Nesse exato momento, o Museu da Imagem em Movimento de Nova York apresenta uma exposição chamada “Como os Gatos Dominaram a Internet”. Dentro da exposição, uma tela exibe uma compilação de vídeos virais de gatinhos, como A Internet é feita de gatos, Gato Gordo no pote (tentativa 2), Keyboard Cat e Mission: Impurrsible. A exposição também fala sobre a diferença entre vídeos de cachorros e vídeos de gatos.

Sim, existem vários vídeos de cachorro famosos também: temos o Ultimate Dog Tease, Yes This Is Dog, Dog Shaming, Stoner Dog, Birthday Dog etc. Mas como afirma o Digital Trends, embora mais pessoas pesquisem coisas relacionadas a cachorros, os vídeos de gatos têm mais chances de viralizar. Existe até um livro voltado para donos de gatos que sonham em entrar no show business: Como Transformar Seu Gato em Uma Celebridade da Internet.

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A exposição defende que os gatos são basicamente os mascotes da internet; a Wired, o BuzzFeed e o Mashable também apoiam essa teoria. Isso não é nenhuma surpresa; atualmente, o termo “vídeo de gatinhos” é praticamente um sinônimo de distração frívola e fofinha.

Nesse ano, nós presenciamos a primeira CatCon, uma convenção que celebra os gatos da internet. Cientistas estão considerando sequenciar o genoma da Lil Bub’, a nova sensação da internet, para que assim possamos descobrir os segredos por trás da carinha angelical que se tornou uma lenda do ciberespaço. A Grumpy Cat até ganhou uma estátua de cera no Madame Tussauds.

Mas por que não existem tantas celebridades caninas na internet? Isso acontece porque o comportamento dos gatos, moldado por séculos de domesticação e evolução, tem um efeito único em nossos cérebros, nos mantendo vidrados durantes horas e horas.

Gatos não ligam para nada

NEW YORK, NY - APRIL 20:  Celebrity internet cat Lil Bub attends the "Lil Bub And Friendz" Tribeca Drive-In Screening during the 2013 Tribeca Film Festival on April 20, 2013 in New York City.  (Photo by Dave Kotinsky/Getty Images for Tribeca Film Festival)
Lil Bub posa para os fotógrafos no Festival do Filme de Tribeca de 2013. Crédito: Getty

O escritor Jack Shepard falou sobre o que ele chama de “parque de gatos digital”— isto é, o fato de a internet oferecer um espaço dedicado para a celebração dos gatos, assim como os parques para cachorros funcionam há muito tempo como espaços de celebração de cachorros. Essa seria uma das supostas origens dessa moda. Mas por que os gatos têm um poder muito maior do que os cachorros na internet? A resposta está nas diferenças entre os comportamentos dos dois animais.

A exposição de Nova York defende a teoria de que os cachorros “costumam reconhecer câmeras (ou, mais provavelmente, seus donos), e seu impulso de agradar costuma resultar em vídeos menos interessantes”. Como todos nós sabemos, os cachorros são muito mais empolgados que os gatos, seres notoriamente estoicos. Ao contrário dos gatos, os cachorros tendem a exteriorizar suas emoções. Logo, o conteúdo produzido por gatinhos é bem mais interessante.

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O vídeo do Keyboard Cat foi visto mais de 41 milhões vezes desde sua postagem, em 2007.  Crédito: YouTube

“É claro que existem muitos vídeos de cachorros fazendo coisas. Mas são coisas como reconhecer seu dono depois de um longo tempo de separação“, afirma Jason Eppink, curador-chefe da exposição. “Em geral, os gatos vivem segundo um ritmo próprio. Esses vídeos nos dão uma visão íntima dessas criaturas misteriosas, e o fato de eles não saberem que estão sendo observados nos diverte.”

Esse impulso também tem a ver com voyeurismo. Os cachorros interagem mais com a câmera, como podemos ver em vídeos como o Ultimate Dog Tease. Quando os gatos são protagonistas, há uma barreira no vídeo, mas essa barreira não nos incomoda. Na verdade, ela nos deixa ainda mais interessados, nos incentivando a terminar de ver o vídeo. O que esse gato vai fazer agora?

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“Gato Vestido de Tubarão Persegue um Pato em Cima de um Roomba” via YouTube

O prazer do voyeurismo está na sensação de estar em uma posição privilegiada, diz Eppink. Um lugar de poder, no qual você está observando algo indefeso que não pode escapar do seu olhar. Esse seria o “olhar humano”, um fenômeno mais ligado aos vídeos de gato do que os de cachorro, precisamente porque os gatos quase nunca interagem com os espectadores.

