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Quando voltei para o Brasil, em 2007, depois de pouco mais de quatro anos fazendo doutorado na Austrália, tive o privilégio de ter conseguido uma posição como professor de uma universidade privada na região metropolitana de Porto Alegre. Professor Auxiliar, nível 1. Essa era a minha denominação oficial. E daí que a universidade, numa tentativa de cortar gastos, demitira cerca de 80 professores titulares, com 20, 25, 30 anos de dedicação, e contratado 220 recém-mestres e recém-doutores por 50% do valor? E daí que a universidade em questão se recusara a reconhecer o meu título de doutor porque, ao assinarem a minha carteira, ele ainda não havia sido revalidado no país? Eu tinha menos de 30 anos de idade e já era doutor! E empregado como professor na área das humanas! O que mais eu poderia querer?

Essa ilusão durou até o momento em que eu recebi meu primeiro contracheque: pouco mais de R$ 2 mil para uma jornada de 20 horas semanais em sala de aula. Tive vontade de entrar no meu carro, voltar pra casa e abrir uma loja de sapatos. Mas o que eu fiz foi um pouco diferente: um concurso para uma universidade federal no interior do Rio Grande do Sul, no qual fui aprovado.

Quando comecei, como professor adjunto, nível 1 (denominação dada a professores com título de doutor), já concursado, um dos comentários que eu mais recebia girava em torno da relação entre o alto salário que eu supostamente receberia frente ao pouco trabalho que eu supostamente realizaria (aquele mito relativo ao funcionalismo público). E, por mais que eu falasse (e, ocasionalmente, ainda fale) a verdade dos fatos, não é todo mundo que consegue entender o que isso significa. E é mais ou menos isso que surgiu como comentário geral quando a USP resolveu (por conta de uma liminar, é verdade!) tornar pública a sua folha de pagamento.

Não posso falar sobre a realidade da USP, a qual desconheço, acerca da atribuição de carga horária para seus docentes mas posso crer que não seja muito diferente do que temos nas universidades federais. Hoje, o salário inicial bruto de um professor com doutorado, com dedicação exclusiva (40h semanais) fica em torno de R$ 10 mil (R$ 8,5 mil, com os descontos) e, para o topo do plano de carreira, a classe de professor titular paga um salário bruto de R$ 17 mil (R$ 14 mil líquidos). Óbvio que tais valores parecem bastante suntuosos se comparáveis ao salário médio da população. E não quero defender que não o sejam pois o padrão de vida que os salários dos professores universitários federais oferecem não é dos piores. No entanto, quero expor alguns dados para relativizá-los.

Em primeiro lugar, nós professores não devemos nos preocupar apenas com a docência. Aliás, a permanência em sala de aula é, em termos de divisão de carga horária, o que menos ocupa as nossas 40 horas semanais. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira obriga que os professores tenham o mínimo de 8 horas semanais em sala de aula. Como há a isonomia entre hora-aula e hora de preparo de aula, se um professor consegue permanecer apenas 8 horas em atividade de ensino (o que, geralmente, equivale a dois turnos de aula por semana), ele ainda tem 24 horas para dedicar a outras atividades: pesquisa e extensão. Ou seja: todo trabalho de produtividade de pesquisa, orientação de bolsistas de quaisquer níveis (graduação, mestrado ou doutorado), propostas de trabalhos para a comunidade externa à universidade, etc. devem sair das horas que o professor não está em sala de aula.

Claro que há professores que conseguem “sobreviver” envolvendo-se nula ou minimamente com atividades de pesquisa e extensão e, dessa forma, um salário líquido de R$ 10 mil para 8 horas de atuação efetiva em sala de aula (mais preparo de aulas) é mais do que excelente. No entanto, as universidades hoje têm boa parte de sua verba atrelada a indicadores externos de avaliação de impacto das atividades. Isso significa que um professor que tem um grande índice de alunos aprovados em suas disciplinas é tão importante quanto aquele que produz um número monstruoso de artigos publicados em periódicos (os indicadores de pesquisa são, basicamente, quantitativos), quanto aquele que orienta e forma mestres e doutores, quando aquele que tem projetos que envolvam a comunidade civil externa. E olhem que nem estou contabilizando aqui os cargos administrativos (chefia de departamentos, de colegiados de curso…) que são obrigações nossas, ainda que não tenhamos feito concurso para tais funções!

