Há alguns milhões de anos, ancestrais humanos podem ter olhado impressionados para um ponto azul estranho e brilhante no céu noturno. Era a sequência de uma explosão estelar épica, talvez duas. Se essas supernovas tivessem acontecido um pouco mais perto de casa, a vida na Terra não existiria mais.

Obviamente, as coisas não aconteceram desse jeito, mas as explosões dispararam mesmo uma chuva radioativa no nosso planeta. Agora astrônomos descobriram que ondas de choque de uma supernova – talvez do mesmo evento – ainda estão lançando detritos cósmicos em nossa direção até hoje.

Isso é o que diz um estudo divulgado na Science, que usou uma sonda de clima espacial para capturar raios cósmicos que emanavam de estrelas que morreram não muito tempo atrás e não muito longe daqui. A pesquisa vem de carona com outros dois artigos científicos que documentaram detritos de supernova no fundo do oceano e na superfície da Lua.

Juntos, esses estudos formam um caso sólido de uma série de eventos que pode ter ajudado a moldar a nossa biosfera moderna.

Por quase dezenove anos, o satélite Advanced Composition Explorer, ou ACE, se posicionou em uma órbita estável entre o puxão gravitacional da Terra e do Sol. Lá, ele estudou um fluxo de partículas de alta energia conhecido como vento solar. Em caso de uma grande erupção na superfície do Sol, o ACE agia como um sistema de aviso prévio, nos dando trinta minutos de antecedência em relação às tempestades geomagnéticas que estavam a caminho da Terra.

O ACE fez um ótimo trabalho ao monitorar o clima espacial, mas um dos seus instrumentos também é muito bom para conseguir a massa precisa de elementos raros e pesados além do nosso sistema solar. Isso inclui o ferro-60, um isótopo radioativo produzido quando estrelas massivas do tipo O e B explodem. Há alguns anos, os astrofísicos Martin Israel e Robert Binns da Universidade de Washington em St. Louis, nos EUA, decidiram ver se conseguiam encontrar evidências de supernovas em raios cósmicos que viajavam através do espaço.

“Ferro-60 já havia sido descoberto em medições do fundo do mar,” disse Israel ao Gizmodo. “Eu pensei, o ACE tem muitos anos de dados guardados, talvez devêssemos dar uma olhada.”

Observando 17 anos dos dados do ACE, Israel e seus colegas identificaram 15 eventos de raios cósmicos com impressões digitais do ferro-60. “O fato de estarmos vendo ferro-60, com meia vida de um pouco mais de 2,5 milhões de anos, nos diz que a explosão da supernova que acelerou esses raios cósmicos pode não ter acontecido longe demais, e não muito tempo atrás também,” disse Israel.

Ao examinar a abundância de isótopos de níquel e cobalto, a equipe descobriu que os raios cósmicos foram acelerados por múltiplas explosões. Isso sugere que eles vieram de um cluster a centenas de anos luz de distância.

Coincidentemente, outro estudo recente revelou ferro-60 em amostras no fundo dos oceanos Pacífico, Índico e Atlântico. Os autores, cujo trabalho apareceu na Nature, concluíram que encontraram evidências de duas explosões supernova: uma entre 6,5 e 8,5 milhões de anos atrás, outra entre 1,7 e 3,2 milhões de anos atrás. Na semana passada, um estudo examinando detritos de ferro-60 na Lua chegou a uma conclusão parecida.

“Nossos dados de ferro-60 são, de certa forma, os mesmos das amostras do fundo do mar e da lua,” disse Israel, apesar de que ele adicionou que os raios cósmicos vêm de todas as direções, e é quase impossível determinar a fonte exata. Sua equipe agora planeja usar outros instrumentos para buscar isótopos mais raros e pesados, que podem dar novas informações sobre o caso.

Estudar os tempos finais de estrelas que morreram há milhões de anos pode soar esotérico, mas explosões estelares próximas tiveram grande impacto na vida na Terra. Se fossem ainda mais próximas, e a radiação da supernova poderia atravessar a camada de ozônio e fritar qualquer forma de vida presente no nosso planeta. Uma explosão há centenas de anos luz de distância não causa o apocalipse, mas alguns cientistas acreditam que um fluxo adicional de radiação pode ser o suficiente para dar início a uma mudança climática – como a que aconteceu no período Pleistoceno há dois milhões de anos.

Ainda não podemos dizer com certeza que a mais recente era do gelo na Terra está ligada a uma supernova. Mas a ideia de que estrelas distantes ainda podem ter impacto na nossa vida atual é certamente intrigante.

Imagem: Gemini South Telescope/Travis Rector