Pesquisadores da Universidade de Liverpool mostraram que é possível detectar doenças degenerativas em artistas famosos ao analisar pequenas mudanças nos traços de suas obras durante o tempo. A técnica poderia ser utilizada no futuro para identificar Alzheimer e Parkinson em artistas antes que eles sejam diagnosticados.

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O estudo publicado na revista Neuropsychology mostra que uma técnica matemática conhecida como “análise fractal” pode ser utilizada para detectar sinais de neurodegeneração nos trabalhos dos artistas. Uma equipe de pesquisadores liderados por Alex Forsythe da Escola de Psicologia da Universidade de Liverpool fez a descoberta ao examinar 2.092 pinturas das carreiras de sete artistas famosos, alguns que envelheceram normalmente e outros que tiveram doenças degenerativas.

Usando a análise fractal, os pesquisadores conseguiram identificar padrões geométricos complexos nas pinceladas de cada artista. Fractais podem revelar padrões escondidos que geralmente são repetidos nos objetos e fenômenos do dia-a-dia. Essas formas geométricas características são como impressões digitais, que permitem que os cientistas combinem um artista com seu trabalho.

salvador-dali-2Análise fractal revelou mudanças nas pinceladas de Dali com o passar do tempo. Imagem: Dali, The Swallow’s Tail, 1983.

A análise fractal é são precisa que tem sido usada para determinar a autenticidade de grandes trabalhos artísticos. A técnica já foi utilizada para distinguir pinturas legítimas de Jackson Pollock de uma grande coleção de obras falsas, mostrando que quando artistas fazem uma pintura, eles incutem seus padrões fractais nos trabalhos.

Com isso em mente, o time de Forsythe procurou aprender se as variações dessas impressões digitais dos artistas que aconteciam com o tempo acontecia em função do avanço da idade ou se um declínio neurológico tinha alguma relação.

Norval-MorrisseauO artistista canadense indígena Norval Morrisseau sofreu a doença de Parkison. Imagem: Morrisseau, Gathering Shamans, 1972.

Para o estudo, os pesquisadores examinaram pinturas de quatro artistas que sofreram Parkinson ou Alzheimer: Salvador Dali, Norval Morrisseau, James Brooks, e Willem De Kooning. Os cientistas também estudaram os trabalhos de três artistas que não possuíam registros de problemas neurodegenerativos: Marc Chagall, Pablo Picasso, e Claude Monet.

As análises fractais mostram padrões claros de mudança entre os artistas que sofreram alguma degeneração neurológica, comparada com aqueles que envelheceram sem esses problemas. Em todos os casos, as impressões mudaram, mas as dimensões fractais produzidas pelos artistas com Parkinson e Alzheimer mostraram padrões consistentes que eram facilmente distinguíveis do padrão dos artistas saudáveis. A análise revela que as alterações no cérebro podem ser detectadas por mudanças mínimas nas pinceladas dos artistas – mudanças que podem ser detectadas muito antes dos sintomas de declínio neurológicos começarem a aparecer.

pablo-picassoAs mudanças na assinatura fractal de Pablo Picasso com o tempo não mostraram os mesmos padrões produzidos pelos artistas com doenças neurodegenerativas. Imagem: Picasso, auto retrato, 1972.

“O processo oferece o potencial para a detecção de problemas neurológicos que estão surgindo”, disse Forsythe em um comunicado. “Nós esperamos que nossa inovação abra novas direções de pesquisa que ajudem a diagnosticar doenças neurológicas em seus estágios iniciais”.

[Neuropsychology]

Imagem do topo: Pesquisa sugere que é possível detectar doenças neurodegenerativas em artistas antes que eles sejam diagnosticados. Essa pintura de 1931 de Salvador Dali exibe uma “impressão digital fractal” diferente se comparada com seus últimos trabalhos – um indicativo da doença de Parkinson. Crédito: Dali, A Persistência da Memória, 1931.