Um ambicioso porém controverso plano para limpar parte do Oceano está mais perto de se tornar real com a implantação de uma grande boia de limpeza na costa holandesa, no Mar do Norte.

A boia possui 100 metros de extensão e é uma versão menor de um grande sistema de 100 quilômetros que a organização sem fins lucrativos The Ocean Cleanup espera lançar no oceano Pacífico, entre a Califórnia e o Havaí. A expectativa é que a boia consiga retirar milhões de toneladas de plástico que estão na chamada Grande Ilha de Lixo do Pacífico, que concentra uma massa de lixo graças às correntes oceânicas. O protótipo, batizado de “Boomy McBoomface”, irá percorrer 20 quilômetros da costa holandesa durante um ano, num teste de campo que irá avaliar o sistema.



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Essa missão de limpeza do oceano ganhou a atenção da mídia internacional graças ao carismático fundador da Ocean Cleanup, Boyan Slat, de 21 anos. Slat começou a trabalhar na ideia quando tinha apenas 18 anos. O conceito básico é utilizar correntes, ventos e ondas para empurrar o lixo plástico em direção a telas que se estendem na parte de fora das boias, que por sua vez estão ancoradas no fundo do mar por meio de um sistema de cabos. Isso forma uma estrutura em forma de “V” que concentra o lixo no centro, onde pode ser facilmente coletada por navios.

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Para trazer o conceito à realidade, a organização reuniu um time de engenheiros que passaram o último ano testando um modelo em pequena escala no Instituto de Pesquisa Marítima da Holanda. A equipe está avançando para testes de campo e conseguiram arrecadar mais de US$ 2 milhões numa campanha de financiamento coletivo em 2014, além de assegurarem mais US$ 1 milhão do governo holandês e da iniciativa privada. A estrutura completa está orçada em US$ 350 milhões.

O plano, porém, possui alguns críticos — entre eles membros da comunidade oceanográfica e biológica, que acreditam que o projeto não foi devidamente testado e estão preocupados com os potenciais impactos ecológicos daquilo que seria a maior estrutura marinha já montada.

Depois que o Ocean Cleanup publicou um longo estudo de viabilidade em 2014, os oceanógrafos Kim Martini e Miriam Goldstein fizeram uma avaliação técnica que encontrou “grandes problemas” no projeto. Entre eles estavam o uso de velocidades médias em vez de velocidades extremas das correntes marítimas, revelando que os engenheiros poderiam subestimar as tensões e cargas com que as estruturas seriam submetidas. O estudo falhou também ao não abordar a bioincrustação — acumulação de micro-organismos, plantas, algas ou animais nas estruturas. Além disso, não está claro como a companhia irá realizar a manutenção do sistema para evitar uma falha catastrófica no meio do oceano.

A comunidade também levantou questões a respeito dos efeitos que a estrutura pode causar na vida marinha, seja por capturas acidentais ou alterando o comportamento de espécies migratórias. A bióloga marinha e blogueira do Southern Fried Science, Andrew Thaler, apontou numa publicação no ano passado que o sistema é, por definição, um dispositivo de concentração de peixe, ou DCP:

“Na sua forma mais crua, um DCP é qualquer estrutura flutuante ou semi-estacionária no mar aberto. Algumas espécies tendem a se agregar sob as estruturas e os predadores naturalmente irão aparecer. O Ocean Cleanup não atua simplesmente como uma barreira de migração, mas também irá atrair peixes pelágicos. Em longo prazo, isso poderia criar comunidades permanentes ou semi-permanentes, resultando em mudanças nos padrões migratórios.”

O porta-voz da Ocean Cleanup, Jan van Ewijk, afirmou que “os engenheiros levam todas as críticas e preocupações muito a sério” e que a organização está atenta à resposta da comunidade ao estudo de viabilidade.

Goldstein e Martini não receberam nenhum feedback da análise, apenas uma resposta em vídeo do fundador da Ocean Cleanup rebaixando a avaliação por comentarem sobre problemas de engenharia, mas reconheceu que eles levantaram vários “argumentos válidos”. Não está claro quais pontos apontados estão sendo corrigidos pela organização.

“Existem algumas mudanças na versão 2.0 do estudo de viabilidade, mas nenhuma delas permite enxergar claramente o que está diferente, como deveria acontecer numa revisão normal,” disse Martini por email ao Gizmodo, comentando também que a resposta limitada à sua análise e outra anterior do Instituto Scripps de Oceanografia “desencorajou o engajamento de outros cientistas.”

É possível que o Ocean Cleanup aborde diversas preocupações dos críticos antes do lançamento em larga escala do projeto em 2020. A organização está conduzindo uma análise de impacto ambiental com a consultoria Royal Haskoning DHV. Além disso, com o protótipo que será lançado agora, o grupo espera aprender muito sobre como o sistema irá se comportar e como ele poderia falhar sob condições adversas.