A Coreia do Norte se comprometeu a fechar um de seus locais de testes nucleares em uma reunião nesta quarta-feira (19) entre o presidente sul-coreano Moon Jae-In e o ditador norte-coreano Kim Jong-un em Pyongyang, na Coreia do Norte. E o que a Coreia do Norte quer em troca? “Medidas correspondentes” dos Estados Unidos. Infelizmente, ainda não sabemos exatamente o que isso significa.

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“O Norte concordou em fechar permanentemente um local de testes de motores e uma plataforma de lançamento de mísseis em Dongchang-ri, na presença de especialistas dos países envolvidos”, disse o presidente da Coreia do Sul, Moon Jae-in, em um comunicado.

“Contingente em medidas correspondentes pelos Estados Unidos, o Norte também irá realizar outras medidas, tais como o desmantelamento permanente da instalação nuclear de Yeongbyeon”, continuou Moon.

Como aponta o Washington Post, o compromisso é um passo na direção certa, mas especialistas alertam que o desmantelamento de apenas uma instalação nuclear em troca de concessões potencialmente importantes dos Estados Unidos pode não ser tão grande. Por exemplo, muitos do lado norte-americano gostariam de ver a Coreia do Norte declarar o fechamento de todas as suas instalações de testes nucleares em vez de oferecer um desmantelamento “fragmentado”, que alguns veem como um caminho para a Coreia do Norte ganhar prestígio no cenário mundial e enrolar por mais tempo, sem desistir de seu arsenal nuclear.

“O mundo precisa lembrar que a Coreia do Norte tem outras instalações nucleares e de mísseis e que essas concessões não necessariamente limitam ou terminam seus programas nucleares ou de mísseis”, disse Melissa Hanham, pesquisadora do Instituto de Estudos Internacionais de Middlebury em Monterey, em entrevista ao Washington Post.

Nos bastidores, a Coreia do Norte também está exigindo uma declaração formal de um fim à Guerra da Coreia dos anos 1950, algo com que o presidente norte-americano, Donald Trump, supostamente concordou, em conversa privada durante sua reunião com Kim em Cingapura, em junho. Mas Trump tem uma visão menos flexível de toda a situação, sem mencionar qualquer concessão.

“Kim Jong-un concordou em permitir inspeções nucleares, sujeitas a negociações finais, e em desmantelar permanentemente um local de teste e uma plataforma de lançamento na presença de especialistas internacionais. Enquanto isso, não haverá testes nucleares ou de foguetes”, tuitou Trump.

Serviços de inteligência dos Estados Unidos alegam que a Coreia do Norte ainda está enriquecendo urânio e que defensores de políticas agressivas do país asiático estão desapontados com a última reunião. O senador republicano Lindsey Graham, da Carolina do Sul, foi ao Twitter para expressar suas preocupações.

“Estou preocupado que a visita da Coreia do Sul vá minar os esforços do @SecPompeo e do embaixador @nikkihaley para impor pressão máxima sobre o regime norte-coreano”, escreveu Graham na noite de terça-feira (18).

“Embora a Coreia do Norte tenha parado de testar mísseis e dispositivos nucleares, eles NÃO avançaram para a desnuclearização”, prosseguiu Graham. “A Coreia do Sul não deveria ser manipulada por Kim Jong-un.”

O presidente sul-coreano Moon Jae-in, em conversas com o ditador norte-coreano Kim Jong-un, durante um almoço no restaurante Okryugwan, em 19 de setembro de 2018, em Pyongyang, na Coreia do Norte. Foto: Getty Images

Kim Jong-un disse que queria visitar a Coreia do Sul em breve, o que seria a primeira vez para qualquer líder norte-coreano, e o Norte e o Sul disseram que vão fazer uma proposta conjunta para os Jogos Olímpicos de 2032. Mas alguns norte-americanos estão ficando nervosos. porque a Coreia do Sul está formando uma política externa que deixa os Estados Unidos fora de qualquer acordo.

“O presidente Moon aparentemente espera que o presidente Trump simplesmente concorde em fazer o que a Coreia do Norte quiser”, disse à Reuters Bruce Bennett, especialista da RAND Corporation. “Acho que o presidente Moon está assumindo um sério risco.”

As armas nucleares continuam sendo uma das ameaças mais graves à paz mundial. E o fato de que Donald Trump e Kim Jong-un têm os dedos nos botões nucleares não tranquiliza ninguém. O livro mais recente de Bob Woodward, Medo: Trump na Casa Branca, confirmou alguns dos nossos maiores medos, incluindo a possibilidade de que estejamos a apenas um tuíte desequilibrado de uma guerra total:

Dentro da Casa Branca, mas não publicamente, Trump propôs enviar um tuíte declarando que ele estava retirando todos os dependentes de militares norte-americanos — milhares de familiares de 28.500 tropas — da Coreia do Sul.

O ato de remover os dependentes quase certamente seria interpretado na Coreia do Norte como um sinal de que os Estados Unidos estaria seriamente se preparando para uma guerra.

Mas o livro de Woodward não torna a visão de Lindsey Graham mais ponderada do que a de Trump. Em um dado momento, Graham teria incentivado o presidente a assassinar Kim Jong-un. E, em uma cena terrível, Woodward explica a estratégia de Graham em relação à Coreia do Norte, descrevendo exatamente aquilo de que o senador estaria disposto a abrir mão: mais especificamente, as pessoas na Coreia do Sul que seriam visadas pelas armas da Coreia do Norte se uma guerra se iniciasse.

“Se um milhão de pessoas forem morrer, elas vão morrer lá, não aqui”, Graham disse a Trump.

Ao contrário do que pressuporia o senso comum, não existem adultos na sala.

[Casa Azul e Washington Post]

Imagem do topo: Getty