Quando se lança um celular de US$ 1.000, as regras do jogo mudam. A Apple subiu o sarrafo no ano passado com o iPhone X e, como de costume, ditou as tendências para os smartphones concorrentes. E depois de se lançar um celular como o iPhone X, não tem como voltar atrás.

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Se o ciclo de atualizações do iPhone deste ano viesse com um modelo parecido com o iPhone 8, eu apostaria em um fracasso. Por outro lado, chegar no mercado com celulares que custam valores pornográficos também não me parece a melhor estratégia. Por isso, nasceu o iPhone XR, a alternativa “mais barata” entre os iPhones de 2018.

Mas e aí, o iPhone XR é muito pior do que o Xs? Vale a pena gastar menos? Quais são os sacrifícios? O salto em relação ao 8 é grande? Testei o aparelho durante as últimas semanas e conto aqui a minha experiência, tentando responder a essas questões.

Identidade


Aquela primeira olhada para o celular faz os olhos brilharem e o coração dá uma leve acelerada – mais pelo medo de derrubar um objeto de R$ 5.199 do que por qualquer outro motivo. E quando digo que os olhos brilham, é porque as cores são muito vibrantes. Pela primeira vez desde 2013, a Apple decidiu oferecer diversas cores para um iPhone.

O modelo que testei era amarelo, que era bonitinho mas não o meu favorito. Achei o vermelho e o azul bem interessantes, e para quem é mais conservador o negócio é ir no branco ou no preto mesmo. A única cor que realmente não curti foi a coral, achei bem lavada.

Como a cor é questão de gosto pessoal, ter variedade faz bem. Mas, olha, não espere muita discrição caso você pegue um dos iPhones coloridos. Chama muita atenção mesmo. É como se o novo iPhone tivesse uma identidade forte; essa uma das poucas coisas que o diferencia em relação ao iPhone Xs e Xs Max, inclusive.

Falando em construção, é mais fácil compará-lo com o iPhone 8 Plus – além de ter sido o modelo que testei no ano passado, é o que mais se assemelha em tamanho. O iPhone 8 Plus era grandão, pesado (202 gramas) e tinha tela de 5,5 polegadas.

O XR tem um corpinho menor, é ligeiramente mais leve e tem tela de 6,1 polegadas – o ganho da tela que ocupa praticamente todo o espaço frontal é notável e me permite dizer que a Apple chegou em 2018. Ainda assim, não espere um celular levinho: são 194 gramas.

Agora, uma pausa para um desabafo cara a cara com ele, o notch. Bicho, você é zoado, você é feinho. A verdade é que eu tento te ignorar e, olha, até consigo. Às vezes você parece aquela decoração brega na casa da vó: com o tempo meio que desaparece. Mas não fique tão magoado, eu sei que você está aqui para abrigar o FaceID, por isso eu te aturo.

Eu tenho uma outra mágoa com você, mas não é culpa sua… Quando você chegou ao iPhone, fez com que praticamente todas as outras fabricantes quisessem te adotar também. Praticamente ninguém seguiu a boa solução de design da Samsung para as telas infinitas – a LG, por exemplo, tinha adotado uma alternativa similar no G6, mas passou logo a adotar o notch no G7. Bem, é nessas horas que a gente consegue tornar tangível a influência da Apple na indústria, né?

Enquanto você não vai embora, eu sento e contemplo as ideias mirabolantes que as companhias chinesas estão tentando emplacar, até a Apple escolher uma solução e a gente te dar adeus de vez.

Quando a luz dos olhos meus e a luz dos olhos teus resolvem se encontrar

Se você usa um smartphone com leitor de impressões digitais, sabe que a sensação de voltar para o tradicional PIN é como regredir uns 10 anos. Usar o FaceID é a mesma coisa – voltar para o PIN dá a sensação de estar 20 anos no passado e usar um leitor de digital uns 5. O recurso funciona muito bem e quase nunca me deixou na mão – literalmente, afinal é preciso digitar o PIN quando o negócio falha.

Achei bacana porque funciona no claro, no escuro, de cabelo seco, de cabelo molhado, de cima pra baixo, de baixo pra cima, de óculos de grau, sem óculos de grau… Só não rola quando você está de óculos de sol, como o Guilherme mostrou no vídeo do Xs Max.

E agora que São Paulo começou a demo do inferno, fico contente de poder usar o FaceID em vez do TouchID. No caso dos sensores de impressão digital, basta o dedo dar uma leve suada para você não conseguir mais desbloquear o celular de primeira, o que não acontece aqui.

