Fabricantes simplesmente não conseguem deixar o Android em paz. Quando fazem dispositivos com o sistema, precisam customizá-lo. Temos o TouchWiz, da Samsung, o MotoBlur, da Motorola, o Sense, da HTC, e outros. Essas customizações ficaram conhecidas como “skins”.

Skins são um assunto delicado. Entusiastas esbravejam que os aparelhos seriam bem melhores se não tivessem skins – se usassem apenas o Android puro liberado pelo Google. Nossos leitores gritam todas as vezes que escrevemos sobre algum novo smartphone com Android. Nós reclamamos delas mais alto que ninguém. É o suficiente para fazer você pensar porque diabos fabricantes continuam usando skins. Então nós decidimos perguntas a elas.

O que é uma skin?

Quando o Google libera uma versão nova do Android, pura e nua para o mundo, fabricantes de aparelhos customizam o software para seus dispositivos. A alteração no OS – a skin – muda o visual do software e altera o desempenho dele. Mas vamos deixar uma coisa clara: para fabricantes, “skin” é uma palavra suja.

“É um assunto controverso”, disse Drew Bamford, vice-presidente de user experience da HTC. “Eu não chamaria de ‘skin’, no sentido de que skin é algo fino. O Sense da HTC é algo extenso e profundo. Vai muito além da tela inicial ou qualquer outra parte da experiência do usuário.”

Fabricantes, então, preferem o termo “third-party UI” (interface de usuário de third-party). Então tudo bem.

Por que Skins Third-Party UIs existem?

A resposta básica para isso é que fabricantes afirmam que a skin melhora a experiência de usuário.

Para a HTC, skins começaram como uma forma de tornar o smartphone mais usável. Em 2007, o Windows Mobile foi desenvolvido para usar stylus. A HTC teve que modificar a UI para o HTC Touch poder ser navegável usando os dedos. Isso evoluiu quando o conteúdo do usuário foi colocado no centro da interface para o HTC Diamond, e muito disso foi transportado pra o Sense no HTC Hero, que foi  primeiro dispositivo com Android que contou com uma interface diferente da desenvolvida pelo Google. Destacar conteúdo pessoal ainda é a prioridade da HTC no Sense, mas a empresa está incluindo outras funcionalidades também. O Sense permite que você faça uma chamada direto do calendário, faça buscas no discador, e a câmera têm recursos como um contador para tirar um auto-retrato.

A missão da Samsung com o TouchWiz é tanto de esclarecer a interface do Android quanto reforçar os recursos. Controles de energia são incorporados ao painel de notificações, dando acesso rápido a configurações comuns sem precisar mudar de tarefa. Tem um recurso de de tags automáticas em fotos, e maior integração com recursos corporativos. E também tem recursos que você gostaria que estivessem em todos os Androids – uma delas detecta se você está olhando para o telefone e, se não estiver, a tela desliga. E também tem o suporte a cartões SD, que não aparecem no código-fonte do Android desde o Nexus One.

Do ponto de vista da Motorola, existem duas razões que levam fabricantes a customizarem o Android. “A primeira é se a plataforma que você trabalha está subdesenvolvida, e há muito a ser feito nela”, afirma o vice-presidente de Gerenciamento de Produtos da Motorola Mobility, Punit Soni. “E a outra coisa é que você quer criar uma identificação para a sua marca que seja diferente de outras”. O foco da Motorola está no primeiro motivo, o que significa que ela está modificando menos o Android conforme ele melhora.

Como as skins evoluíram?

Skins evoluíram junto com o Android. Entre o Gingerbread (2.3) e o Ice Cream Sandwich (4.0), teve uma mudança significativa de como o OS parece e funciona. O Jelly Bean (4.1) aperfeiçoou isso ainda mais, tornando as coisas extremamente rápidas, simples e suaves – teve uma melhora tão grande entre o 4.0 e o 4.1 que muitos acreditavam que as third-party UIs iam desaparecer. Não foi isso que aconteceu. Mas as skins mudaram.

