A Terra pode ser exaustiva às vezes. Realizar até mesmo as tarefas mais comuns, como ir ao trabalho num metrô lotado, pode parecer uma maratona Olímpica projetada para testar a paciência de alguém. O espaço nos obriga a pensar fora dessa visão míope de nós mesmos – no sentido de que somos pequenos grãos sortudos por fazermos parte de algo tão vasto e incrível. E nos últimos anos, um dos lembretes mais poderosos disso tem sido o volume de pesquisas e imagens enviadas para a Terra da sonda espacial Cassini, da NASA, que entrou no sistema de Saturno em 2004.

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Nos 20 anos em que passou no espaço, a corajosa sonda permitiu a publicação de mais de 3 mil relatórios científicos. As imagens inéditas de Saturno e de suas 62 luas capturadas pela Cassini são amplamente consideradas como as fotos mais sublimes do espaço – ela nos mostrou lagos de metano em Titã, as lacunas nos anéis saturninos e até luas que pareciam macarrões reais. Mas depois da estadia de décadas, a sonda está ficando sem combustível – então hoje, no dia 23 de abril, ela embarcará em sua grande missão final antes de mergulhar na atmosfera de Saturno no dia 15 de setembro.

Esse tour de despedida de cinco meses talvez seja a missão mais dramática e desoladora da Cassini. Começando com um sobrevoo final pela Titã neste final de semana, a sonda irá realizar por 22 semanas mergulhos dramáticos na região nunca antes explorada entre o planeta e seus anéis, enviando dados científicos para a Terra. Até mesmo enquanto estiver mergulhando na atmosfera do planeta, a Cassini irá enviar informações sobre seus últimos momentos de vida, até não poder mais. Estamos esperando descobertas incríveis sobre o gigante de gás, incluindo algumas medidas ultra-precisas se sua gravidade e campo magnético. Entre aqueles que acompanharam as missões de perto, existe uma tristeza profunda invadindo as pessoas enquanto o ato final da Cassini se aproxima.

“Existe um sentimento de perda”, disse Earl Maize, gerente de projetos da Cassini na JPL, no começo deste mês numa coletiva de imprensa. “Nós, a humanidade, estivemos em Saturno por 13 anos. Você levantava de manhã, via a previsão do tempo, via como as imagens estavam… Estamos conectados, e conectamos o planeta inteiro. Isso vai ir embora… E infelizmente, não existirá um substituto para isso durante algum tempo”.

De fato, o mundo tem estado junto da jornada selvagem da Cassini. Só em seu Twitter, a sonda reuniu 1,1 milhão de seguidores. Algumas das principais descobertas da Cassini, mais recentemente a descoberta de hidrogênio molecular no oceano de Encélado, animou a rede social e entusiastas por vida extraterrestre. Até mesmo as imagens rotineiras da sonda engajaram as pessoas ao redor do mundo, que podem checar as informações a qualquer momento na página da Cassini no site da NASA ou nas redes sociais. Incontáveis entusiastas por espaço sentirão um vazio no peito quando tudo isso acabar.

Para os repórteres que seguiram essa missão, que escreveram sobre as descobertas da Cassini e divulgaram suas imagens incríveis, existe uma camada a mais desse sentimento.

“No final das contas todos nós temos que agradecer pela geração de ciência que recebemos da Cassini”, disse o jornalista especializado em ciência, Shannon Stirone, ao Gizmodo. “Conhecer as centenas de mãos que tocaram na missão, pensar em todas essas pessoas faz o meu coração doer, no entanto. A humanidade perde muita coisa quando uma missão como a Cassini termina. Será um dia triste, sem dúvida. Irei chorar”.

acassini-2Vista de Saturno, tirada pela Cassini no dia 3 de fevereiro de 2016 (Imagem: NASA-JPL)

Dito isso, nem todos os fãs da Cassini estão prontos para o luto.

“Acho que é muito cedo para louvar a ocasião da morte da Cassini, já que sua incineração acontecerá daqui cinco meses. De agora até setembro, virão toneladas de novas ciências sobre o que está dentro de Saturno, o quanto seus anéis pesam, detalhes incríveis sobre seus anéis, luas-anéis e atmosfera – tudo possível pelas órbitas justas e próximas que ela realizará”, disse Jonathan Lunine, diretor no Cornell Center para Astrofísica e Ciência Planetária, em comunicado.

No dia 12 de abril, semanas antes de entrar em sua fase final, a Cassini enviou uma foto da Terra a partir dos anéis de Saturno. Nosso Ponto Azul Pálido não parecia nada mais do que um pequeno ponto esbranquiçado, acompanhado de um ponto branco ainda menor, nossa Lua. Para mim, essa imagem sintetiza o porquê de todos, de astrônomos a cidadãos comuns, terem entrado na onda da Cassini por tanto tempo: é um lembrete dramático do que pensamos que somos, versus o que o universo sabe sobre nós.

A soma das nossas vidas, mesmo as coisas chatas, muitas vezes podem parecer como um mundo. Mas o que a Cassini literalmente nos mostrou é que no grande esquema do sistema solar, nós ainda somos aquele pontinho. Mesmo que isso pareça niilista, o outro lado é que a Cassini nos ajuda a entender que fazemos parte de algo maior do que nós mesmos, maior do que a Terra, inclusive.

De fato, as descobertas da sonda talvez tenha pavimentado o caminho para futuras missões para responder a maior pergunta de todas – se estamos ou não sozinhos.

Imagem do topo: NASA