Na última sexta-feira (5), o Instituto Butantan enviou um pedido à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para iniciar os testes clínicos do soro anti-SARS-CoV-2. Ao contrário da vacina, ele não é capaz de prevenir a doença, mas amenizar os sintomas de quem já foi infectado.

O soro vem sendo desenvolvido pelo instituto desde o ano passado a partir do plasma de cavalos. O vírus é inativado por radiação e injetado nos animais, que produzem anticorpos para combatê-los. Assim, o plasma sanguíneo contendo essas proteínas de defesa é extraído e passa por uma série de processamentos.

O produto final é composto apenas dos anticorpos capazes de combater o vírus e impedir que ele se replique no organismo. O soro foi desenvolvido em apenas cinco meses e já foram produzidas 3 mil unidades para testes com pacientes, enquanto outras 3 mil estão prontas para serem envasadas.

Em janeiro, a Argentina aprovou o uso de um soro contra o SARS-CoV-2 que utiliza apenas a proteína spike do vírus como antígeno (substância que induz a produção de anticorpos). Durante os testes clínicos, o soro foi capaz de reduzir a mortalidade, o número de dias de internação e a necessidade de respiradores.

O Instituto Butantan optou por utilizar o vírus inteiro em vez de apenas a proteína spike, como fez a Argentina. A explicação é que isso pode tornar a substância mais eficaz em novas variantes do SARS-CoV-2 também. Um dos testes que estão sendo feitos atualmente, por exemplo, é com a cepa P.1., que foi identificada em Manaus e é considerada mais transmissível.

Os experimentos mais recentes foram realizados com hamsters. Após serem infectados com o vírus e apresentarem sintomas, os roedores receberam uma única dose do soro dois dias depois. Em relação aos animais que não foram submetidos ao tratamento, aqueles que receberam o soro apresentaram uma diminuição da carga viral nos pulmões, mudança da resposta inflamatória e preservação das estruturas pulmonares.

Por que desenvolver um soro se já temos vacina?

Essa não seria a primeira vez que utilizamos tanto vacinas como soros para combater uma doença. Já fazemos isso com difteria e tétano, por exemplo. A ideia não é que um substitua o outro, mas que eles sejam distribuídos de forma complementar para proteger toda a população, principalmente durante uma pandemia.

No caso de pacientes com o sistema imune suprimido, seja por terem recebido um transplante de órgãos, estarem em tratamento contra o câncer ou por outros motivos, o soro pode ser a única solução. Apesar de ser aplicado principalmente em pessoas já infectadas, ele pode ser usado de forma preventiva para ajudar pessoas que possuem comorbidades a não desenvolverem um quadro grave da doença caso tenham contato com o vírus.

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Caso o Butantan consiga a aprovação da Anvisa, os testes serão iniciados em pacientes transplantados no Hospital do Rim e em paciente que possuem comorbidades no Hospital das Clínicas. A decisão da agência reguladora deve ser anunciada esta semana.

[Agência Fapesp, G1]