Jacinda Ardern ganhou muitos elogios pela forma como a Nova Zelândia lidou com a pandemia do novo coronavírus – e com razão. A nação tem se destacado por ter mantido os casos em níveis baixos e o país está começando a reabrir no que espera ser um caminho seguro. Portanto, talvez devêssemos também estar atentos às suas ideias para o plano de recuperação.

Na semana passada, Ardern sugeriu mudar a semana de trabalho para quatro dias úteis. As razões que ela listou foram em grande parte focadas em estimular a economia neozelandesa, particularmente seu setor de turismo duramente atingido.

No entanto, uma semana de trabalho de quatro dias iria além de movimentar a economia e deixar os trabalhadores mais felizes. Essa medida poderia ajudar a diminuir as emissões de gases do efeito estufa e proteger o clima.

Jornadas menores de trabalho são discutidas há bastante tempo. Há inúmeros exemplos na história de trabalhadores e até mesmo de empresas que pressionaram por menos horas de trabalho. Isso inclui a previsão do economista John Maynard Keynes de uma semana de 15 horas de trabalho em 1930 e o turno de Kellogg para uma semana de 30 horas de trabalho durante a Grande Depressão nos EUA. O Senado americano chegou a aprovar um projeto de lei para uma semana de trabalho de 30 horas em 1933, mas a Casa Branca nunca o aceitou.

Com uma crise econômica similar se aproximando do mundo nos dias de hoje e Ardern colocando a ideia de uma semana de quatro dias úteis como uma possível medida de recuperação, vale a pena reconsiderar por que ela tem potencial para ser uma boa ideia.

Ter um dia a mais para lazer ou descanso não parece ter o impacto negativo na vida profissional que você poderia esperar. Há amplas provas de que mesmo com menos de quatro dias úteis por semana, a produtividade não cai (na verdade, pode subir).

O que costuma emperrar essa ideia é a fetichização do tempo de trabalho – Benjamin Hunnicutt, historiador da Universidade de Iowa, descreveu em 2014 no Politico como “um fracasso da imaginação”.

A ideia de Ardern é bem simples. O turismo é responsável por 5,8% do PIB da Nova Zelândia, e o setor basicamente estagnou. Com casos de coronavírus extremamente baixos e a pandemia aparentemente sob controle por lá, cortar um dia da semana de trabalho significaria que as pessoas poderiam gastar tempo viajando e ajudando o setor a retomar a atividade.

Mas mesmo deixando de fora a parte da recuperação do coronavírus, a semana de quatro dias úteis também nos colocaria no caminho para um clima mais seguro. Um artigo técnico publicado em 2006 deixou isso claro: se os EUA adotassem o horário de trabalho europeu, as emissões americanas de carbono em 2000 teriam ficado 7% abaixo dos níveis reais de 1990. Isso teria sido suficiente para os EUA cumprirem as metas estabelecidas no Protocolo de Kyoto, um tratado climático de 1997 que o país não ratificou.

Trabalhar mais horas significa ter aparelhos de ar-condicionado ou calefação ligados em escritórios, mais uso de eletricidade e mais energia gasta no deslocamento. Em locais sem transporte público amplamente adotado ou de qualidade, isso significa mais poluição do ar local também. Reduzir o deslocamento pendular pode ser um grande benefício, especialmente em países em que o transporte é responsável pela maior parta da poluição de carbono.

Antes da pandemia, havia uma parcela relativamente pequena de trabalhadores remotos nos EUA. No entanto, essas 3,9 milhões de pessoas trabalhando em casa reduziram as emissões, chegando a tirar 600.000 carros das ruas a cada ano. O impacto de mais trabalho de casa devido à pandemia é provável que tenha um impacto ainda maior.

Os efeitos não se limitam aos deslocamentos e ao uso da energia relacionados à vida de escritório. Um estudo de 2011 descobriu que mais horas trabalhadas também estão associadas a “consumos intensivos de energia e favorecem gastos conspícuos e estilos de vida não-sustentáveis.”

Embora a semana de quatro dias de trabalho possa oferecer uma maneira de reduzir os danos ambientais, não será necessariamente uma solução mágica sem uma intervenção governamental importante. Nos Estados Unidos, por exemplo, há enormes questões em torno da desigualdade, gig economy (trabalhos como Uber, iFood, etc) e planos de saúde privados que só são oferecidos por um um número fixo de horas trabalhadas. O Brasil tem uma série de questões similares, também – mas uma jornada de trabalho menor por aqui parece estar fora de cogitação.

David Rosnick, economista do Center for Economic and Policy Research, autor de um artigo técnico de 2006, disse ao Gizmodo que nos Estados Unidos “haveria sérios problemas de desigualdade uma vez que impormos políticas efetivas de redução de horas. Muitos desses trabalhadores de baixa renda já possuem horários imprevisíveis para compensar as baixas rendas. No extremo superior, há a questão da cobertura de saúde fornecida pelo empregador: os funcionários vão ter que cobrir mais 20% desses custos?”

Rosnick também levantou a preocupação de que alguns empregadores acabariam pedindo aos funcionários que cumprissem mais horas em menos dias, e perguntou o que isso significaria para aqueles que não trabalham de segunda a sexta-feira. Ter uma redução para uma semana de quatro dias úteis sem proteções salariais e de benefícios não daria certo. Para que o plano da Ardern seja equitativo, principalmente se for implementado em outros lugares, é preciso cuidar de todos.

Os EUA e outros lugares também poderiam fazer muito mais para melhorar o acesso ao lazer com baixo teor de carbono, ou então as pessoas poderiam acabar poluindo de outras formas, como em cruzeiros.

Nas cidades, isso poderia significar abrir ruas (muitas delas) para pedestres e bicicletas e oferecer jantares ao ar livre que podem permitir que as pessoas se distanciem socialmente enquanto desfrutam do tempo livre. E para viajar além dos limites da cidade, isso significa construir um trânsito de massa acessível. Nada disso será suficiente para evitar completamente a crise climática, mas não prestar atenção nesses cenários como parte da solução seria uma enorme loucura.

Tudo isso para dizer que precisamos de grandes mudanças estruturais para trabalhar menos. Isso pode soar como um objetivo ambicioso, mas vale a pena voltar dar um passo atrás e lembrar pelo que estamos lutando em primeiro lugar – algo que é fácil de fazer, mesmo nos momentos mais normais: “Esquecemos que o propósito da vida é ser feliz e passar essa felicidade para as gerações futuras”, como escreveu Hunnicutt no Politico.

Para termos uma chance de transmitir uma boa vida, precisamos enfrentar a crise climática. E a hora de fazer isso é agora.