agências do governo e empresas estatais até 2020. O que acontece agora é que as políticas mais agressivas adotadas por Trump parecem ter pressionado o governo chinês a reforçar e acelerar sua estratégia.  

A premissa é a mesma anunciada pelos Estados Unidos em relação às restrições à Huawei: segurança. Essa substituição seria mais uma iniciativa para que agências do governo e operadoras de infraestruturas consideradas “críticas” passassem a utilizar tecnologias “seguras e controláveis”, conforme estipulado pela própria Lei de Cibersegurança aprovada no país em 2017. 

Porém, a implementação da nova medida pode não ser tão fácil e rápida como o governo espera. Primeiramente porque muitas provedoras de softwares desenvolvem produtos para sistemas operacionais norte-americanos, como Windows e macOS. 

Conforme aponta o Financial Times, a Microsoft até chegou a desenvolver uma versão do Windows 10 em 2017 chamada “Chinese Government Edition”, juntamente com sua joint venture chinesa. No entanto, empresas de cibersegurança chinesa afirmam que os clientes ligados ao governo devem passar a adotar sistema operacionais completamente chineses. 

Uma das opções de software local é o Kylin OS. O problema é que existe uma quantidade significativamente menor de desenvolvedores trabalhando para oferecer softwares compatíveis.

Outra questão é que o conceito de “produzido localmente” é um tanto complexo. A Lenovo, por exemplo, é uma empresa chinesa que monta muitos de seus produtos na China. Porém, seus processadores são feitos pela Intel e os hard drives pela Samsung. 

Por enquanto, a nova política dirige-se apenas às agências governamentais, que são mais fáceis de pressionar e controlar. Mas, se algum dia a China cogitar estender a decisão às empresas privadas, poderá enfrentar uma resistência muito maior. Afinal, os investimentos para substituir tantos equipamentos seriam altíssimos.

[Financial Times]