O sarampo está tendo um baita ano. Recentemente, falamos que o Brasil está para perder o certificado de país livre da doença. Nos EUA, a coisa está feia também.  De acordo com o Washington Post, os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) confirmaram 695 casos relatados de sarampo em 22 estados nos Estados Unidos até agora em 2019. Esse é o maior número já registrado desde que a doença foi declarada erradicada nos Estados Unidos em 2000.

Este foi o ano em que as autoridades de saúde declararam o sarampo efetivamente eliminado dos Estados Unidos — o que quer dizer que não apenas havia risco zero de pegar a doença, como que qualquer novo caso provavelmente se originaria fora do país.

O registro anterior desde 2000 foi 2014, escreveu o Washington Post, quando 667 casos foram relatados em todo o país. O mais observador de vocês vai notar que 2014 foi um ano inteiro, enquanto os 695 casos até agora em 2019 aconteceram em menos de quatro meses.

Acredita-se que vários dos surtos deste ano tenham se propagado até Israel, Ucrânia e Filipinas, com o CDC observando que dois focos particularmente grandes em Nova York e outro em Michigan aumentaram os números, de acordo com o New York Times. Uma grande razão descoberta pelos oficiais de saúde por trás desses números nos Estados Unidos é o movimento antivacina.

As pessoas que são contra vacinação rejeitam a avaliação de basicamente toda a comunidade médica e científica de que as vacinas são seguras e eficazes, em vez disso promovem teorias conspiratórias sem base de que elas podem causar condições que vão do autismo a doenças inventadas como “sobrecarga de vacinas” (às vezes chegando a dizer que os médicos fazem parte do esquema para proteger lucros farmacêuticos).

Como argumentou o Washington Post, o movimento também é alimentado por ressentimento ao poder do Estado e à vacinação obrigatória, e uma reportagem do Daily Beast neste ano alertou que, nos últimos anos, essa corrente se tornou cada vez melhor organizada politicamente e mais barulhenta na rede.

Alguns esforços organizados parecem ter levantado financiamento considerável, como o Children’s Health Defense, de Robert F. Kennedy, ou o Generation Rescue, de Jenny McCarthy. Antes do surto na cidade de Nova York, as organizações antivacina visavam bairros judeus ortodoxos com revistas e panfletos cheios de propaganda contra vacinação.

Não está claro quantos antivacinadores existem por aí. Entretanto, as taxas de isenção de vacinas não-médicas estão crescendo em um ritmo preocupante nos estados dos EUA que permitem isso. Os antivacinadores têm sido um fator consistentemente relatado nos surtos de doenças, em uma época em que alguns estudos descobriram que as taxas de vacinação estão diminuindo por uma série de razões, incluindo complacência ou impossibilidade de pagar por cuidados de saúde.

O menor número de indivíduos sendo vacinados, sejam eles adultos ou crianças cujos pais se recusam a “macular” seus filhos, ameaçam a imunidade coletiva, que é quando pessoas o bastante estão imunes a uma doença de forma que os surtos não podem se espalhar facilmente.

Em comunicado ao Washington Post, o secretário Alex Azar, do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos, disse que os EUA estão passando por um “ressurgimento do sarampo, uma doença que havia sido efetivamente eliminada de nosso país. O sarampo não é uma doença infantil inócua, mas, sim, uma doença altamente contagiosa e potencialmente fatal”.

Azar acrescentou que a vacina tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola) estava “entre os produtos médicos mais amplamente estudados que temos”, e sua segurança foi “firmemente estabelecida há muitos anos em alguns dos maiores estudos de vacina já feitos”.

“A Organização Mundial da Saúde relatou neste mês que houve um aumento de 300% no número de casos de sarampo em todo o mundo em comparação com os três primeiros meses de 2018”, escreveu o CDC em um comunicado separado. “Esse aumento faz parte de uma tendência global vista nos últimos anos, à medida que outros países enfrentam dificuldades com taxas de vacinação em declínio, e isso pode estar exacerbando a situação aqui (nos EUA).”

“Um fator significativo contribuindo para os surtos em Nova York é a desinformação em comunidades sobre a segurança da vacina de sarampo/caxumba/rubéola”, acrescentou o CDC. “Algumas organizações estão deliberadamente visando essas comunidades com informações imprecisas e enganosas sobre vacinas.”

Situação é difícil também no Brasil

Conforme noticiamos em março deste ano, o Brasil não é mais um país livre do sarampo. A perda de status aconteceu depois que o Brasil comunicou um caso endêmico da doença no Pará à Organização Pan-Americana de Saúde (Opas), ligada à Organização Mundial da Saúde.

O certificado havia sido obtido em 2016, depois de um ano sem casos da doença, o que indicava a interrupção da circulação endêmica do vírus. O sarampo, no entanto, voltou a aparecer, com 10.326 casos em 2018, por exemplo.

A Agência Brasil mostra também que as taxas de vacinação contra o sarampo no País têm caído nos anos anteriores. Em 2018, 49% dos municípios brasileiros não atingiram a meta de imunização, que é de 95%. Dados de 2017 também apontavam que a vacinação estava em seu menor índice em 16 anos.