Nos últimos anos, muitas medidas foram implementadas e anunciadas para tentar reduzir a poluição de plástico nos oceanos. No entanto, um novo estudo publicado na revista Science, na última quinta-feira (17), afirma que tais ações não têm sido suficientes para colocar o problema sob controle. Na verdade, as medidas estão bem distante desse objetivo, e a quantidade de dejetos despejados nas águas pode mais que dobrar até o final de 2030.

Todos os anos, a indústria petroquímica produz milhões de toneladas de plástico, que por sua vez se transformam em várias coisas – desde garrafas de refrigerante e sacolas de compras até equipamentos médicos e as teclas do notebook que estou digitando agora. Quando descartamos esses itens, nem tudo é reciclado da maneira correta, e uma porção desse lixo acaba nos oceanos, rios e lagos da Terra. Além liberar substâncias químicas causadoras de câncer, o acúmulo do plástico nas águas prejudica ecossistemas inteiros da vida marítima, podendo ser ingerido acidentalmente por tartarugas, pássaros e outras espécies.

A nova pesquisa estima que, em 2016, 20 a 25 milhões de toneladas de resíduos plásticos foram parar nos cursos d’água do mundo. Isso corresponde a 11% de todos os resíduos gerados globalmente naquele ano, e não inclui a poluição adicional de microplásticos, equipamentos de pesca descartados ou a poluição vinda da incineração de resíduos plásticos.

E o montante de plástico nos rios, lagos e oceanos deve piorar se novas medidas não forem adotadas. Estimativas anteriores mostram que a produção global de plástico deve dobrar até 2040.

À medida que a consciência desta crise aumentou, líderes de vários países tomaram medidas para contê-la, assinando tratados internacionais das Nações Unidas, aprovando proibições nacionais e estaduais de alguns itens de plástico de uso único, e se unindo para promover um estilo de vida mais sustentável ​​e de limpeza nas praias. Contudo, quando os autores avaliaram o impacto esperado desses e de outros esforços, eles descobriram que as ações propostas por esses países são insuficientes para lidar com o apocalipse plástico.

Pesquisadores analisaram os compromissos de 173 países que, juntos, representam cerca de 97% da população mundial, para reduzir o lixo plástico no oceano até 2030. Os autores avaliaram uma ampla gama de dados, incluindo a quantidade de lixo gerada por cada país, estimativas de crescimento populacional de o Banco Mundial, e aumentos previstos na produção de plástico. A partir disso, os autores do estudo foram capazes de determinar quanta poluição de plástico o mundo tem gerado. Então, para estimar quanto dessa poluição que chega às águas, os autores do estudo criaram um modelo de computador usando uma ferramenta de mapeamento.

Mesmo quando considerados os compromissos atualmente estabelecidos pelos governos, a poluição anual de plásticos aquáticos pode mais que dobrar, chegando a 58,5 milhões de toneladas até o final desta década. Isso não quer dizer que esses compromissos globais não sejam um bom começo. Sim, eles são, porém não conseguem acompanhar os planos de crescimento da indústria petroquímica.

Além de olhar para os efeitos projetados dos compromissos globais existentes, os pesquisadores também examinaram quanta poluição do plástico entraria nos cursos de água caso os países não cumpram nenhuma medida para reduzir a produção de plástico, nem assumam outras ações. Nessas circunstâncias, são esperadas que 99 milhões de toneladas de lixo plástico cheguem aos oceanos, lagos e rios em 2030 – muito mais do que as previsões sob os compromissos atuais.

Ainda assim, se conformar com os planos atuais não deve ser uma opção. A poluição do plástico já causa um impacto devastador nos ecossistemas ao redor do mundo. “Cada quilo de plástico que entra em corpos d’água é um problema”, disse Judith Enck, presidente da Beyond Plastics e ex-administradora regional da Agência de Proteção Ambiental, que não trabalhou no estudo. “Pedaços maiores de plástico, como garrafas de bebidas e sacolas, muitas vezes se quebram em partes menores. Peixes e animais selvagens comem o plástico, e os recifes de coral são afetados. Nada de bom pode resultar deste problema crescente”, completou.

Além de registrar as deficiências das medidas atuais de despoluição do plástico nos mares, o estudo também oferece outro caminho a seguir. Ao aumentar os compromissos para reduzir a poluição por plástico usando todas as três estratégias de redução – redução de resíduos, gestão de resíduos e limpeza -, os pesquisadores traçam uma alternativa para reduzir a poluição de plástico aquático para 9 milhões de toneladas anuais, que foi o nível estimado de plástico descartado nos oceanos em 2010.

Stephanie Borrelle, coordenadora regional da BirdLife International e líder do estudo, afirma que a estratégia mais eficaz é a de redução de resíduos, mas que uma abordagem mais integrada das três estratégias seja a mais eficiente a longo prazo.

“É muito importante notar que ainda teremos plásticos em um futuro previsível, e isso significa que precisamos usar todas essas ações para colocar muito mais esforço para impedir que os plásticos entrem em nossos rios de água doce e ambientes marinhos. Também teremos que melhorar a gestão de resíduos e, infelizmente, enquanto usarmos plásticos, alguns entrarão no meio ambiente. Portanto, a limpeza deve fazer parte de qualquer estratégia”, disse Borrelle.

Uma vez que os países mais ricos produzem mais resíduos plásticos do que os de menor renda, o estudo sugere que eles devem assumir metas maiores de redução do plástico nos oceanos. Também exige que os produtores paguem por esquemas internacionais de redução da poluição, uma vez que eles são a causa primária do problema e às vezes são subsidiados pelo poder público. Em suma, embora seja ótimo que nos últimos 10 anos tenha havido um número crescente de compromissos de líderes para reduzir a poluição, consertar esse cenário exigirá mudanças muito maiores.