Se você sobrevoar a superfície da maior lua de Saturno, Titã, verá montanhas, rios, lagos e mares, mas você também poderá dar de cara com uma tremenda tempestade. Clima severo não é comum em Titã, mas uma nova pesquisa sugere que, quando o tempo fecha, torrentes de metano líquido são despejados dos céus, causando enchentes e escavando a superfície de gelo da lua.

Titã é a maior das 60 luas de Saturno, cujo tamanho se iguala ao de Mercúrio. Um visitante da Terra reconheceria muitas caracteristicas, incluindo a atmosfera, vulcões, montanhas e dunas de areia. E, assim como a Terra, Titã também tem líquido de fluxo livre em sua superfície, manifestados em rios, lagos e mares. Uma nova pesquisa publicada na Nature Geoscience identifica algumas similaridades que não conhecíamos antes, como padrões climáticos regionais e temporadas de tempestades severas.

Um leque aluvial visto na China. Características similares foram descobertas em Titã, sugerindo a presença de tempestades. (Imagem: NASA)

Que chove metano líquido em Titã nós já sabíamos. Mas Jonathan Mitchell e Sean Faulk, pesquisadores da UCLA que produziram o novo estudo, descobriram que essas tempestades acontecem cerca de uma vez a cada mil anos — são chamadas de “eventos milenares”. Estas tempestades ocorrem uma vez a cada ano Titã, equivalente a 29,5 anos terrestres. Elas são raras, mas não tão raras como anteriormente se acreditava.

Não há nada sutil nessas tempestades, no entanto. Os modeladores climáticos produzidos por Mitchell e Faulk mostram 300 mm de chuva por dia, um valor comparável às chuvas do Furacão Harvey, que bateram recordes.

O principal ponto desta descoberta vem na forma de leque aluvial. Quando a tempestade cai, as intensas chuvas inundam a superfície de gelo da lua da mesma forma que fortes tempestades inundam a superfície rochosa da Terra. O grande fluxo de metano líquido percorre as montanhas, colinas, e as paredes de cânions, coletando e despejando pedaços de areia e sedimentos. Este processo de erosão produz o característico formato triangular dos leques aluviais, que também são encontrados na Terra e em Marte.

Esta imagem da superfície de Titã, capturada pela sonda Huygens, é a única imagem da superfície de um corpo mais distantes que Marte. (Imagem: Nasa/Huygens).

Estas observações foram possíveis graças a saudosa sonda Cassini, que usou o seu radar para detectar os leques aluviais. Conforme apontado pelo estudo, estas características da superfície são primariamente localizadas próximos ao centros dos hemisférios norte e sul, mas mais próximos aos pólos do que aos equadores. Estas variações sugerem, assim como na Terra, que os padrões de precipitação da lua são específicos para cada região; as intensas tempestades são formadas em latitudes mais altas e molhadas, enquanto as condições mais secas persistem nas mais baixas. A Terra possui contrastes similares, com tempestades e nevascas mais comumente presentes na América do Norte e Europa durante o inverno.

As pesadas chuvas e consequentes escoamentos são atores importantes na erosão da superfície e no preenchimento de lagos. Enquanto isso, nas areas onde a chuva é pouca ou até inexistente, a superfície é coberta com dunas de areia. Pesquisas anteriores mostraram que metano liquido tende a ser coletado em latidudes mais altas, mas este é o primeiro estudo a apontar que eventos de tempestades extremas podem desencadear enormes transportes de sedimentos e erosão.

Sobretudo, os cientistas da UCLA não observaram de fato tempestades em Titã. E o motivo é parcialmente devido a duração de um ano Titã; a Cassini pode apenas observar a lua por três estações. As estimativas usadas no estudo foram calculadas por computadores, que simularam o ciclo hidraulico da lua. Com sorte, futuras missões a Titã vão efetivamente capturar estas tempestades em ação.

[Nature Geoscience]

Imagem de topo: A maior lua de Saturno, Titã. É com isso que ela se parecia caso sua grossa e gasosa atmosfera fosse removida. (Imagem: NASA/Cassini)