“Essa dinâmica perde sua marcação de gênero — nesse caso, são humanos olhando para outras espécies”, explica Eppink.

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Grumpy Cat relaxa entre brinquedos criados em sua homenagem na Toyfair 2015, em Nova York. Crédito: Shutterstock

Gatos são uma ‘tabula rasa’ para as emoções humanas

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Henri, o Gato Existencialista olhando para o vazio. Crédito: YouTube

Certo, então o desinteresse característico dos felinos satisfaz nossos impulsos voyeurísticos. No entanto, a psicologia por trás dos vídeos de gatos é um pouco mais profunda: nós usamos gatos como veículos para projetar nossas próprias emoções.

Ao contrário dos cachorros, as emoções dos gatos são mais difíceis de identificar, o que facilita o ato de projetar você mesmo, outros ou qualquer coisa que você ache engraçada num gato, diz o Prof. John Bradshaw. Bradshaw é um professor aposentado e diretor do Instituto de Antrozoologia da Universidade de Bristol. Ele já escreveu alguns livros sobre comportamento animal, entre eles Dog Sense e Cat Sense.

“Os gatos são como uma ‘tabula rasa’, já que seus rostos e trejeitos são inexpressivos”, explica.

Os cachorros foram domesticados muito antes dos gatos — por volta de 20.000 anos atrás, em comparação com os 10.000 anos dos gatos, estima Bradshaw. No entanto, ele afirma que o tempo de domesticação não é tão significativo; o fator mais importante seria o motivo por trás desse processo.

“A domesticação deu aos cachorros a capacidade de formar laços afetivos com os humanos, e isso por sua vez permitiu que nós os treinássemos para cumprir uma série de tarefas: caçar, vigiar, pastorear etc”, diz. Mas e os gatos? “Os gatos foram domesticados basicamente para controlar pragas, e, diferente dos cachorros, eles eram mais eficientes trabalhando sozinhos, então eles nunca desenvolveram a necessidade de criar laços com os humanos, característica básica dos cachorros.”

Em um momento, “eles estão fazendo algo que gera algum nível de identificação; no momento seguinte, eles parecem seres de outro mundo”, diz Eppink. Ele diz que é fácil saber o que um cachorro está pensando: eles são leais, eles querem ser amados, e a complexidade emocional deles acaba aí. Já os gatos? Ninguém sabe. E é isso que incentiva a antropomorfização.

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Esse vídeo do gato Maru têm quase 14 milhões de visualizações. Crédito: YouTube

LOLCabras e Galinhas

A geografia também explica por que os gatos (e os cachorros) são tão populares na internet. Ou, na verdade, por que eles são tão populares na internet em países onde esses animais também são populares.

No ocidente, os gatos são animais de estimação tão populares quanto cachorros. De acordo com a Associação Americana de Medicina Veterinária, gatos e cachorros são de longe os animais de estimação mais comuns, representando entre 30% e 36% de todos os animais de estimação do país. Eles fazem parte do cotidiano de muitas nações, incluindo o Japão, país de origem do gato Maru, um felino tão famoso quanto a Lil Bub. (Isso pode explicar os cafés de gatos do Japão.)

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Metalinguagem: gatos reagindo a vídeos virais de outros gatos. Fonte: Fine Brothers

Mas Eppink me contou a história de uma colega que viajou para a Uganda e descobriu que os memes são relativos. A designer An Xiao Mina esteve na Uganda e descobriu que a população local não se divertia com vídeos de cachorros ou gatos — os animais mais populares eram as galinhas e as cabras. Lá existem memes de galinhas usando tênis, cabras sendo revistadas com detectores de metais e coisas do tipo – nada de gatos dentro de caixas de papelão.

Nas comunidades agrícolas da Uganda, animais como cabras e galinhas são uma parte essencial do cotidiano. E como tais, são uma ótima fonte de inspiração para memes.

“Os gatos representam uma criatura familiar na qual podemos nos projetar. Eles são distantes o bastante dos humanos para que possamos explorar e projetar nossos desejos e necessidades neles”, diz Eppink. “Enquanto nós tivermos gatos como animais de estimação, eles terão um papel específico na forma como nos comunicamos na internet.”

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Imagem inicial: YouTube