O salário de R$ 10 mil começa a parecer não tão maravilhoso assim, não é?

Em segundo lugar, há uma discrepância entre as obrigações de pesquisa vinculadas à docência e aquelas que não o são. Um professor, que tem que se dividir entre docente e pesquisador, ganha menos do que um profissional que faz concurso para a carreira específica de pesquisador. Um doutor que faça concurso para a EMBRAPA, por exemplo, terá salário bruto inicial de cerca de R$ 10 mil (e de R$ 19 mil no topo do plano de carreira) mas, sobre ele, não cairá a obrigação de formar novas gerações de profissionais. Ou seja: a carreira de pesquisador não traz os mesmos desafios do que a carreira de docente (que é obrigado a, também, fazer pesquisa) mas os salários são um tanto mais atraentes.

Em terceiro lugar, devemos também considerar o histórico. Eu entrei na carreira docente federal em 2008, com 31 anos de idade. Se considerarmos que, entre o nível de professor adjunto 1 e o de professor titular, topo do plano de carreira, há 8 degraus e que a promoção de um nível para outro se dá a cada 2 anos, eu (como muito de meus colegas) atingirei o topo do plano de carreira aos 47 anos e em um momento da carreira federal onde não há mais aposentadoria especial, incorporação de anuênios e benefícios por senioridade, funções gratificadas por cargos de chefia, entre outros. Isso significa que eu passarei, se tudo der certo, cerca de 20 anos sem qualquer promoção de qualquer tipo, dependendo unicamente dos aumentos salariais, cada vez mais escassos. Talvez um salário de R$ 60 mil estivesse no meu horizonte caso eu tivesse ingressado na carreira nos anos 1980, quando tais acúmulos eram possíveis.

As obrigações do cargo não diminuem com a idade. Pelo contrário: docentes que realizam um trabalho bem feito durante suas vidas tendem a atrair cada vez mais alunos interessados em trabalhar consigo. E não recebemos a mais por número de alunos orientandos (quiçá uma bolsa de produtividade em pesquisa, dependente, como o nome já diz, da produtividade… em pesquisa…).

Agora, o que fica claro no caso da USP (e de várias outras universidades) é que há, sim, uma distorção muito grande entre os salários de docentes antigos e novos, não necessariamente no sentido de que aqueles ganhem demais (não consideram, infelizmente, as contribuições dadas à universidade ou ao mundo) mas, sim, no sentido de que nós jamais ganharemos tanto, mesmo tendo, hoje, responsabilidades e encargos iguais a eles. Então, antes de quererem simplesmente dizer que fulano ganha muito porque ganha X mil reais, pensem no seguinte: quanto tempo fulano investiu em si mesmo para chegar naquela função? (no meu caso: quatro anos e meio de graduação dupla; dois anos de mestrado, quatro anos de doutorado). Quais as atribuições e responsabilidades reais da função? E, mais importante: o que aquela pessoa, naquela função, pode deixar de legado para o ensino, pesquisa e extensão brasileiros?

Se você é um daqueles que vive bradando que o professor deve ser mais valorizado mas acha um absurdo que haja professores ganhando R$ 45 mil mensais, mude o foco e promova uma discussão onde todos os professores possam ganhar R$ 45 mil mensais. A esse coro, minha voz vai se unir.


Eduardo Marks de Marques é professor do curso de Letras da Universidade Federal de Pelotas, doutor em Literatura e História da Cultura Australiana pela Universidade de Queensland e pós-doutor em Estudos Literários pela Universidade Federal de Minas Gerais.  

Imagem: Marcos Santos/USP Imagens