Não faz muito tempo que ficamos sabendo que janeiro foi o mês mais quente já registrado na história. Isso já ficou para trás: números oficiais ainda não foram divulgados, mas meteorologistas estão dizendo que fevereiro destruiu o recorde anterior de temperatura global de janeiro, adicionando mais 0,2 ou 0,3 graus Celsius ao termostato planetário.

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O motivo, dizem cientistas, tem muito a ver com a forma como os oceanos armazenam calor.

A National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), agência meteorológica dos EUA, vai divulgar o relatório climático de fevereiro de 2016 dentro de algumas semanas, mas, enquanto isso, alguns dados não oficiais de temperatura podem ser usados para dar ideia da onda de calor que nosso planeta atravessa.

Eric Holthaus escreveu no Slate um pouco sobre isso e disse que fevereiro deve ficar algo entre 1,15 e 1,4 graus Celsius acima da média de longo prazo – e também acima do recorde global registrado em janeiro. Mesmo Roy Spencer, que costuma ser bastante cético nesse assunto, disse que o mês passado bateu recorde de calor, com temperaturas no hemisfério norte chegando a 1,46 graus Celsius acima da média de longo prazo.

A taxa de aquecimento recente é surpreendente. Mas o que explica ela? Sim, sabemos que tem a ver com a mudança climática, e sim, também ouvimos falar bastante sobre como estamos ainda sob efeito de um El Niño fortíssimo, talvez o mais forte já registrado. Mas para realmente entender porque o termostato do planeta chegou a níveis tão altos, precisamos olhar para o que está acontecendo no fundo do mar.

Os oceanos estão como uma grande correia transportadora de energia, absorvendo o calor da atmosfera e redistribuindo-a por todo o mundo. Ao longo das duas últimas décadas, o Oceano Pacífico vem sequestrando calor loucamente, devido a uma combinação de ventos mais fortes do que o habitual e a ausência de grandes eventos El Niño. Depois do calor ser absorvido na superfície do oceano, ele é levado a camadas mais profundas pela circulação.

Entrou tanto calor no Pacífico de 1998 a 2014 que as temperaturas na superfície da Terra pararam de subir, resultando em algumas defesas de uma “pausa” no aquecimento global. Falei sobre um estudo publicado na Nature Climate Change recentemente descrevendo essa dissipação de calor. Eis o que escrevi na época:

Juntando dados de diversas fontes, incluindo uma expedição Challenger do século 19 e uma nova frota de dispositivos de monitoramento, o climatologista Peter Gleckler e seus colegas monitoraram mudanças no balanço da energia do oceano ao longo dos últimos 150 anos, criando o mais longo registro contínuo do que está acontecendo em diferentes profundidades.

No geral, eles descobriram que quase metade do aumento do calor global dos oceanos da era industrial foi acumulado nos últimos 18 anos… Além disso, 35% do calor afundou para mais de 700 metros de profundidade – iludindo medições e incitando reivindicações de um “hiato” no aquecimento.

Mas só porque o calor entra no oceano profundo não significa que ele fica por lá. O que leva os cientistas climáticos e meteorologistas pensarem que estamos vendo recordes de temperatura a todo momento: o calor do fundo do oceano está começando a subir.

Em 2014, o Pacific Decadal Oscillation (PDO) – um padrão recorrente climático que pode ser visto como uma versão de longo prazo do El Niño – mudou da fase fria para a fase quente. Mais ou menos na mesma época, os ventos começaram a se acalmar. O resultado? A água quente começou a circular de volta para a superfície do oceano. “E então em 2015, com o início do El Niño, ventos, nuvens e os padrões de circulação oceânica mudaram significativamente, resultando em mais desse aquecimento da superfície da água,” explicou o climatologista da NOAA Gregory Johnson ao Gizmodo por email.

Até quando as temperaturas globais continuarão subindo? A curto prazo, depende se o PDO vai permanecer na fase quente – algo que é bem difícil de prever. (Desde o começo do século 20, o PDO completou duas fases quentes com cerca de 25 anos de duração cada, e ambas estavam associadas a um crescimento no aquecimento planetário.)

A longo prazo, depende se vamos continuar lançando combustíveis fósseis na nossa atmosfera, um hábito que lideres de 195 países recentemente concordaram em se livrar até o fim do século. Gases do efeito estufa influenciam o nosso termostato planetário – e por mexer nas suas concentrações atmosféricas, já nos prendemos a décadas de aquecimento futuro.

Foto de topo: anomalias na temperatura global em fevereiro de 2016, via Ryan Maue/Weatherbell Analytics/Slate