A Motorola é uma que está em um extremo. MotoBlur era o nome da interface lançada em 2010. Foi destruída por críticos. Agora, a empresa não usa mais a marca MotoBlur. Parte da customização ainda existe, mas como o Android melhorou, a skin da Motorola é muito diferente do que já foi. Não é mais tão necessária também, já que o Google adaptou o Android para entregar a maior parte das coisas que tinham nas UIs customizadas. “Eu acho que nós devíamos minimizar a customização no Android”, disse Soni. “Reinventar a roda não  parece ser o melhor uso dos nossos recursos.”

Ele acha melhor adicionar softwares para preencher vazios no Android, como fazer as configurações mais acessíveis. Mas no geral, a filosofia preferida dele é de olhar para o hardware em primeiro lugar. Ver como ele funciona com o Android. Então, se for necessário, você desenvolve softwares para torná-lo melhor. Talvez essa filosofia tenha relação com o fato do Google ter comprado a Motorola Mobility (e Soni ter trabalhado no Google também).

O HTC Sense caminha em uma direção similar, de algo bastante diferente para uma coisa bem mais próxima ao Android puro. “O caminho foi definido pelos nossos consumidores – ao ouví-los sobre como eles se sentiam com o Sense 3”, disse Bamford. “Muito do feedback que tivemos foi de que ele parecia pesado Nós meio que exageramos, adicionamos muitas transições animadas e muitos detalhes. Ele estava estranho.” Agora, a HTC está focada no conteúdo do usuário, e tenta fazer a UI não atrapalhar.

Em contraste, a Samsung foi em outra direção. Ela aproveita o apelo de massa dos dispositivos Galaxy (especialmente o Galaxy S III e o Galaxy Note II) e adiciona funcionalidades únicas. Quanto mais melhor. Eles carregam o TouchWiz da maior forma possível, com adições desde a câmera até controles de voz expandidos na esperança de atingir um público mais amplo.

A ironia na jornada da Samsung é que, na tentativa de fazer algo que atinja todo mundo, ela acabou criando coisas mais complexas. Os menus são simples, mas acabam sendo ofuscados pelo enorme volume de recursos. Tem tanta coisa que até geeks conseguem se perder. Um pequeno exemplo: muitos telefones rodando ICS ou mais recentes têm uma tecla específica para multitasking, enquanto os dispositivos da Samsung exigem que o botão home seja pressionado por alguns segundos. Um clique duplo no mesmo botão abre o S-Voice. Muitos usuários novos com quem conversei não tinham nem ideia disso. É uma coisa pequena, mas é a representação de uma filosofia de design: e vez de fazer as coisas mais intuitivas, o TouchWiz trabalha com comportamento memorizado.

O que o Google acha disso tudo?

O Google criou o Android para ser uma plataforma aberta, então ele é customizável por natureza. O Google não quer acabar com isso. Na verdade, é meio que o oposto. De acordo com Nick DiCarlo, vice-presidente de Planejamento de Produtos e Marketing da Samsung, “o Google induziu um sistema no qual algumas das maiores empresas do mundo – a maior fabricante de dispositivos móveis e mais um monte de outras muito grandes – estão investindo muito dinheiro por trás do ecossistema. É um modelo de negócios poderoso e, honestamente, brilhante.”

Faz sentido. O Google pode empregar centenas de pessoas para desenvolver a base do Android, mas empresas grandes como a Samsung podem destinar milhares de pessoas para melhorá-lo. Quando entrevistamos Matias Duarte, diretor de User Experience do Android, ele expressou grande entusiasmo com as skins. “Nós percebemos que a personalização dessas skins, enquanto algumas podem ser ruins, outras são muito boas. É algo que faz o ecossistema do Android funcionar tão bem: ele dá muitas opções.”

E as operadoras?

Além de fabricantes e do Google, as operadoras também têm motivação para oferecer aparelhos com skins próprias – elas querem oferecer produtos com benefícios únicos, segundo Bamford, da HTC. “Se elas são forçadas a oferecer cinco aparelhos com Android de fabricantes diferentes com a mesma interface, fica difícil explicar ao consumidor porque eles devem escolher um e não o outro.”

