Acredita-se que o aço cromado, também conhecido como inox, seja uma inovação recente nos processos de fabricação da humanidade, mas novas evidências sugerem que os antigos persas descobriram uma versão precursora dessa liga há cerca de 1.000 anos, o que é uma surpresa para os arqueólogos.

Os antigos persas estavam forjando ligas feitas de aço cromado já no século 11 d.C., de acordo com uma nova pesquisa publicada na semana passada no Journal of Archaeological Science. Esse aço provavelmente era usado para produzir espadas, adagas, armaduras e outros itens, mas esses metais também continham fósforo, o que os tornava frágeis.

“Este aço cadinho em particular feito em Chahak contém cerca de 1% a 2% de cromo e 2% de fósforo”, disse Rahil Alipour, principal autora do novo estudo e arqueólogo da University College London, por e-mail.

Arqueólogos e historiadores estavam, até este ponto, bastante certos de que o aço cromado (não confundir com cromo, que é outra coisa) tinha sido uma invenção recente. E, de fato, o aço inoxidável como o conhecemos hoje foi desenvolvido no século 20 e contém muito mais cromo do que o produzido pelos antigos persas. Alipour disse que o antigo aço cromado persa “não seria inoxidável”.

Dito isso, o novo artigo “fornece as evidências mais antigas para a adição consistente e intencional de um mineral de cromo, mais provavelmente cromita, à carga de aço cadinho — resultando na produção intencional de um aço com baixo teor de cromo”, escreveram os pesquisadores em seu estude.

Uma tradução de manuscritos persas medievais levou a equipe de pesquisa a Chahak, um sítio arqueológico no sul do Irã. Chahak costumava ser um importante centro de produção de aço, e é o único sítio arqueológico no Irã com evidências da fabricação de aço cadinho, em que o ferro é adicionado a longos cadinhos tubulares, junto com outros minerais e matéria orgânica, que são então selados e aquecidos em uma fornalha. Após o resfriamento, um lingote é removido quebrando o cadinho. Essa técnica foi de vital importância entre muitas culturas, incluindo os vikings.

“O aço cadinho em geral é um aço de alta qualidade”, disse Alipour. “Não contém impurezas e é muito adequado para a produção de armas, armaduras e outras ferramentas.”

Um manuscrito chave usado no estudo foi escrito pelo polímata persa Abu-Rayhan Biruni, que data do século 10 ou 11 d.C. Intitulado “al-Jamahir fi Marifah al-Jawahir” (traduzido como “Um Compêndio para Conhecer as Gemas”), o manuscrito oferecia instruções para forjar o aço do cadinho, mas incluía um composto misterioso chamado rusakhtaj (que significa “o queimado”), que os pesquisadores interpretaram e posteriormente identificaram como sendo uma areia de cromita.

Resto de cadinho contendo um pedaço de escória embutido. Imagem: Rahil Alipour / UCL Archaeology

Escavações em Chahak resultaram na descoberta de carvão residual na escória (resíduos que sobram após a separação do metal) do cadinho antigo. A datação por radiocarbono deste carvão resultou em uma faixa de datas entre os séculos 10 e 12 d.C. Um microscópio eletrônico de varredura foi usado para analisar as amostras de escória, revelando vestígios de cromita mineral. Finalmente, uma análise das partículas de aço encontradas na escória sugere que o aço do cadinho Chahak continha entre 1% a 2% de cromo por peso.

“O aço cadinho feito com cromo em Chahak é o único do gênero conhecido por conter esse metal, elemento que reconhecemos como importante para a produção de aços modernos, como o aço ferramenta e o aço inox”, explica Alipour. “O aço cadinho de cromo de Chahak teria sido semelhante em termos de propriedades ao aço ferramenta moderno” e o “teor de cromo teria aumentado a resistência e a temperabilidade, propriedades necessárias para fazer ferramentas”.

Uma grande variedade de objetos persas de aço cadinho pode ser encontrada em museus ao redor do mundo, disse ela, e já sabemos que essa liga era usada para fazer armas afiadas, armaduras, objetos de prestígio e outras ferramentas. Chahak também é citada em manuscritos históricos como um lugar onde as lâminas e espadas de cadinho eram feitas, mas os relatos “também mencionam que as lâminas foram vendidas a um preço muito alto, mas eram quebradiças, então perderam seu valor”.

O fósforo, também detectado durante a análise, foi adicionado para reduzir o ponto de fusão do metal, mas também para reduzir alguma tenacidade, o que posteriormente fragilizou o metal.

Um grande pedaço de aço preso na escória do cadinho. Imagem: Rahil Alipour / UCL Archaeology

Apesar disso, a descoberta aponta para uma tradição persa específica de fabricação de aço, que é em si bastante importante. Até onde os autores sabem, o conteúdo específico de cromo visto no aço de Chahak pode ser usado para distingui-lo de outros artefatos.

“As evidências anteriores de aço cadinho, estudadas por acadêmicos, pertencem a centros de produção na Índia, Sri Lanka, Turcomenistão e Uzbequistão”, disse Alipour. “Nenhum destes apresenta qualquer vestígio de cromo. Portanto, o cromo como um ingrediente essencial da produção de aço cadinho de Chahak não foi identificado em nenhuma outra indústria desse material conhecida até agora.” Ao que ela acrescentou: “Isso é muito importante, pois agora podemos procurar esse elemento em objetos de aço cadinho e rastreá-los de volta ao seu centro de produção ou método.”

Para tanto, os pesquisadores esperam trabalhar com especialistas de museus para compartilhar suas descobertas e ajudar na datação e identificação de objetos com esta assinatura única de aço cromado.