Rumores apontam que a Samsung pretende abandonar o Tizen, seu sistema operacional proprietário para wearables, e optar pelo Wear OS do Google. É uma ideia desconcertante, considerando que os smartwatches Samsung são os melhores no quesito compatibilidade com o Android no momento. Além disso, o Wear OS é uma bagunça terrível.

O caso em questão surgiu quando o 9to5Google relatou que as frases “OK Google” ou “Hey Google”, para acionar o Google Assistente em relógios Wear OS, não funcionam há meses. A empresa confirmou ao The Verge que estava ciente desse bug, que tem atormentado os usuários desde novembro de 2020 e está trabalhando em uma correção. Embora você ainda possa usar esta função mantendo os botões pressionados (que na verdade é meu método preferido de ativação), isso indica que o Google sabe do problema há muito tempo e ainda não buscou corrigi-lo.

O Wear OS tem sido um dos projetos mais negligenciados do Google, e este é um ponto ainda mais baixo. Se você não se preocupa em consertar rapidamente um dos principais atrativos de sua plataforma de wearables, então não tenho certeza se posso afirmar que o Wear OS estará disponível a longo prazo. E este não é o único caso. Em outubro de 2020, a plataforma ficou em segundo plano para a companhia, que optou por lançar um aplicativo do YouTube Music para o Apple Watch. Pior ainda é perceber que suas atualizações mais recentes foram insignificantes. Na melhor das hipóteses, ele trouxe melhorias no tempo de carregamento de aplicativos e um bloco de clima como recurso nos letreiro.

Pois é. Isso era tudo que o Wear OS tinha a oferecer em 2020. Compare isso ao ano de sucesso da Samsung, que foi absolutamente decisivo com o lançamento do Galaxy Watch 3. No momento, este modelo é o único outro smartwatch carro-chefe que pode bater de frente com o Apple Watch em quase todos os recursos. Claro, ele não é perfeito. Alguns recursos, como o aplicativo de eletrocardiograma aprovado pela FDA, estão disponíveis atualmente apenas para proprietários de smartphones Samsung. No entanto, realmente não existe competição entre o Galaxy Watch 3 e até mesmo o melhor dos melhores relógios Wear OS que eu testei.

Para ser justa, uma vez a Samsung usou o Wear OS – então Android Wear – em seus smartwatches. Mas em 2014, ele mudou para o Tizen depois do lançamento dos Gear 2 e Gear 2 Neo, provavelmente pelos mesmos motivos que quase todos os outros fabricantes de smartwatches, além da Fossil, fizeram na época: a interface desajeitada do Google, sua baixa taxa de adoção e o desatualizado Qualcomm Snapdragon Wear Chip 2100.

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Então, por que a Samsung voltaria para uma plataforma que ainda não conseguiu se recompor? Posso pensar em alguns motivos, mas nenhum deles é particularmente bom. Para começar, o Tizen não tem um grande ecossistema de aplicativos de terceiros, e mudar para o Wear OS pode abri-lo para mais possibilidades. Mas, para ser bem honesta, os apps do Wear OS não atraem muito o interesse dos desenvolvedores, mesmo que existam mais. Por exemplo, o Spotify para Wear OS parecem não se completar, enquanto o Spotify para Tizen permite que você use playlists offline, conforme divulgado. Os apps nativos do Wear OS do Google são bons na maioria das vezes e, francamente, é bizarro que o app de treino integrado do Google Fit agora esteja dividido em várias versões diferentes. Mesmo com atualizações mais recentes, também não é melhor do que o Samsung Health, e ter ambos instalados no relógio é, novamente, entediante.

A outra razão pela qual eu poderia ver a Samsung fazendo a troca seria trazer a opção do Google Assistente e do Google Pay para relógios Samsung. E isso seria incrível, porque o Samsung Pay é mais restritivo que a forma de pagamento online do Google. E pra começar, quem realmente gosta do Bixby? Mas, a Samsung precisa estar no Wear OS para incorporar o Assistente e o Google Pay? O Fitbit consegue que o Google Assistente funcione no Fitbit OS. Então, por que não permitir que a Samsung faça o mesmo? Ah, um adendo: o Fitbit provavelmente tem garante o Assistente porque o novo dono da empresa é ninguém menos que o próprio Google.

Há uma chance distinta de que um relógio Samsung Wear OS gastará menos recursos do que qualquer outro relógio Wear OS. Todavia, isso ocorre principalmente porque a Samsung poderia usar seu Exynos SoC proprietário em vez de confiar no da Qualcomm, que está fazendo o mínimo. Além disso, embora eu tenha certeza de que o painel de navegação giratório da Samsung poderia ser transferido para um relógio Wear OS, não seria tão bom, a menos que o Google permitisse que a Samsung executasse uma de suas skins Wear OS (que é o que a Oppo fez com seu relógio Wear OS). Inclusive, é incrível que o Wear OS fosse realmente decente no Oppo Watch uma vez que ele nem parecia funcionar como o Wear OS. E, até este ponto, qual seria a razão para mudar o Tizen novamente?

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É claro que o Google tira mais proveito da Samsung usando o Wear OS do que vice-versa. A Samsung trazendo suas inovações de smartwatch para essa plataforma, de repente, a tornaria relevante novamente – desde que todos os aplicativos da Samsung, incluindo aqueles que precisam de aprovação do FDA, pudessem garantir um salto, sem maiores problemas.

Exceto que isso não tornaria o Wear OS o melhor dos mundos. Para que isso aconteça, outros relojoeiros teriam que descobrir como fazer o melhor uso do Wear OS. O Google teria que atualizar a maldita plataforma de forma consistente, com recursos realmente bons, não aqueles incrementais que são apenas um pontinho no radar. A Qualcomm teria que descobrir como atualizar seu SoC vestível para a tecnologia de processo atual e fazer isso mais de uma vez a cada dois anos. Isso se o Google não decidir terminar tudo agora que possui o Fitbit para fazer algo totalmente diferente.

Os usuários do Android – e não apenas aqueles que usam Samsung – merecem um excelente smartwatch. E toda esta situação só demonstra que não parece ser o melhor cenário para se conseguir um.