Se existe um animal capaz de exemplificar uma tragédia Shakespeariana, esse animal é o Pug. As mesmas características que tornaram esses cães estrelas do Instagram e uma das raças mais populares – a cabecinha em formato de cubo, os olhos grandes e salientes e as dobrinhas quase infinitas – também escondem uma série de problemas de saúde. Um novo estudo publicado nesta segunda-feira (5), na BMJ, sugere que a condição do reino dos Pugs é ainda pior do que pensávamos.

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Pesquisadores suecos entrevistaram 550 donos de Pugs que completaram um, cinco ou oito anos de vida entre 2015 e 2016. Os Pugs eram todos registrados no Swedish Kennel Club. Além de preencherem um questionário online ou no papel, os donos também deveriam mandar pequenos clipes de vídeo de seus cães andando lentamente de um lado para o outro em uma coleira, de diferentes ângulos, incluindo de lado. Esses vídeos foram analisados por dois neurologistas veterinários.

Entre os entrevistados que responderam a uma pergunta sobre o modo de caminhar de seu animal de estimação, quase 80% afirmaram que seus Pugs tinham uma passada normal. Mas 30% também disseram que os cães mostravam sinais diretos e indiretos de uma caminhada anormal, evitando determinadas superfícies como asfalto, apresentando dificuldades ao pular e desgaste nas patas com sangramento nas unhas e na pele da parte da frente da pata, supostamente causados por arrastá-las.

Os neurologistas que analisaram os vídeos julgaram que um terço dos Pugs (59 deles no total) tinha problemas para andar.

Pior do que isso, o estudo revelou um padrão sombrio entre os 47 cães que sofreram eutanásia durante o período do estudo.

“Embora problemas respiratórios tenham ganhado muita atenção entre os Pugs e outras raças braquicefálicas (com rosto curto) – e com razão –, esse estudo mostra que a causa de morte mais comum na raça está relacionada com uma caminhada anormal”, contou a líder do estudo Cecilia Rohdin, neurologista veterinária e doutoranda na Universidade Sueca de Ciências Agrícolas, via email. No total, mais de um quarto das mortes estava ligado a problemas na passada. “Isso sugere que anormalidades na caminhada são um problema de saúde mais significativo do que o sugerido, pelo menos na literatura científica publicada”, adicionou.

Problemas de caminhada são conhecidos por ser um indicador de doenças neurológicas ou ósseas que estão escondidas. Porém, a maioria dos Pugs afligidos tinha problemas com a coordenação motora, e, portanto, a culpa mais frequente pode estar relacionada a um problema neurológico, segundo os autores. Os Pugs mais novos são menos propensos a mostrar esses sinais, porém os problemas se tornam mais comuns após o primeiro ano. Os cães com problemas na caminhada também tinham dificuldades para fazer suas necessidades básicas.

Os donos não conseguiam identificar a caminhada problemática com tanta precisão quanto os pesquisadores, o que sugere que eles enxergavam seus cães com um filtro positivo. Rohdin aponta que muitas pessoas acham que esses sinais indiretos são inofensivos, uma vez que não fazem parecer que o cão está sofrendo. O fato do desgaste nas patas ser causado por arrastá-las também pode significar que eles possuem dificuldades em sentir algumas sensações, outro sinal de problemas neurológicos.

Neste momento, não está claro exatamente se o problema está no formato do corpo da raça que parece torná-lo mais suscetível a essa dificuldade na caminhada. Os Pugs são conhecidos por fazerem parte de um grupo de maior risco de distúrbios cerebrais ligados a causas genéticas, como a encefalite.

“A anatomia de raças braquicefálicas, incluindo o Pug, os torna mais propensos a ter problemas de saúde; alguns desses problemas são ‘fáceis’ de entender, um exemplo são os olhos grandes e saltados, que tornam mais comuns úlceras na córnea (eles ‘tocam em coisas’); um focinho mais curto com estenose das narinas torna difícil a respiração e, consequentemente, afeta a termorregulação”, conta Rohdin. “Se – e em caso afirmativo, como – essas anormalidades de caminhada estão associadas com a configuração do corpo do Pug ou não, isso é algo que precisamos estudar mais a fundo.”

Sob a luz dos problemas conhecidos, grupos de defesa ao bem-estar animal pedem a proibição do uso de Pugs e raças similares em propagandas publicitárias, para que menos pessoas sejam encorajadas a comprá-los e aumentar a demanda. Veterinários do Reino Unido já foram a público pedir para que as pessoas parem de comprá-los, afirmando que a popularidade crescente da raça levou ao “aumento do sofrimento animal”.

Da parte dos pesquisadores, Rohdin e seus colegas não omitem opinião a respeito da continuidade de cruzamento entre Pugs.

“Meu papel como pesquisadora é fazer pesquisa e não ter uma opinião. Eu conheci muitos pugs e seus donos, amo a personalidade adorável deles e vejo como são queridos por seus donos”, disse. “Todos nós, veterinários, cientistas, criadores, donos de pugs, precisamos trabalhar juntos para que os Pugs sejam mais resistentes no futuro.”

Rohdin espera que sua pesquisa e outras publicações possam ajudar a apontar as causas hereditárias dos problemas relacionados diretamente com os Pugs, o que pode fazer com que, no futuro, aconteça uma seleção genética de cães mais saudáveis.

“Enquanto isso, o melhor que você pode fazer por seu Pug é mantê-lo em forma e ativo”, disse ela. “Embora a obesidade não esteja associada com anormalidades de caminhada entre os pugs, ela é considerada um fator de risco para a síndrome de via aérea de braquicefálicos e deve ser evitada.”

Imagem do topo: Getty