O FaceID, o notch e a tela praticamente sem bordas redefine o jeito de se usar um iPhone. E eu sei que é difícil dar adeus a velhos amigos, mas às vezes é preciso… Sem o botão home, toda a navegação pelo sistema é feito por meio de gestos.

Eu sempre fui entusiasta dos gestos no celular e me recordo com muita nostalgia do Nokia N9, então rapidamente substituí um amigo pelo outro, como mandam as relações líquidas de nossa era. A adaptação para o novo sistema de navegação do iOS se deu em um dia. E a curva de aprendizado é rápida; algumas horas de uso e você já fica craque. Uma das coisas que eu mais curti nesse novo jeito de mexer no celular foi arrastar o dedo sobre a linha para ir e voltar entre dois apps.

A tela e uma ferida

Já que estou falando de mexer no celular, chegou a hora de mexer numa ferida… A tela. Eu não vou tentar fazer uma malabarismo aqui, mas é preciso passar por alguns pontos. Eu acho bem zoado que a Apple coloque uma tela com resolução que fica abaixo do FullHD (1080p) e um pouco acima do HD (720p) em um celular de R$ 5.200. É zoado e não tem desculpa. Mas isso não significa que a tela é ruim.

Para quem gosta de números, vamos à eles:

O iPhone XR tem 828 x 1792 pixels em uma tela de 6,1 polegadas. Isso significa que ele tem 326 pixels por cada polegada e que a resolução fica abaixo do FullHD (1080p) e um pouco acima do HD (720p).

Para efeitos de comparação, o iPhone Xs tem 1.125 x 2.436 pixels em 5,8 polegadas – ou seja, 458 pixels por polegada. Já o iPhone 8 Plus tinha a resolução clássica de 1080 x 1920 pixels em 5,5 polegadas (401 pixels por polegada).

O ponto é que é difícil perceber a diferença de resolução no dia a dia. Se você colocar o celular bem pertinho do seu olho, poderá perceber com mais facilidade – mas ninguém faz isso na vida real.

A tela do iPhone XR é sim, bonita. As cores são bem vivas, embora o preto não seja tão profundo quanto aquele que aparece nas telas OLED dos irmãos mais caros. O brilho é muito, muito bom e não tive problemas para enxergar sob o sol.

A única diferença que eu reparei e fiquei um pouco paranóico foi quando abri o Gmail e o Messenger. Em ambos aplicativos, as letras parecem levemente embaçadas. O curioso é que isso não se repete em apps como WhatsApp, Twitter, Instagram ou Safari – para citar os que eu mais uso. Talvez isso esteja relacionado com o desenvolvimento de cada app e se está rolando algum tipo de upscalling de resolução. Entramos em contato com a Apple para esclarecer isso e vamos atualizar o review quando tivermos alguma resposta.

O que eu posso garantir é que é difícil de notar diferenças na maioria das vezes. Abri lado a lado uma matéria do Gizmodo Brasil no Safari no iPhone XR e no iPhone 8 Plus e a experiência foi melhor com o modelo mais recente, justamente pelo tamanho da tela. A mesma coisa rolou quando eu assisti algum filme na Netflix ou um vídeo no YouTube. Se você está a fim de comprar o modelo, te encorajo a ir em uma loja e pedir para o vendedor mostrar as telas do Xs e XR lado a lado; verá que há pouca diferença.


Agora, o Force Touch me fez falta. Não é daqueles recursos essenciais, mas eu estava acostumado a usá-los para alguns atalhos na tela inicial ou para pré-visualizar um perfil no Facebook ou no Twitter. A Apple diz que em algumas partes do iOS o Force Touch foi substituído por um “pressionamento longo”; alguns aplicativos estão adotando isso aos poucos, também.

Eu não me importo tanto em sacrificar o Force Touch, ainda que seja uma funcionalidade bacana. O problema é sacrificar tanto a resolução. De qualquer modo, você pode xingar muito no Twitter porque me parece sacanagem um celular desse preço com uma resolução mixuruca (embora os números não contem toda a história).

Bateria

Há quem defenda que a resolução menor compense pela autonomia de bateria do iPhone XR. Mas não vejo isso como um argumento tão sólido. E, novamente, meu problema não é com a tela em si, mas com o que parece ser uma economia desnecessária da Apple – o aparelho é muito, muito caro.

