O serviço oferecido pela Theranos parece milagroso: uma única picada no dedo poderia fornecer resultados para mais de 200 tipos diferentes de testes sanguíneos. Um artigo contundente do Wall Street Journal questionou essas alegações; agora a CEO da Theranos, Elizabeth Holmes, saiu na defensiva.

A Theranos, avaliada em US$ 9 bilhões, vem sendo bastante questionada desde a publicação dos resultados de uma investigação feita por cinco meses pelo repórter John Carreyrou, do WSJ – ele ganhou o prêmio Pulitzer de jornalismo este ano por uma reportagem investigativa sobre seguradoras de saúde.

Fundada em 2003 por Elizabeth Holmes, a Theranos afirma ter uma plataforma proprietária que pode realizar diversos testes diferentes, incluindo análises genéticas, checagem de colesterol, de doenças sexualmente transmissíveis e de deficiência em vitaminas. O teste só precisa de algumas gotas do seu sangue, extraídas a partir de uma picada no dedo, e não exige uma seringa.

theranos-2Em 2013, a Theranos anunciou uma parceria com a rede de farmácias Walgreens para oferecer até 200 testes sanguíneos diferentes com resultados que saem em menos de quatro horas.

A conveniência e acessibilidade dessa oferta posicionou a Theranos como uma força de ruptura nos setores de saúde e de tecnologia da saúde, e até o vice-presidente dos EUA, Joe Biden, chamou a empresa de “vanguarda de uma mudança de paradigma na área de saúde“.

Mas nem tudo pode ser o que parece. No artigo do WSJ, Carreyrou diz que a Theranos depende de máquinas de diagnóstico criadas por outras empresas, como a Siemens, e que as suas máquinas chamadas Edison estão mostrando resultados muito diferentes dos produzidos por equipamentos tradicionais.

Basicamente, é possível que os resultados da Theranos não sejam precisos o suficiente – algo bastante necessário para um teste sanguíneo. Além disso, como a empresa tinha reconhecido anteriormente, alguns dos testes precisam de uma coleta completa de sangue, e não as poucas gotas pedidas pela Theranos.

Carreyrou também diz que a Theranos pode ter conduzido seus próprios testes de proficiência, o que não é aceito na indústria. Em sua defesa, a Theranos diz que os testes forma corretamente realizados – uma alegação que contradiz o depoimento de antigos funcionários.

O artigo do WSJ pinta um cenário em que uma empresa altamente secreta se recusa a fornecer informações críticas sobre seus métodos, ao mesmo tempo que opera a um ou dois passos além das suas próprias capacidades.

Como diz um recente artigo da Wired, “a história também expõe um problema mais profundo na forma como o Vale do Silício tenta transformar hype em ouro”, lembrando que “a ciência se move lentamente. O Vale do Silício se move rápido e quebra coisas. A Theranos tentou fazer dos dois jeitos, e é por isso que não chega a surpreender que a empresa esteja agora na defensiva.”

Nessa semana, Holmes foi à conferência Digital Live, do Wall Street Journal. Ela descreveu a tecnologia da empresa como algo bom, e chamou o jornal de “tabloide”. Ela descreveu o artigo do WSJ como “falso” e “enganoso”, e negou que agentes do governo dos EUA tenham visitado a Theranos de maneira inesperada com alguns questionamentos relacionados aos dados enviados para a FDA, agência que regula medicamentos nos EUA.

Mais da Wired:

Ela diz que as alegações do WSJ de que a Theranos estava usando a tecnologia proprietária Edison para rodar apenas 15 dos mais de 200 testes que oferece eram irrelevantes, porque “Edison” era um codinome da empresa para uma tecnologia antiga que não é mais usada. Ela disse que o WSJ não deu o contexto correto para a forma como os testes de proficiência dos testes sanguíneos são feitos. E ela disse que o WSJ deturpou questões em torno do fato de que só um dos testes usa o sangue coletado a partir da picada no dedo – o método prometido pela Theranos para dar fim à dolorosa prática de retirar sangue das veias dos pacientes.

O Wall Street Journal defende o artigo que publicou, e soltou um comunicado sobre as declarações de Holmes:

Nada dito na conferência pela Sra. Holmes refuta a precisão da reportagem feita por John Carreyrou ou dos artigos, que foram submetidos a um processo rigoroso e cuidadoso de edição. Contrário ao que diz a Sra. Holmes, o WSJ compartilhou todos os fatos publicados nos artigos com a Theranos antes da publicação, de acordo com nossos princípios e práticas editoriais. A empresa teve bastante oportunidade para responder. A Sra. Holmes recusou pedidos de entrevista por parte do WSJ por mais de cinco meses, mas o conselho geral da Theranos ofereceu informações importantes, que foram refletidas de forma justa nos artigos.

A Theranos soltou uma resposta bastante detalhada e citou dezenas de milhares de “clientes satisfeitos”, o fato da FDA ter aprovado o teste de picada no dedo para teste de herpes, e que a sua tecnologia controversa Edison não é o único dispositivo usado em seu teste. Quanto às fontes anônimas que se identificaram como ex-funcionários da empresa, a Theranos diz que eles não têm conhecimento suficiente da tecnologia para fazer uma avaliação.

O WSJ respondeu novamente:

Notamos que a Sra. Holmes procurou contestar a confiabilidade das nossas fontes, mas a verdade é que ela não sabe de quem as informações dos nossos artigos foram recolhidas. Garantimos a ela e a nossos leitores que nossas fontes são bem posicionadas para saber as informações que nos ofereceram sobre a Theranos, e elas foram examinadas antes da publicação.

A Theranos foi bastante pesada ao falar de Carreyrou, insistindo que desde o começo ele busca uma “vingança pessoal”.

Desde as primeiras interações com a Theranos, o repórter deixou bem claro que considera a Theranos um alvo a ser derrubado, e não apenas o assunto de um artigo objetivo. Os artigos publicados na semana passada são um produto inevitável dessa abordagem.

O WSJ segue dizendo que nenhuma das respostas da Theranos desmente as informações do artigo. Enquanto isso, a empresa disse que vai “pausar temporariamente” os usos de seus tubos para outras coisas que não sejam testes de herpes, por ainda dependerem de aprovação da FDA.

Holmes, que tem apenas 31 anos de idade, já foi comparada ao fundador da Apple, Steve Jobs, tanto pela sua abordagem nos negócios como também pela sua preferência por camisetas pretas de gola alta.

[WSJ 1, 2 | Wired 1, 2 | Reuters | Theranos]

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