Philae, o módulo da missão Rosetta que pousou em um cometa, detectou moléculas orgânicas na atmosfera dele. Os cientistas ainda não sabem exatamente o que são essas moléculas, mas elas poderiam ajudar a explicar o início da vida na Terra. Na verdade, este foi o principal motivo para enviamos a Rosetta até um cometa solitário no Sistema Solar.

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Moléculas orgânicas são aquelas que contêm carbono. Nós somos formas de vida baseadas em carbono, portanto somos todos feitos de tais moléculas – mas elas podem ter origens extraterrestres.

Simulações sugerem que, quando a radiação ultravioleta bombardeia partículas de gelo, ela pode formar moléculas orgânicas no espaço. Por sua vez, os cometas podem ter trazido essas moléculas para a Terra, fornecendo a base para a vida em nosso planeta.

A equipe da Rosetta esperava encontrar moléculas orgânicas no cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko, mas não sabia exatamente qual. Poderiam ser moléculas orgânicas simples como o metano, confirmando o que temos observado de longe nos cometas.

Ou poderiam ser moléculas mais complexas, como aminoácidos, que compõem as proteínas. Eles podem ser imagens espelhadas um do outro, sendo “canhotos” ou “destros”. Os cientistas estão há muito tempo intrigados porque a maioria dos aminoácidos na Terra é canhota. Se encontramos o mesmo no cometa, isso daria credibilidade à teoria de que a vida no planeta foi semeada por cometas.

As moléculas orgânicas foram encontradas na atmosfera. Para obter mais detalhes, os cientistas terão que analisar amostras retiradas abaixo da superfície do cometa. O módulo Philae até perfurou o solo, mas a ESA (Agência Espacial Europeia) diz que ele não conseguiu retirar amostras – o experimento parece ter falhado.

Pode haver outra chance de o Philae receber mais luz solar, à medida que o cometa se move em direção ao Sol. Enquanto isso, o módulo está hibernando, mas os cientistas ainda estão trabalhando duro para analisar os dados que ele enviou à Terra.

O módulo Philae fez um pouso falho no cometa 67P/C-G, quicando duas vezes até cair na sombra de um penhasco, onde seus painéis solares não conseguem obter luz o suficiente.

Sonda Rosetta chega ao cometa

Rosetta e as origens da água da Terra

Enquanto isso, a sonda Rosetta orbita pacientemente o cometa, fazendo suas próprias análises científicas. E ela obteve alguns resultados intrigantes para o grande debate de como surgiu a água na Terra.

A origem da água da Terra tem sido um grande mistério científico sem solução. No início, a Terra era uma bola quente do magma, então qualquer água em sua superfície teria evaporado no espaço.

Uma teoria principal diz que pelo menos parte da nossa água veio de um ataque de meteoritos que colidiram com a Terra. Mas antes de atingir o planeta, esses meteoritos eram cometas (bolas de poeira e gelo que derretem) ou asteroides (pedaços intactos de rocha)?

Até agora, as evidências parecem apontar para a hipótese de asteroides. A pista principal é o deutério, um isótopo do hidrogênio que contém um nêutron a mais. O deutério pode substituir o hidrogênio na água, e os astrônomos usam telescópios para analisar a cauda dos cometas e para determinar a proporção de deutério neles.

Essa proporção não corresponde com a Terra na maioria dos cometas. E com o 67P/Churyumov-Gerasimenko, que a Rosetta está orbitando, não é diferente. Da Science:

ROSINA, um instrumento da Rosetta que utiliza espectrômetros para medir a abundância de gases, obteve um resultado bastante aguardado: a chamada razão de deutério-hidrogênio da água na fina atmosfera do cometa. O valor medido no 67P é muito maior do que nos oceanos da Terra, e maior do que em outros cometas, afirma Kathrin Altwegg, pesquisadora-chefe do ROSINA, da Universidade de Berna.

Só em 2011, astrônomos encontraram água semelhante à da Terra em um cometa, o Hartley 2 – mas parece que ele era uma exceção. Os dados da Rosetta não resolvem o debate de uma vez por todas, porém dão mais peso à hipótese de asteroides.

Descobrir a razão deutério-hidrogênio do cometa foi uma das principais razões para a missão Rosetta existir. Ela é muito mais do que o pequeno módulo de pouso Philae: a sonda ainda tem muitos meses de trabalho. [Wall Street Journal e Science]

Imagens por ESA