Repito o que disse há pouco: nem sempre os números significam a vida real, mas aqui vai uma comparação bem direta: fiz muitos elogios à bateria do iPhone 8 Plus, que tinha uma autonomia monstruosa – afinal, era um celular que eu confiava em sair de casa e voltar com carga sobrando. Era uma célula de bateria com 2691mAh em uma tela com 401 pixels por polegada. A bateria do iPhone XR é maior: 2942mAh e a resolução, como já comentamos, é menor.

Em termos de autonomia, eu esperaria um ganho muito considerável por essa troca. O que acontece é uma melhoria pequena, ainda que muito bem-vinda.

No meu dia a dia, geralmente é este o uso que faço: tiro o celular da tomada perto das 8h, e o uso esporadicamente até meio-dia; a parte mais intensa é entre 12h e 14h, enquanto me desloco para a faculdade (vou ouvindo música no Spotify, trocando mensagens e lendo textos no Safari, então a tela fica quase o tempo toda ligada); depois, checo minhas redes sociais e e-mails de vez em quando; mais ou menos às 18h volto para a casa e faço o mesmo da ida (volto ouvindo música e lendo algumas coisas); chego em casa, troco mais mensagens e assisto uns vídeos no YouTube. Geralmente, ainda sobra pelo menos 35% de bateria. Nesses dias, decidi checar o uso de bateria nos Ajustes do iOS, e o sistema indicava cerca de 6 horas de tela ligada (sempre no brilho automático).

Em algumas ocasiões, precisei usar o GPS, em outras usei a câmera por muito mais tempo. Alguns dias também brinquei bastante com meu priminho usando o animoji, que aparentemente exige bastante do celular (ele ficou quente e houve um consumo maior de bateria). Ainda assim, em todos esses cenários, sempre saí de casa e voltei com carga.

O problema é que demora para carregar o bicho, viu? Eu corro o risco de parecer repetitivo, mas é preciso dizer: a tecnologia de carregamento rápido está disponível para o aparelho, por que um carregador compatível não vem na caixa?

Por que eu tenho que comprar uma fonte considerando que eu já teria pagado mais de cinco mil reais no aparelho? No site oficial da Apple, essa fonte custa R$ 329,00. Eu não sei em que mundo estaria disposto a gastar essa grana em um carregador.

Essa mesma reclamação foi feita em 2017.

Cérebro

Essas qualidades da bateria se dão, em grande parte, por causa do cérebro do celular. O chip A12 Bionic basicamente é pica das galáxias – é um SoC (System on a Chip), cuja CPU tem 6 núcleos, a GPU tem 4 núcleos e ainda há 8 núcleos de neural engine. É o mesmo processador do iPhone Xs e Xs Max, então o poder de fogo está garantido e o gerenciamento de energia é muito competente. Sério, eu não preciso falar muito do desempenho do iPhone XR… É bom demais.

Os testes de benchmark, dos quais eu não sou muito fã por não refletir tão bem o uso no dia a dia, mostram que o A12 Bionic é um monstro. Some isso a uma bateria maior do que a de iPhones anteriores e você tem um celular para durar alguns anos.

Olho de artista

A Apple pode até ter perdido o posto de melhor câmera em smartphone para o Google Pixel, mas ela não perdeu a majestade. O sensor do iPhone XR é o mesmo do iPhone Xs; a diferença é que só veio o principal. O sensor secundário, com capacidade de zoom óptico de 2x, foi pro beleléu nesse modelo. Ainda assim, é uma câmera que faz bonito.

Uma das coisas mais bacanas de se ter dois sensores é a possibilidade de fotografar no Modo Retrato, que desfoca o fundo, imitando os resultados de fotos tiradas com câmeras profissionais. Pois bem, o iPhone XR é capaz de fazer retratos mesmo com apenas um sensor – a mágica acontece graças a inteligência artificial e o cérebro do celular que faz um monte de operações simultâneas (para isso o núcleos de neural engine, por exemplo). Até a câmera frontal faz retratos agora. E você pode ajustar na edição se quer o fundo mais ou menos desfocado.

O software para o modo retrato resolve muitos dos problemas que se tem nos outros modelos. A distância mínima para que o recurso funcione é menor, por exemplo. Além disso, como o sensor desse celular tem uma abertura maior, retratos à noite ficam muito mais claros e nítidos.

É legal, é bacana e os retratos ficam legais. Mas fiquei decepcionado pelo fato da inteligência artificial da Apple reconhecer apenas rostos de pessoas. Nada de tirar retratos do meu cachorro, por exemplo.

Se você quer os números, aí vão eles: a abertura é f/1.8, são 12 megapixels de resolução, suporte a filmagem em 4K com 60 quadros por segundo, ou em câmera lenta de 240 quadros por segundo em Full HD, som estéreo na gravação e estabilização ótica de imagem. Tudo o que você pode pedir num celular de cinco paus. É disso que eu tô falando, Apple!

