Era um dia quente de junho de 1374 na cidade medieval de Aix-Ia-Chapelle, atual Aachen na Alemanha, quando a dança começou. Era a festa sagrada de São João Batista, que coincide com a celebração pagã do Solstício de Verão. Tradicionalmente, o dia de São João era um dia de descanso e oração para a tranquila cidade de Aachen.

Esse não era o caso em 1374. Começou com um pequeno grupo, talvez uma dúzia de pessoas. De repente, começaram a sacudir seus membros. Alguns gritaram ou uivaram. Outros se mexiam como se estivessem em transe.

Mais e mais pessoas da cidade se juntaram à dança errática. Servos, nobres, homens, mulheres, velhos e jovens – todos participaram da “praga da dança” de Aachen. Alguns pegaram instrumentos como a viela, flautas ou percussão.

Como observa o sociólogo Robert Bartholomew, às vezes os afligidos até empregavam músicos para tocar. Outras vezes, a música era tocada na esperança de curar as vítimas do inferno da dança. Como Justus Friedrich Karl Hecker descreve em seu livro, A Peste Negra e a Mania da Dança, as vítimas se davam as mãos formando gigantescos círculos ondulantes, girando e girando em círculos cada vez mais rápidos. Eles gritavam, chamando a Deus ou Satanás ou ambos. Seus movimentos eram aleatórios, até epiléticos. Por horas e horas, as pessoas da cidade dançavam sem descanso, comida ou água.

Epidemia da dança em gravura medieval. Crédito: Commons
Uma gravura de 1642 de Hendrik Hondius, baseada no desenho de Pieter Bruegel, de 1564, retratando os afligidos por uma epidemia de dança ocorrida em Molenbeek, na Bélgica. Imagem: Commons

Então, quando o céu finalmente escureceu, eles se dispersavam ou sucumbiam. Como observa o historiador HC Erik Midelfort em seu livro A History of Madness in Sixteenth-Century Germany [Uma história da loucura na Alemanha do século 16], alguns nunca mais voltariam a se levantar – morrendo de costelas quebradas ou ataques cardíacos. Mas, quando o sol nascia no dia seguinte, parte do grupo voltava a dançar. A mania da dança continuou por várias semanas.

Então, de repente, a praga dançante desapareceu de Aachen. As pessoas voltaram para suas casas, para suas vidas. Até que a praga da dança se espalhou para cidades além de Aachen, como a de Liège e Tongres, na Bélgica, para Utrecht, na Holanda, para Estrasburgo e Colônia, na Alemanha. Por todo o Reno, a praga dançante atormentava inocentes moradores das cidades.

Praça da dança em gravura do século 17. Crédito: CommonsGravura do século 17 mostrando a praga da dança. Imagem: Commons

Que diabos era a tal da praga da dança?

Em seu livro A Time to Dance, a Time to Die: The Extraordinary Story of the Dancing Plague of 1518, sobre a praga da dança de 1518 em Estrasburgo, o historiador John Waller cita tudo, desde as anotações dos médicos até documentos do conselho da cidade e sermões, todos eles inequivocamente referentes à dança das vítimas da praga. Eles não pareciam estar sofrendo de epilepsia ou outra doença associada a convulsões. Os movimentos das vítimas eram, como Waller afirma em seu livro, rítmicos e muito dançantes.

Uma das teorias predominantes sobre as pragas da dança tem a ver com o tempo delas. Quando a praga da dança atingiu Aachen, a devastação da Peste Negra ainda estava muito fresca na mente das pessoas. Durante o século 14, estima-se que a Peste Negra tenha matado algo entre 25% e 50% da população da Europa. A bactéria Yersinia pestis causou as doenças associadas à peste negra. A peste septicêmica, a peste pulmonar e mais comumente a peste bubônica resultaram da exposição à Y. pestis. Além da morte, os sintomas das pragas incluíam desde pele roxa a vomitar sangue e febre, entre outros sintomas muito mais grotescos.

