Quem nunca escutou um ‘não engorda de ruim’? Apesar disto ser apenas mais uma expressão popular, os cientistas estão cada vez mais perto de descobrir o porquê daquela pessoa não engordar.

Já conhecemos algumas predisposições genéticas que causam mutações e que aumentam as chances de algumas pessoas desenvolverem obesidade. Mas novo estudo questiona o contrário: por que algumas pessoas simplesmente não engordam?

Na pesquisa publicada na Science, os cientistas sequenciaram o conjunto de genes de mais de 640 mil pessoas dos Estados Unidos, Reino Unido e México. Eles levaram em consideração apenas a parte chamada exoma, propriedade do genoma que lê as proteínas.

A partir disso, avaliaram quais mutações estavam associadas aos níveis do Índice de Massa Corporal (IMC) mais alto ou baixos nos pacientes. Ruth Loos, geneticista humana da Universidade de Copenhagen não envolvida no estudo, disse à Science que isso é “uma quantidade enorme de trabalho”. Ela compara a tarefa a uma foto com milhares de pixels, que revela pequenos detalhes de uma cena, e destaca que a quantidade de pacientes envolvidos no estudo forneceu uma “resolução muito alta para obter as variantes mais raras”.

Como resultado, eles entenderam que, dos 16 genes ligados ao IMC, cinco codificam proteínas de superfície celular conhecidas como receptores acoplados à proteína G, que desempenham um papel fundamental no funcionamento do metabolismo. Além disso, os pesquisadores entenderam que os cinco genes mutáveis, estavam expressos em uma região do cérebro que regula a fome e o metabolismo, chamada de hipotálamo.

Luca Lotta, epidemiologista genético do Centro de Genética Regeneron, que liderou o estudo, disse que o trabalho mostra que também é possível generalizar essa abordagem para outras características e doenças, como diabetes tipo 2 e outros distúrbios metabólicos.

Sadaf Farooqi, uma pesquisadora de obesidade da Universidade de Cambridge que não esteve envolvida no estudo, disse à publicação que encontrar variantes raras que oferecem proteção contra uma doença é muito difícil porque os estudos de sequenciamento são geralmente pequenos, observa Farooqi. No entanto, essas variantes podem levar a novos alvos de drogas, acrescenta ela.

No estudo de Lotta, algumas variantes genéticas, como a GPR75, mostraram maior impacto sobre o IMC. A pesquisa revelou que quem tem a mutação, tende a ter metade das chances de ser obeso em comparação a quem tinha o gene funcional. Em média, essas pessoas tinham 5,3 quilos a menos do que o restante. A diferença intrigou os cientistas, que buscaram entender como a mutação afeta o ganho de peso.

Para isso, os pesquisadores projetaram ratos para ter uma cópia funcional do gene. Ao serem alimentados com comidas cheias de gordura, os camundongos 44% menos peso comparados aos roedores que não receberam o genes. Além disso, os ratos modificados conseguiram controlar melhor o açúcar no sangue.

O fato de a falta do GPR75 ter um efeito protetor tão claro e forte nos ratos sugere que ele está envolvido em vias metabólicas relacionadas à obesidade, disse Giles Yeo, geneticista de Cambridge que não esteve envolvido no estudo.

Apesar dos bons resultados, as variantes do GPR75 que desativam o gene são raras, e somente uma em cada três mil pessoas parece carregá-las. Mesmo assim, estudar a mutação GPR75 como um potencial para fabricação de drogas, que desligam o gene responsável pelo metabolismo ajudaria no tratamento da obesidade, acreditam os cientistas.

Assine a newsletter do Gizmodo

A obesidade é fator de risco para diferentes doenças como câncer, diabetes e outras patologias. Recentemente vimos isso com a Covid-19. Mesmo as pessoas obesas que se recuperaram do vírus podem desenvolver doenças a longo prazo.
“Isso nos diz muito sobre a nova biologia que pode influenciar todos no mundo”, finalizou Yeo.

*A obesidade mata 2.8 milhões de pessoas todo ano, segundo a Organização das Nações Unidas

[Science]