A suprema corte russa decidiu nesta terça-feira (20) que o app de mensagens Telegram deve compartilhar suas chaves de criptografia com as autoridades do país.

Segundo informações do ZDNet, a empresa vinha lutando desde o ano passado contra a decisão do governo, que ordenava a entrega das chaves ao FSB, agência de segurança da Rússia, conhecida anteriormente como KGB.

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O Telegram utiliza uma criptografia proprietária, diferente de empresas como Google e Facebook que utilizam protocolos públicos comprovadamente seguros. A empresa fundada pelo empreendedor russo Pavel Durov recusou a ordem de entrega, mas a juíza da suprema corte russa Alla Nazarova negou o recurso do Telegram nesta terça.

Uma multa foi aplicada à companhia, que tem agora 15 dias para entregar as chaves de criptografia ao governo russo. Caso a empresa se recuse a cumprir a ordem novamente, o aplicativo será bloqueado no país – algo que nós brasileiros já estamos até acostumados.

A FSB não considera acesso às chaves de criptografia uma violação da privacidade dos usuários, como mostra a Bloomberg. A agência de segurança argumentou para a suprema corte que as chaves não são consideradas informações de acesso restrito e que usá-las para coletar informações de suspeitos ainda iria exigir uma ordem judicial.

Ramil Akhmetgaliev, advogado do Telegram, considera o argumento da FSB “sagaz”. “É como dizer ‘Eu tenho a senha do seu email, mas eu não controlo o seu email, eu apenas tenho a possibilidade de controlá-lo”, disse.

“Ameaças de bloquear o Telegram a não ser que ele libere dados privados de seus usuários não vão adiantar. O Telegram se mantém firme pela liberdade e privacidade”.

O aplicativo com mais de 100 milhões de usuários em todo o mundo se popularizou graças às suas medidas de segurança, ganhando fama, inclusive, entre terroristas que o utilizam para se comunicar de maneira segura, como aponta do ZDNet.

O app, no entanto, já teve seus métodos de segurança questionados, uma vez que a empresa construiu uma infraestrutura que armazena as chaves de segurança centralmente – algo que não é feito nas mensagens criptografadas ponto a ponto do WhatsApp e do Signal, por exemplo.

Putin

Na base destes problemas estão as leis antiterroristas implementadas em 2016 pelo presidente russo Vladimir Putin – que recentemente garantiu um quarto mandato.

As leis forçam companhias operando no país a armazenar dados dos cidadãos russos localmente, além de permitir que o estado e serviços de inteligência do país tenham acesso a estas informações – o que muitos chamam de uma medida para tolher a liberdade de expressão.

Antes de criar o aplicativo de comunicação, Durov fundou uma versão russa do Facebook, chamada de VKontakte, ou simplesmente VK, que hoje é controlada pelo governo. Depois de perder o controle de sua criação, ele abandonou o país, se mudou para Buffalo, em Nova York, e deu início ao Telegram. Apesar disso, a sede da empresa está registrada em Berlim, na Alemanha.

O fundador nega, mas fontes afirmam que desenvolvedores do Telegram trabalham diretamente dos escritórios da VK, a rede que hoje é controlada pelo governo russo.

Durov explica que, durante a concepção do Telegram, desenvolvedores trabalharam destes escritórios, mas hoje a empresa é efêmera — essa afirmação, no entanto, não deixa especialistas com menos dúvidas sobre a real segurança do aplicativo.

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