Como você pode imaginar, as pessoas que viveram o horror da peste negra estavam questionando sua realidade e passando por extremo sofrimento psicológico. A morte os cercou. Famílias inteiras foram dizimadas da noite para o dia. Os mortos ladeavam as ruas e eram enterrados sem cerimônia em valas comuns. De fato, houve muitas reações extremas à peste negra.

Miniatura de Pierart dou Tielt mostrando pessoas enterrando vítimas da Peste Negra.Imagem: Commons
Miniatura de Pierart dou Tielt mostrando pessoas enterrando vítimas da Peste Negra. Imagem: Commons

O escritor e cronista italiano Giovanni Boccaccio, que viveu a peste negra enquanto ela passava por Florença, na Itália, escreve sobre essas reações entre seus vizinhos. Alguns optaram por “viver com moderação e evitar todo excesso… se reunindo e se afastando de todos os outros, formando comunidades em casas onde não havia doentes”. Em outras palavras, eles se afastaram dos outros em suas casas em uma versão medieval de isolamento social. Muitos recorreram a intensa oração e jejum, em um esforço para apaziguar Deus. Mas Boccaccio também escreve sobre pessoas que fizeram o oposto, pessoas que “bebiam livremente, frequentavam locais públicos e desfrutavam de canções e deleites, se preocupando em não deixar de satisfazer o próprio apetite e rir e zombar de todos os eventos”.

Embora essas duas reações pareçam estar em extremos opostos do espectro, ambas podem estar ligadas ao fervor religioso da época, que a Peste Negra apenas exasperou. A religião costuma se sair muito bem em tempos difíceis.

Monges e plebeus consideravam a Peste Negra um castigo divino por seus pecados. Um cronista franciscano de Lubeck escreveu que a Peste Negra era uma retribuição de Deus pelo mal dos humanos e indicativa do fim dos tempos. O cronista árabe as-Sulak e o monge franciscano suíço João de Winterthur apoiaram as idéias do franciscano de Lubeck em seus próprios escritos durante o período. Deus estava descontente com a humanidade, então ele decidiu flexionar um pouco os músculos e mostrar quem é o todo-poderoso.

Imagem da morte de um livro de horas francês da década de 1490. Imagem: CommonsImagem da morte de um livro de horas francês da década de 1490. Imagem: Commons

A crença de que Deus enviou a Peste Negra como punição começa a explicar o leque de reações observadas por Boccaccio, e até a praga dançante de Aachen em 1374. Pelo juízo final parecer tão iminente, as pessoas tenderam a uma das duas reações que Boccaccio apresenta: (1) Eles se tornaram hiper-religiosas e se arrependeram de seus pecados, ou (2) elas pensavam que tinham pecados demais então deveriam aproveitar.

Como resumiu o historiador grego e general Tucídides de Atenas em sua Praga de Atenas, “antes da [praga] chegar, era apenas razoável obter algum prazer na vida”. O mesmo aconteceu com o pensamento dos medievais que decidiram tomar uma farra de bebedeiras e festejos. Durante uma crise da praga em Londres em 1625, o poeta George Wither ecoou a observação de Boccaccio sobre as duas reações extremas das pessoas escrevendo:

Em umas ruas, igrejas cheias de gente chorando;

Em outras, tavernas cheias se empanturrando:

Em umas casas Salmos e Hinos são cantados;

Em outras urros risonhos são lançados.

Essa onda de religiosidade levou algumas pessoas a culpar Satanás e, por extensão, à adoração satânica pela Peste Negra. Houve um aumento de anti-semitismo e acusações de bruxaria durante o período, enquanto as pessoas procuravam culpar os outros pela devastação da praga.

Alguns estudiosos acreditam que esse mesmo zelo religioso desencadeou as pragas da dança, incluindo a dança de uma semana de 1374 em Aachen.

Algumas possíveis explicações para a praga da dança

Os estudiosos Kevin Hetherington e Rolland Munro, no livro Ideas of Difference, referem-se ao “estresse compartilhado” da Peste Negra e das guerras da época. Eles teorizam que foi esse estresse comunitário que causou as pragas da dança.