As necessidades das operadoras vão além da diferenciação de produtos. “Antes do novo software aparecer, nós temos uma série de exigências que fabricantes precisam desenvolver”, explica Jason Young, da T-Mobile. “Com que velocidade você pode realizar certas tarefas? Qual tipo de teclado virtual ele terá? Nós exigimos que da tela inicial até a câmera demore um certo tempo. Ou da home até a inicialização do navegador leve poucos segundos.” A T-Mobile tem meia dúzia de exigências para cobrir esses padrões, e todas as outras operadoras também têm.

Mas as operadoras não precisam falar com fabricantes para isso. A Sprint trabalha diretamente com o Google. O objetivo é fazer o Google incluir esses recursos na próxima atualização do Android. O que não entrar vira uma exigência para fabricantes.

“Como é das operadoras que você compra o aparelho e para elas que paga as contas, elas possuem o consumidor, certo? Essa é a visão delas, e essa é a nossa visão”, disse DiCarlo, da Samsung. “Então elas querem criar um serviço de adoção além do sistema.” Isso explica aplicativos e serviços pré-instalados por cada operadora. Elas apresentam isso como benefícios para agregar valor, e às vezes é verdade. Mas, no fundo, uma skin é outra oportunidade de deixar o consumidor ligado a um ecossistema de uma operadora.

Skins não atrasam atualizações?

Eis uma das críticas mais frequentes feitas às interfaces personalizadas: é culpa delas que alguns aparelhos demoram tanto para receber atualização para a versão mais recente do Android. A verdade é que a maior parte do atraso acontece antes da skin ser aplicada.

Quando o Google lança uma atualização do Android, ela está crua. Precisa ser desenvolvida para funcionar com cada hardware, software e drivers dos telefones, para que tudo funcione perfeitamente com o sistema. O quanto isso demora depende das mudanças feitas pelo Google. Tudo é testado, e depois retestado. Pode demorar para uma fabricante até dois meses para tornar a atualização boa o suficiente para enviar para a operadora. O tempo depende da complexidade da atualização, além da atenção que a fabricante dá para cada aparelho.

“Mesmo que a gente não faça customização, não tenho certeza de que o processo seria mais rápido, para ser honesto”, disse Bamford, da HTC. “Há muita discussão e negociação entre a HTC e as operadoras antes da gente chegar ao ponto de conseguir liberar uma atualização.”

Depois de deixar a fabricante, a operadora precisa fazer testes exaustivos. “Quando lançamos novos produtos para operadoras, podemos ter ele rodando por até seis meses antes de chegar ao consumidor. Pode demorar muito tempo”, disse DiCarlo, da Samsung.

Então os consumidores preferem o Android puro, certo?

Aí é que está. Muitos reviews de aparelhos falam “Ugh, uma skin”. Todos os comentários concordam. Mas isso não necessariamente reflete a realidade da situação.

A blogosfera tem uma força, mas é uma força minoritária. Fora da internet, no mundo real, a maior parte dos usuários não sabem o que é uma skin. Muitos nem sabem qual versão do Android estão rodando. E eles não se importam. Querem apenas que o aparelho funcione. A comunidade de entusiastas de tecnologia pode achar difícil de aceitar, mas é a verdade.

“Para uma pequena minoria de pessoas que compram telefones com Android, o programa Nexus é muito popular”, diz Bamford. “Acho que ele tem um apelo forte entre aqueles que consideram uma experiência ‘pura’ do Android. Mas isso é um pequeno segmento. Não acho que os telefones Nexus vendem em um volume muito grande.”

DiCarlo diz a mesma coisa sobre o Galaxy S III, que roda a TouchWiz e é quase que certamente o Android mais popular até hoje. “Achamos que entusiastas vão achar coisas que amam nele, mas as mães desses e entusiastas vão amar também.”

Bamford compartilha do sentimento. “O mercado de fanáticos é importante para a HTC. Mas é um pedaço dele. Eles são nossos usuários originais. Não queremos abandoná-los. Mas queremos também nos adaptar para atingir um mercado muito mais amplo que, francamente, tem necessidades diferentes. Estamos tentando balancear isso.”

Com tudo isso dito e feito, nenhum aparelho pode agradar todo mundo. E isso faz parte da estratégia aberta do Android. Se você não gosta de um aparelho, existem outros para escolher. Ame ou odeie, as skins de Android estão aí para ficar.

Crédito da imagem: Scott White