Uma estimativa atualizada indica que o teste nuclear de setembro de 2017 realizado pela Coreia do Norte foi equivalente a 250 quilotons de TNT – uma capacidade explosiva 16 vezes maior do que a bomba lançada em Hiroshima durante a Segunda Guerra Mundial. A explosão também apresentou uma ordem de magnitude maior que os cinco testes anteriores feitos pelo país.

Uma pesquisa publicada esta semana no Journal of Geophysical Research: Solid Earth forneceu novas estimativas para um teste nuclear subterrâneo conduzido pela República Popular Democrática da Coreia do Norte em 3 de setembro de 2017.

A bomba, detonada no local de testes nucleares de Punggye-ri no Monte Mantap, produziu 250 quilotons de TNT, de acordo com a nova pesquisa. Considerando que essas estimativas não são estritamente precisas, esse número pode chegar a 328 quilotons.

O teste de 2017 também foi de uma ordem de magnitude maior do que qualquer um dos testes anteriores realizados no local de 2006 a 2016, indicando um aumento repentino na capacidade.

Os autores do novo estudo elaboraram uma estimativa mais precisa levando em conta a geologia da região. Para determinar o poder dessas armas à distância, os cientistas estudaram as ondas sísmicas produzidas por esses testes.

A Coreia do Norte retirou-se do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares em 2003 e começou a testar armas nucleares em 2006. O país já realizou um total de seis testes, cada um mais potente que o anterior. Mas, conforme mostra a nova pesquisa, a diferença detectada entre o quinto e o sexto é particularmente alarmante. O salto de cerca de 20 quilotons para 250 quilotons significa um aumento dramático no potencial nuclear da Coreia do Norte.

“O mais assustador é que era uma bomba muito grande.”

“De 2006 a 2016, a Coreia do Norte aumentou de forma constante o tamanho dos eventos, de algo em torno de 1 quiloton para cerca de 20 quilotons. Os primeiros resultados pareciam não ser muito bons, porque eram incomumente pequenos”, disse o co-autor Thorne Lay, sismólogo da Universidade da Califórnia em Santa Cruz, em um comunicado da American Geophysical Union à imprensa. “E então, em um ano, eles saltaram para cerca de 250 quilotons. O mais assustador é que era uma bomba muito grande”.

Esta nova estimativa não é totalmente surpreendente. O teste de 2017 desencadeou um terremoto de magnitude 6,3 — um evento que literalmente moveu montanhas. A explosão subterrânea também causou o colapso da câmara nuclear no local de testes de Punggye-ri.

Estimativas atualizadas dos seis testes nucleares conduzidos pela Coreia do Norte até agora. Linhas verticais pretas indicam a potência estimada de cada bomba, enquanto as barras azuis mostram a margem de erro de acordo com as incertezas. Imagem: AGU

Um estudo de 2018 havia avaliado a potência dessa mesma bomba em 209 quilotons. É prática comum à inteligência dos EUA aplicar uma margem de erro duas vezes maior e menor que o número de referência, então as estimativas relatadas variavam entre 120 e 304 quilotons.

O novo estudo aumentou ainda mais o valor correspondente à potência, para 250 quilotons com uma margem de erro entre 148 e 328 quilotons. No caso da estimativa mais alta, o número equivale a quase 22 vezes a força da bomba lançada sobre Hiroshima, que foi de 15 quilotons.

Para elaborar essas estimativas atualizadas, os pesquisadores analisaram dados compilados previamente sobre a maneira como o som viaja através de diferentes tipos de rocha. Uma onda sonora, por exemplo, se comportará de maneiras diferentes ao se propagar através do granito e do arenito. Como a geologia do Monte Mantap e da área ao seu redor não é muito conhecida, os cientistas tiveram que usar as explosões de testes nucleares anteriores conduzidos em Punggye-ri como base para configurar seus modelos.

Vista de satélite do Monte Mantap, o local dos testes nucleares. A localização exata de cada teste, designada de NK1 a NK6, está indicada em amarelo. Imagem: Google Earth/AGU

Uma consideração importante estava relacionada à forma como explosões subterrâneas repercutem da superfície como um eco — um efeito que distorce as gravações sísmicas feitas à distância. Com isso em mente, os pesquisadores estimaram os “tamanhos relativos das bombas, encontrando uma combinação de profundidade e potência que compensava o reflexo do som da superfície”, como observou a AGU em seu comunicado à imprensa.

“Eles modelaram como seria o reflexo para diferentes potências e profundidades e descobriram como seria o sinal se não tivessem que considerar essa onda de retorno. Para mim, o mais impressionante desse estudo é a semelhança entre as formas dessas ondas. Isso é o que me faz acreditar que eles fizeram um bom trabalho”, disse o geólogo Steven Gibbons, que não estava envolvido no novo estudo, no comunicado da AGU. “Acho que os autores levaram o assunto ao limite com este estudo. Eu ficaria surpreso se conseguíssemos restringir ainda mais [as estimativas da] potência absoluta sem informações adicionais”.

Quanto ao tipo de arma utilizada no teste de 2017, Lay disse que é uma bomba de fissão reforçada ou um dispositivo de fusão modesto, sendo este também conhecido como bomba termonuclear ou de hidrogênio. Bombas de fusões combinam núcleos de hidrogênio para formar hélio, resultando em um enorme potencial explosivo – sendo que o maior deles, a Tsar Bomba em 1961, produziu mais de 50 mil quilotons.