Um novo relatório científico publicado na última terça-feira (15) concluiu que plásticos, assim como os componentes químicos deixados por esses materiais no meio ambiente, são uma grande ameaça à saúde humana. Foram identificadas mais de 140 substâncias químicas, que são facilmente encontradas em produtos plásticos e que podem prejudicar nosso corpo, interferindo principalmente no sistema endócrino.

O relatório é resultado de uma colaboração entre a Endocrine Society — uma das maiores organizações de cientistas que estudam as partes do corpo que produzem hormônios, chamado de sistema endócrino — e a Rede Internacional de Eliminação de Poluentes (IPEN). A pesquisa foi redigida por cientistas nos EUA e na Suécia, e tem o objetivo de ser uma revisão de um estudo já existente sobre plásticos e seu potencial de causar danos a pessoas e outros animais.

Com base no novo relatório, as coisas não são nada animadoras. A principal ameaça dos plásticos vem de um grupo de substâncias químicas que imitam os hormônios ou podem interferir no organismo. Os hormônios são produtos químicos produzidos naturalmente que ajudam a regular quase todas as funções corporais que temos, como metabolismo, sono e até fertilidade.

O documento lista 144 desses produtos químicos de desregulação endócrina (EDCs, na sigla em inglês) que são comumente encontrados em produtos plásticos de uso diário. Esses produtos químicos incluem substâncias e metais tóxicos, como chumbo e cádmio. Alguns são adicionados intencionalmente aos plásticos para melhorar sua durabilidade, enquanto outros são subprodutos que vazam para o meio ambiente depois que os materiais plásticos são descartados em aterros sanitários ou nos oceanos, até se decomporem em microplásticos.

Níveis mais elevados de EDCs no corpo têm sido associados a maiores taxas de infertilidade, distúrbios metabólicos como diabetes e certos tipos de câncer. Outros produtos químicos, como o chumbo, não são seguros, mesmo em níveis muito baixos de exposição. Níveis mais altos de EDCs também são extremamente perigosos para bebês, que podem nascer com peso menor e pré-dispostos a uma taxa mais alta de autismo infantil. Isso foi ainda mais evidenciado por um outro estudo, também divulgado esta semana, que encontrou evidências de que microplásticos podem acabar na placenta humana, elevando o risco de exposição fetal.

“A exposição a produtos químicos que causam desregulação endócrina não é apenas um problema global hoje, mas representa uma séria ameaça para as gerações futuras. Quando uma mulher grávida é exposta, os EDCs podem afetar a saúde de seu filho e eventuais netos. Estudos em animais mostram que os EDCs podem causar modificações no DNA que têm repercussões em várias gerações”, disse Pauliina Damdimopoulou, coautora do estudo e pesquisadora do Instituto Karolinska na Suécia.

Outro grande problema é que, como os plásticos estão presentes em quase todo o tempo em nossas vidas, a exposição aos EDCs também é quase universal. Isso significa que não há lugar para se esconder, porque é mais presente que a poluição do ar. Essa disseminação torna difícil descobrir os efeitos exatos dos EDCs, uma vez que não há grupos de “controle” reais de pessoas não expostas para comparação. Ainda assim, de acordo com o autor principal do relatório, Jodi Flaws, o dano causado por EDCs pode ser comparável a outras toxinas ambientais comuns, como a fumaça do cigarro.

A onipresença dos EDCs significa que será necessário um esforço global por parte dos países e das empresas produtoras de plástico para realmente mudar as coisas. Mas até agora, os planos para que isso aconteça têm falhado. Alternativas supostamente mais seguras usadas nos últimos anos, por exemplo, parecem causar efeitos tóxicos semelhantes, enquanto os chamados plásticos biodegradáveis ​​costumam ter os mesmos aditivos químicos que os plásticos convencionais. Isso sem contar que a produção global de plástico continua aumentando.

Embora os autores reconheçam que os plásticos ainda são necessários na sociedade em um futuro previsível, especialmente para coisas como equipamentos médicos, a situação precisa começar a mudar agora se quisermos reduzir nosso risco de saúde devido aos EDCs.

O relatório também recomenda regulamentações governamentais mais rígidas sobre o uso de EDCs em plásticos, incluindo proibições diretas. Dessa forma, empresas seriam incentivadas a desenvolver alternativas mais seguras e melhorar o processo de reciclagem de plástico, que pode introduzir outros EDCs, como dioxinas, no meio ambiente. Ou seja, as mudanças também seriam benéficas para a preservação da natureza como um todo.

Os cidadãos também podem fazer sua parte. Os pesquisadores recomendam que as pessoas evitem materiais de uso único para recipientes de comida e bebida, como copos e práticos plásticos, e optem por alternativas reutilizáveis, como o vidro. Além disso, não aquecer recipientes de plástico no micro-ondas pode ajudar.