Outros estudiosos, como o sociólogo Robert Bartholomew, especulam que as pragas da dança eram uma espécie de ritual extático de uma seita religiosa herética. O historiador John Waller acreditava que as pragas eram uma “doença psicogênica em massa”, uma histeria em massa causada pelo sofrimento psíquico da Peste Negra.

Waller, juntamente com o psicopatologista Jan Dirk Bloom e Bartholomew, discutiram a teoria de que um agente biológico pode ter sido responsável pelas pragas da dança. Ou seja, que as vítimas das várias pragas dançantes podem ter sofrido envenenamento por ergotismo.

Ergot, um fungo que pode afetar o centeio durante os períodos chuvosos, pode causar espasmos e alucinações quando ingerido. Mas, como Waller e Bartholomew apontam, o envenenamento por ergot não pode explicar por que as vítimas dançaram ou por que as pragas dançantes eram tão difundidas. Qualquer que seja a causa, muitos estudiosos concordam que a peste negra e as pragas da dança estão intrinsecamente ligadas.

O ossuário do cemitério dos santos inocentes de Paris, com um dos primeiros afrescos da Dança da Morte, 1424. Imagem: Commons via Atlas Obscura
O ossuário do cemitério dos santos inocentes de Paris, com um dos primeiros afrescos da Dança da Morte, 1424. Imagem: Commons via Atlas Obscura

Como a peste negra mudou o mundo, além das pragas de dança

Mas as pragas da dança não são a única forma de dança que a Peste Negra inspirou. Após a devastação da Peste Negra, a arte e a literatura alegórica também adotaram o tema da dança. Já em 1424, encontramos representações artísticas da Danse Macabre, também conhecido como a Dança da Morte. Na Danse Macabre, a Morte, representada como um esqueleto dançante, leva pessoas de todas as esferas da vida em uma dança final e fatal para o túmulo. Apesar da riqueza, poder ou falta de ambos, todos vão participar da Danse Macabre.

A representação mais antiga conhecida da Danse Macabre é, muito apropriadamente, em um cemitério. Era um afresco no cemitério dos santos inocentes em Paris. Não deveria ser um cemitério muito tranquilo, com apenas clérigos e enlutados dentro de seus muros. O cemitério ficava em uma parte movimentada da cidade, vizinha a um mercado. O cemitério dos Santos Inocentes teria sido um lugar para se reunir, talvez até comer uma baguete. Muitas pessoas, de todas as esferas da vida, reconheceriam o afresco alegórico como um lembrete satírico de que se vive apenas uma vez.

Duas xilogravuras da Dança da Morte, de Hans Holbein. À esquerda, Adão e Eva são expulsos do Éden. À direita, está o Juízo Final. Imagem: Commons via Atlas Obscura
Duas xilogravuras da Dança da Morte, de Hans Holbein. À esquerda, Adão e Eva são expulsos do Éden. À direita, está o Juízo Final. Imagem: Commons via Atlas Obscura

A historiadora de arte Elina Gertsman documentou a popularidade da Danse Macabre como representações da alegoria espalhadas por toda a Europa. Da França, a Dança da Morte chegou a cemitérios, igrejas e várias fachadas na Suíça, Inglaterra, Alemanha, Itália e em toda a Europa Oriental. O famoso artista Hans Holbein, o Jovem, fez uma série de gravuras sobre o assunto na década de 1520, e os esqueletos dançantes da Danse Macabre ainda podem ser encontrados em tudo hoje em dia, desde o Saturday Night Live nos EUA até palcos de musicais.

Além da Danse Macabre e das pragas da dança, a Peste Negra também influenciou outra forma de dança a aumentar sua popularidade: as danças ritualísticas dos flagelantes. Como o historiador medieval David Herlihy explica em seu livro, A Peste Negra e a Transformação do Ocidente, durante a Peste Negra, grupos de pessoas marcham até a cidade atrás de um líder.

