Novas pesquisas oferecem outra possível desvantagem do fraturamento hidráulico: ele aumenta o risco de problemas de impotência e fertilidade nos homens. Pelo menos, é o que dizem os resultados de testes em laboratório com células.

Esta pesquisa, que ainda está sendo revisada por pares antes da publicação, deveria ser apresentada durante a reunião anual da Endocrine Society, que estava programada para a semana passada, se uma pandemia não estivesse nos forçando a ficar em casa.



O fraturamento hidráulico é um processo que extrai petróleo e gás injetando água, produtos químicos industriais como solventes e biocidas e areia em rochas profundas, criando pressão suficiente para que a rocha rache e libere óleo ou gás. Pesquisadores decidiram investigar como esse processo pode afetar o sistema reprodutivo do homem.

Antes de mais nada, a equipe teve que identificar os principais produtos químicos usados ​​durante o processo de fraturamento que poderiam causar danos ao sistema endócrino, que regula nossos hormônios. A testosterona era o hormônio em foco. A equipe analisou especificamente a indústria de fraturamento da Califórnia, que é mais transparente sobre os produtos químicos utilizados.

A equipe usou um processo de duas etapas para investigar qualquer conexão potencial entre poluentes usados no fraturamento e a testosterona.

Os pesquisadores começaram usando um programa de computador para rastrear centenas de produtos químicos emitidos no ar durante o processo de fraturamento. Apenas 60 deles foram escolhidos, pois eram os únicos cujas estruturas moleculares são pequenas o suficiente para se ligarem aos receptores hormonais masculinos.

A equipe então usou o programa para filtrar esses produtos químicos e encontrou cinco que foram capazes de se ligar a esses receptores e, teoricamente, interromper o sistema endócrino em geral.

No entanto, eles não pararam em um modelo de computador para chegar à sua conclusão. Eles compraram esses cinco produtos químicos e testaram seu impacto em culturas de células em um laboratório. No total, a equipe estudou 96 placas de culturas celulares.

Examinar os impactos em uma cultura de células é mais parecido com ver como uma substância afetaria um feto em desenvolvimento do que um ser humano adulto. Essa é uma limitação clara da pesquisa, mas a equipe conseguiu identificar um produto químico surfactante cujos danos foram significativos: o Genapol X-100, um agente de limpeza industrial usado na maioria das operações de fraturamento da Califórnia.

“Pelo que fizemos aqui, mostramos que esse composto pode afetar os receptores de hormônios sexuais masculinos, que é o receptor androgênico”, disse Phum Tachachartvanich, pesquisador de pós-doutorado da Universidade da Califórnia em Davis e principal autor do estudo.

Até que os pesquisadores saibam o quanto dessas substâncias vão parar dentro dos corpos humanos, eles não podem dizer que o fraturamento em si pode estar prejudicando o sistema reprodutor masculino. No entanto, pesquisas anteriores descobriram que a interrupção dos receptores de andrógenos pode resultar em aumento da infertilidade, redução da contagem de espermatozoides e até mesmo câncer testicular.

A falta de testosterona também pode prejudicar o desejo sexual masculino e ereções. Pesquisas já mostraram que poluentes do fraturamento podem contaminar o ar perto de locais de perfuração, ameaçando a saúde das pessoas que vivem nas proximidades.

Os seres humanos em desenvolvimento são tipicamente mais sensíveis a esses danos ambientais. Se uma mulher grávida é exposta a esses desreguladores endócrinos, provavelmente seu feto também é. Pesquisas anteriores descobriram que a exposição a produtos químicos desreguladores endócrinos no útero pode causar danos permanentes ao sistema reprodutivo de uma criança. Isso pode se apresentar como uma criança nascida com um único testículo ou, em casos graves, testículos não descidos.

Para deixar claro, os autores não podem dizer conclusivamente que o fraturamento hidráulico está causando esses danos, mas suas descobertas sugerem que isso é possível.

“Uma grande limitação é que o que vimos in vitro — em cultura de células — pode não ser visto em humanos, então essa é a principal limitação deste estudo”, disse Tachachartvanich. “Esta é apenas a fase inicial do estudo. Você precisa fazer mais pesquisas para confirmar se essa exposição química pode realmente afetar os receptores de andrógenos nos seres humanos.”

Queremos mesmo esperar pata ter certeza se isso é verdade? Já sabemos que o fraturamento reduz o peso ao nascer dos recém-nascidos. Toda a poluição que o processo emite no ar também não é saudável para a população geral. E o metano emitido só agrava a crise climática.

Infelizmente, o governo dos EUA não vem tentando reprimir a poluição. Em vez disso, Trump suspendeu a fiscalização ambiental e considerou oferecer às empresas de fraturamento uma injeção de dinheiro por causa das perdas causadas pela diminuição da demanda em meio à pandemia do coronavírus.

Levando tudo isso em consideração, há apenas um caminho a seguir para esse setor: ele deveria ser proibido.