Ainda assim, parece que a companhia não aprendeu muito sobre fotografia desde o ano passado. Mesmo com uma telona de proporção 19,5:9, o aplicativo nativo de fotografia do iPhone XR faz imagens em 4:3. Que mundo é esse? Onde é que se usa foto 4:3?

É claro, há alternativas em aplicativos. Mas eu realmente não quero baixar outra solução só para tirar minhas fotos na proporção presente em praticamente todos os monitores e telas de celular. Disponibilize isso no seu próprio software, Apple.

Compensa?

É preciso avaliar alguns cenários para responder a essa pergunta.

Vamos ao primeiro. Você tem muito dinheiro para gastar em um celular e você tem preferência por iPhones? Vá de XR. O modelo tem praticamente tudo o que os irmãos mais caros têm e os sacrifícios são mínimos: a tela é ligeiramente pior, embora você não vá reparar uma diferença absurda e você tem uma lente a menos na câmera e perde o zoom óptico. Um outro fator que pode ser determinante para algumas pessoas é o tamanho: ele é um pouquinho maior que o Xs e um pouquinho menor que o Xs Max.

Se o seu negócio é ter um iPhone dos mais novos, essa é a escolha.

Agora, se você abrir mais o seu leque, ainda terá como opções os iPhones 8 e 8 Plus, que ainda dão conta do recado. O problema é que, se você chegar a usar um XR e voltar para algum desses modelos, se sentirá na década passada. Não só pelo FaceID, mas pela parte frontal quase sem bordas e o iOS baseado em gestos.

Os dois cenários acima são importantes porque a Apple tem um ecossistema muito forte e bem construído. A integração entre macOS e outros produtos quase te fazem refém – e quando digo isso, não é de uma forma completamente ruim… É porque a integração é tão boa que faz muita falta quando você sai.

Se você está olhando para outras opções, que incluem smartphones Android, eu confesso que não tenho a resposta; estamos quase que em um limbo quando trata-se de datas para smartphones Android.

Primeiro que os melhores modelos do Android não fogem tanto desse valor durante o lançamento, vide Galaxy Note 9. Depois, o Galaxy S9, lançado no começo do ano, talvez já não seja a melhor opção dada a proximidade para o anúncio de uma nova geração – além disso, ele desvalorizou bastante desde a chegada por aqui.

Esse cenário melhoraria caso tivéssemos mais opções de respeito no Brasil, como o Google Pixel e Huawei P20 Pro, para dar dois exemplos.

O que eu sei é que é duro pagar R$ 5.200 em um celular e isso está fora da realidade para muitas pessoas – inclusive para mim. Se você tiver a oportunidade de viajar para os Estados Unidos, o preço fica mais convidativo; mas saiba que há algumas limitações de banda. Eu sei que também são poucas as pessoas que podem ir para os EUA, mas sejamos francos: os novos iPhones sempre foram para poucos.

A questão é que, se eu disse no início do texto que a Apple subiu o sarrafo na indústria, isso inclui os preços dos novos aparelhos. No ano passado, o modelo mais “barato” da companhia custava R$ 3.999. Agora, a versão do ano mais básica começa em R$ 5.199. Dói.

Considere consultar a sua operadora e ver quais planos podem ser vantajosos, caso você seja uma pessoa do pré-pago. Quem sabe não rola um desconto.

Na Claro, o aparelho de 64 GB pode sair por R$ 3.890 caso você assine o plano com pacote de 30GB de internet, bônus para apps e ligações ilimitadas, que custa R$ 259,99 por mês. Em um plano mais barato, que custa R$ 49,99/mês e tem só 3GB de dados, o celular sai por R$ 4.749.

A TIM também tem algumas ofertas, mas apenas para o modelo de 128GB do iPhone XR. O aparelho sai por R$ 4.799,00 em um pacote com 10GB de internet e ligações ilimitadas. que custa 139,99. Há ainda bônus de franquia para alguns aplicativos.

Por fim, na Vivo, o modelo de 128 GB sair por R$ 4.549 se você comprá-lo junto ao plano Vivo Pós que oferece 10GB de franquia + 10GB para streaming de vídeo e música, que custa 169,99/mês.

O preço absurdo do iPhone XR não quer dizer que ele não seja um celular absurdo. Eu tive uma ótima experiência enquanto usava ele, foi bem bacana. Mas não é um valor camarada.