Se algum desastre afetasse o funcionamento dos satélites que espalhamos pela órbita da Terra, a capacidade de fazermos praticamente qualquer coisa seria profundamente prejudicada. Como explica o io9, nossas comunicações, serviços de localização, previsão do tempo e até mesmo transações bancárias dependem de satélites, e, sem eles, estaríamos perdidos – ao menos por um tempo.

Claro, isso depende um pouco de quantos e como os satélites são prejudicados. Em caso de destruição completa, poderíamos levar décadas para reconstruir a rede atual de satélites. Se apenas um ou outro for afetado, teríamos problemas com um ou outro serviço. Mas vamos considerar mais o primeiro cenário (de destruição total) para lembrar como os satélites são cruciais para nossa vida moderna.

Pode parecer um exagero imaginar um mundo catastrófico sem satélites, mas não é: em 1998, um problema em um satélite deixou o mundo um dia inteiro sem sinal de pager. Não usamos mais pagers atualmente, é verdade, mas usamos cada vez mais coisas que dependem da existência desses satélites.

Sem comunicação

Satélites
Imagem via NASA/Flickr

O primeiro grande efeito que sentiríamos seria no mundo das comunicações. Nossa capacidade de nos comunicar com outras pessoas, nosso compartilhamento de informações e as transações que fazemos – tudo isso seria imediatamente derrubado.

Não totalmente, no entanto. A internet, as redes de telefonia e outras coisas dependem muito da comunicação com satélites, mas não apenas dela. Ainda teríamos cabos terrestres e submarinos capazes de manter um pouco do nosso sistema de comunicação funcionando – mas eles têm um limite, e não demoraria tanto tempo para atingi-lo.

Em relação a linhas telefônicas e internet, tanto ligações internacionais quanto o tráfego de dados precisaria ser desviado para alguma outra rota que não dependesse de satélites. Isso faria com que cabos terrestres e submarinos ficassem sobrecarregados, e, assim, seu funcionamento como um todo seria prejudicado. Em áreas remotas, onde pessoas frequentemente dependem de satélite para ver televisão, usar internet ou ouvir rádio, a disponibilidade desses serviços praticamente desapareceria de uma hora para outra.

A televisão, aliás, seria profundamente prejudicada. As emissoras costumam usar satélites para enviar sua programação para hubs e, a partir desses hubs, eles são distribuídos via cabos, em alguns casos. Sem os satélites em um primeiro momento, a transmissão desapareceria.

Sem serviços de localização

Aqueles apps no seu smartphone que pedem acesso à sua localização não funcionariam mais como planejado. Isso porque todo o Sistema de Posicionamento Global, o famoso GPS, depende de satélites no espaço. Sem GPS, não teríamos serviços de localização, e, assim, ficaríamos perdidos no mundo.

Mas não são só esses apps que usam o GPS. Carros também podem usar – carros autônomos usarão quando começarem a dominar as ruas das nossas cidades. E alguns aviões dependem de GPS para traçar a melhor rota com o menor consumo de combustível. Sem satélites GPS, controladores de voo teriam dificuldade ao tentar se comunicar com pilotos e assim definir rotas para aeronaves: as empresas de linhas aéreas dependeriam de procedimentos antigos, mais trabalhosos e menos eficientes do que o uso desses satélites.

O GPS não é usado apenas para localização, no entanto, e qualquer problema em seu funcionamento prejudicaria também o tempo. Não a nossa percepção de tempo e espaço, nada abstrato como isso, e sim a forma como calculamos e organizamos o tempo. Basicamente, satélites GPS são usados para a distribuição de um padrão internacional de tempo, algo para garantir que um segundo dure o mesmo tempo em qualquer parte do globo.

É verdade que relógios atômicos podem fazer essa mesma função, mas atualmente muitos sistemas usam a sincronização com satélites GPS para o tempo. A maioria das redes de comunicação e entretenimento da atualidade que são baseadas em IP exigem um timing ultrapreciso para garantir que o tráfego digital chegue ao seu destino.

No caso de transações bancárias, elas precisam ser registradas com o horário exato em que aconteceram. Pagamentos em cartão de crédito provavelmente congelariam, e a economia mundial poderia perder alguns bilhões de dólares. Um crash econômico de grandes proporções não é algo exatamente descartado – a catástrofe pode ser realmente imensa.

Sem saber o tempo do dia seguinte

Satélites
Imagem via NASA/Flickr

Nós podemos prever o que acontecerá com o tempo no dia seguinte com a ajuda de satélites. Vai chover? Nevar? Um sol infernal? Os satélites meteorológicos nos ajudam a saber. E, sem eles, não saberíamos o que vestir em uma manhã antes de sair para o trabalho.

Isto parece ser um problema pequeno, mas países como Índia, Paquistão e Bangladesh dependem de satélites para prever monções que possam de alguma forma ser prejudiciais à população desses países. Nos EUA, esses satélites meteorológicos já ajudam a economizar até US$ 3 bilhões em vidas e danos a propriedades causados durante a temporada de furacões.

A ciência também seria prejudicada: o que sabemos atualmente sobre o aquecimento global vem de análises feitas a partir de dados coletados por satélites no espaço. Não teríamos como entender e monitorar coisas como a camada de ozônio, os níveis de dióxido de carbono e a distribuição das calotas polares. Teríamos sistemas terrestres e balões meteorológicos para nos ajudar, claro, mas perderíamos muitos dados que só podem ser conseguidos a partir de satélites.

Recuperação

Satélites
Cubesats em órbita (via NASA)

A humanidade está preparada para o apocalipse dos satélites? Não exatamente, mas provavelmente esse problema seria tratado com prioridade por governos e empresas do mundo inteiro – afinal, eles também dependem demais da comunicação via satélite, ou do GPS. Mas, dependendo do tamanho do desastre envolvendo esses aparelhos, demoraríamos algumas décadas para recuperar o padrão operacional atual.

O problema não é o conhecimento necessário para desenvolver esses satélites – obviamente a humanidade sabe como fazer isso. Mas o desenvolvimento deles pode levar alguns anos, e também precisaríamos de foguetes enormes para lançá-los para o espaço. Seria um trabalho imenso, demorado e caríssimo.

Enquanto isso, o exército dos EUA tem um plano de emergência: eles desenvolveram alguns satélites pequenos em formato de cubo que estão estacionados na órbita terrestre baixa, preparados para entrar em ação no caso de algum desastre. É uma solução simples, eficiente e barata, e provavelmente nos serviria por um tempo, mas não muito.

Em resumo, é mais ou menos isso o que aconteceria caso os satélites fossem destruídos: caos completo. Poderíamos nos reerguer, é claro, mas não seria fácil. [io9]

Primeira imagem por NASA