Pesquisadores do Centro de Excelência em Comunicações Estratégicas da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) divulgaram um relatório na última semana mostrando que — finja surpresa! — continua sendo muito fácil comprar seguidores e engajamento em plataformas de mídias sociais, como Facebook, Instagram, Twitter e YouTube.

Os especialistas informaram que testaram o preparo de quatro plataformas comprando o engajamento em 105 postagens separadas nos quatro sites, usando 16 “provedores de serviços de manipulação de mídia social” (11 deles russos e os outros cinco operavam fora da Europa). Por apenas 300 euros (cerca de R$ 1.380), a equipe conseguiu atrair 3.530 comentários, 25.750 curtidas, 20 mil visualizações e 5.100 seguidores — no processo de identificação de 18.739 contas “usadas para manipular plataformas de mídia social”.

A equipe também descobriu que quatro semanas depois, cerca de 80% dos engajamentos não autênticos que haviam comprado ainda estavam disponível online. Eles também relataram uma amostra das quase 19.000 contas envolvidas em manipulações, descobrindo que cerca de 95% permaneceram online após três semanas.

O centro aconselha a OTAN e conta com o nome da organização em seu nome, porém ele opera de forma independente da aliança militar, segundo o New York Times. Embora a maioria dos testes tenha sido executado em contas criadas para o experimento, eles também impulsionaram algumas postagens de contas verificadas, como a da comissária antitruste da União Europeia, Margrethe Vestager, e da comissária da justiça, Vera Jourova, — mas apenas aquelas que tinham pelo menos seis meses de idade e transmitiam sentimentos apolíticos para evitar ter um impacto em conversas reais. Segundo o estudo, parecia não haver mecanismos para policiar melhor as contas verificadas do que as artificiais.

O relatório afirma que longe de ser um “submundo sombrio”, a manipulação de mídia social é um “mercado acessível a maioria dos usuários da web e que pode ser achado sem esforço por qualquer mecanismo de pesquisa”. Em muitos casos, as empresas envolvidas nesse trabalho anunciavam abertamente a compra de produtos falsificados nas próprias plataformas.

Os resultados foram entregues em menos de um dia, com exceção do Twitter, que às vezes levava dois dias. O Twitter removeu aproximadamente metade das curtidas e retuítes comprados no período do estudo, enquanto o Facebook provou ser o melhor em identificar contas não autênticas, mas não em remover conteúdo. O Instagram e o YouTube ficaram para trás, com o YouTube removendo nenhuma das 100 contas relatadas sem nenhuma explicação. No entanto, o YouTube foi a rede mais cara para se adquirir engajamento, o que talvez não seja surpreendente, considerando que as visualizações de vídeo no site podem se traduzir diretamente em receita publicitária.

Os resultados são especialmente preocupantes, uma vez que 2020 é um grande ano eleitoral nos EUA, onde o impacto exato das campanhas de desinformação nas mídias sociais ainda não foi totalmente esclarecido. Eles também indicam que, apesar das garantias, as empresas de tecnologia estão fazendo um péssimo trabalho para impedir ações automatizadas nas redes sociais.

“Avaliamos que o Facebook, Instagram, Twitter e YouTube ainda não conseguem combater adequadamente o comportamento não autêntico em suas plataformas”, escreveram os autores Sebastian Bay e Rolf Fredheim no relatório. “A auto-regulação não está funcionando. A indústria de manipulação está crescendo ano a no. Não vemos Sinai de que esteja se tornando substancialmente mais caro ou mais difícil realizar uma manipulação generalizada das mídias sociais”.

“Dado o baixo número de contas removidas, é claro que as empresas de mídia social ainda estão lutando para remover contas utilizadas em manipulações, mesmo quando elas são relatadas a elas”, concluíram os pesquisadores. “…mesmo que o mercado seja um pouco caótico, ele funciona razoavelmente bem e a maioria dos pedidos é entregue em tempo hábil e preciso. A manipulação de mídia social permanece amplamente disponível, barata e eficiente”.

“Passamos tanto tempo pensando em como regular as empresas de mídia social — mas não tanto em como regular o setor de manipulação de mídia social”, disse o pesquisador Sebastian Bay ao New York Times. “Precisamos considerar se isso é algo que deve ser permitido, mas, talvez estar muito ciente de que isso é tão amplamente disponível”.

“O engajamento falso — gerado por contas automatizadas ou reais — pode distorcer a popularidade percebida de um candidato ou problema”, acrescentou a pesquisadora Samantha Bradshaw, do Oxford Internet Institute, no relatório. “Se estas estratégias estão sendo usadas para ampliar desinformação, conspiração e intolerância, as redes sociais poderão exagerar a polarização e a desconfiança que existem na sociedade”.

Especialistas disseram ao Gizmodo em 2018 que é praticamente impossível quantificar quantos usuários de mídias sociais são usuários mesmo ou bots, embora todos concordem que a porcentagem provavelmente esteja abaixo de dois dígitos.

Empresas especializadas em monetizar esses exércitos de bots operam em grande parte em uma zona segura legal, embora isso esteja mudando.

No início desse ano, o escritório da Procuradoria Geral de Nova York anunciou um acordo com a Devumi LLD, uma “fábrica de seguidores” criticada por um artigo de 2018, no que caracterizou como a primeira descoberta por uma agência policial que “vendia mídias sociais falsas, engajamento e o uso de identidades roubadas para participar de atividades online são ilegais. “O órgão disse que as atividades da empresa violavam as leis existentes que proíbem fraudes, propaganda enganosa, proteção ao consumidor e (quando esses bots usavam fotos de pessoas reais) roubo de identidade.