Quando chegavam à praça central da cidade, seu líder pregava sobre arrependimento a quem quisesse ouvir. Os manifestantes cantavam hinos enquanto realizavam um “ritual de dança”. Então, no auge da performance, eles faziam uma pose representando alguma forma de pecado – assassinato, adultério, perjúrio, etc. – depois disso, se despiam até a cintura e se flagelavam com chicotes em arrependimento. Bem ali, no meio da cidade, na frente de um monte de estranhos. Depois, vestiam as roupas e marchavam para a próxima cidade para repetir a apresentação.

Xilogravura de flagelantes da Crônica de Nuremberg de 1493. Imagem: CommonsXilogravura de flagelantes da Crônica de Nuremberg de 1493. Imagem: Commons
Xilogravura de flagelantes da Crônica de Nuremberg de 1493. Imagem: Commons

Esses programas públicos de flagelação se tornaram tão difundidos que, em 1348, o Papa Clemente VI tentou proibi-los. Infelizmente para Clemente, o movimento já havia decolado. Como Robert Lerner menciona em seu artigo, “A Peste Negra e as Mentalidades Escatológicas da Europa Ocidental”, os flagelantes realizavam seu ritual para inspirar outras pessoas a se arrependerem antes do fim do mundo, do Juízo Final. Muitos acreditavam que a Peste Negra era um indicativo do fim dos dias. Logo, Deus estaria sentado em seu trono, decidindo quem seria permitido ficar em sua casa nas nuvens. Os flagelantes acreditavam que eram precursores da nova era que se seguiria à Peste Negra. De certa forma, eles estavam certos.

Afresco de Michelangelo do Juízo Final de 1541. Imagem: Commons
Afresco de Michelangelo do Juízo Final de 1541. Imagem: Commons

As pragas de dança, a Danse Macabre, e os flagelantes foram todas reações à agitação maciça causada pela Peste Negra. Com quase metade da população da Europa destruída, uma mudança era inevitável. Herlihy, em seu livro, chama a Peste Negra de “o grande divisor de águas” na história da Europa Ocidental. O historiador britânico Denys Hays até vincula a devastação da Peste Negra ao nascimento do Renascimento Italiano em seu livro, O Renascimento Italiano e Seu Pano de Fundo. Após a peste negra, muitos dos sistemas em que a Europa medieval se baseava foram total e completamente alterados.

Veja o feudalismo. Já que tantas pessoas, especialmente os servos mais pobres que trabalhavam na terra, haviam morrido durante a praga, aqueles que sobraram podiam negociar melhores salários. Eles acharam que seu trabalho valia mais do que a proteção militar tradicionalmente oferecida a eles por seu senhor. Eles estavam certos. Como o historiador ambiental Jason W. Moore escreve em seu artigo, “A Crise do Feudalismo”, a Peste Negra não apenas significou o fim do feudalismo, mas também inaugurou a nova era do capitalismo.

A reestruturação maciça da sociedade que se seguiu à peste negra tornou-se mais conhecida como o Renascimento. Até hoje, o Renascimento é visto como o ponto de virada entre o “passado” e o começo do nosso mundo moderno. Mas, antes que a inovação e a engenhosidade do Renascimento fossem possíveis, as pessoas do século 14  precisavam processar as atrocidades da Peste Negra.

Ainda não sabemos muito sobre as pragas da dança, o Danse Macabre e os flagelantes. Em última análise, não sabemos ao certo por que o povo de Aachen dançou em 1374. Não temos muita certeza de como as imagens do Danse Macabre se espalharam como um incêndio pela Europa no século 15.

Não podemos dizer o que passou pela cabeça dos flagelantes enquanto eles caminhavam de cidade em cidade para realizar sua dança ritual e depois se bater com chicotes. Podemos assumir que eles precisavam de alguma maneira de incorporar sua dor. Eles precisavam dançar, bater e pintar. E, ao fazê-lo, talvez pudessem começar a processar os horrores que haviam sobrevivido. Talvez eles pudessem começar a se curar.

Sarah Durn é escritora, atriz e medievalista freelancer, baseada em Nova Orleans, Louisiana. Seu próximo livro, The Beginner’s Guide to Alchemy [Guia De Alquimia para Principiantes], será lançado em 5 de maio.