Imagine que uma pessoa acabou de fazer cirurgia no joelho. Ou está se recuperando de uma fratura. Ou, pior ainda, sofreu um acidente vascular cerebral, ou esclerose múltipla, ou danos na coluna ou sistema nervoso. Recuperar o poder de caminhar é uma experiência bastante difícil, e pode ser impossível sem depender de uma muleta, um corrimão ou um fisioterapeuta. A AlterG Bionic Leg – vinda direto de um futuro sci-fi – pode ser a resposta. Nós testamos.

Não é a primeira vez que falamos sobre a AlterG, uma empresa menos conhecida pelo público. Ela produziu um cinto criado pela NASA, usado na recuperação de lesões, que diminui em até 80% o peso que impacta os joelhos de atletas. A Bionic Leg, no entanto, é ainda mais incrível.

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Pela descrição da empresa, este é “o primeiro exoesqueleto robótico vestível e móvel para fisioterapia dos membros inferiores”. Com ele, os pacientes podem usar suas pernas como faziam antes da lesão.

A Bionic Leg fornece assistência motorizada para estender a perna (endireitando seu joelho): ou seja, ela age quando você se levanta depois de ficar sentado, quando você anda, e ao subir escadas. Ela também fornece resistência na flexão (dobrando seu joelho): por isso, ela entra em ação quando você se abaixa para sentar, ao agachar, ou ao descer escadas.

Por exemplo, uma pessoa com a perna ferida normalmente sobe um lance de escadas começando com a perna boa, apoiando-se nela, e trazendo a perna ferida ao degrau. Então eles usam a perna boa novamente e repetem o processo. Com a AlterG Bionic Leg, você não precisa fazer isso. É possível subir escadas com um pé após o outro, deixando os motores fazerem a maior parte do trabalho no membro lesionado – mas lentamente devolvendo força e controle para recuperá-lo.

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Como funciona

Você se senta, e um clínico prende o dispositivo na sua perna. Ele é volumoso e intimidador, mas sua rigidez vem das placas de fibra de carbono, e ele pesa apenas cerca de 3,5 kg (a próxima versão vai pesar só 3 kg). Ele é ajustável para caber praticamente em qualquer perna, e em três minutos ele estará totalmente instalado. No entanto, o componente que faz isto ser um avanço não vai na sua perna – ele vai no seu sapato.

A palmilha fina com quatro sensores de pressão é colocada direto no seu sapato – pode ser qualquer um – e é ligada ao restante da perna. São esses sensores que permitem à perna reagir com base no movimento que você quer fazer. Em outras palavras, a pressão que seu pé aplica nos sensores, junto ao esforço feito por seu joelho, diz à perna biônica se você quer se levantar, andar, subir uma calçada, ou sentar. Ela processa essa informação tão rápido que as reações parecem instantâneas, como se a perna biônica estivesse lendo sua mente.

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Na parte superior da máquina há uma pequena tela LCD com alguns botões ao redor. Você coloca seu peso e, em seguida, há quatro parâmetros que podem ser ajustados:

  • Limiar: controla a porcentagem do peso corporal necessária para ativar os motores. Ele pode ser configurado entre 5% e 50% do peso do paciente. Em outras palavras, um homem de 80 kg pode configurá-lo para 25%, e os motores auxiliares só se ativam ao sentirem 20 kg de pressão. Esse número pode ser ajustado de acordo com o andamento da reabilitação, para que a perna real continua a levar a carga que aguentar.
  • Assistência: é simplesmente o quanto os motores ajudam o paciente a estender a perna. Ele pode ser configurado entre 0% e 80%. À medida que a pessoa melhora, esse número será diminuído para que ela use mais a perna.
  • Resistência: é quanta resistência a perna biônica oferece durante a flexão (sentando, descendo escadas etc.). Ela pode ser definida como baixa, média ou alta e, essencialmente, vai evitar que um joelho fraco entre em colapso de forma imprevisível.
  • Limitador de extensão: provavelmente seria usado apenas por alguém com uma lesão direta no joelho ou perna. Por exemplo, se você fez recentemente uma cirurgia no joelho e não deve estender totalmente o joelho, os motores só fazem você chegar a um certo grau de extensão. Basicamente, isto salva você de si mesmo.

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Vale notar que esta Bionic Leg não serve para uma perna totalmente paralisada. Como o acionamento é desencadeado pelo movimento da sua perna e pela pressão do seu pé, você deve ter pelo menos algum controle sobre ela. Mas, pelo lado positivo, isso significa que a Bionic Leg não precisa de quaisquer controles manuais, e imita melhor o movimento natural.

Tudo isto funciona com uma bateria interna, para que não haja fios limitando a sua mobilidade. Quer entrar e sair do seu carro para praticar? Sem problemas. Isto também significa que um fisioterapeuta pode levar a Bionic Leg para a casa de um paciente, para que ele ou ela possa se acostumar a subir aquela complicada escada em espiral.

Usando

“O QUE É ISSO?!” foi a minha primeira reação, logo seguida por “Eu nunca, em toda a minha vida, senti algo assim”, seguido então por “Eu. Sou. Robocop”. Mesmo com apenas 30% de assistência, eu me senti estranhamente poderoso. Subir escadas era chocantemente fácil, assim como sentar e levantar. A parte mais incrível, porém, foi ver que a perna biônica respondia quase tão rapidamente quanto minha outra perna. Era tão sensível que realmente parecia ser uma parte de mim.

Uma das primeiras coisas que você nota são os sons robóticos proeminentes que os motores fazem. Mas veja só: a AlterG consegue deixar os motores muito mais silenciosos, só que os fisioterapeutas e pacientes preferiam motores mais audíveis. Isso fornece feedback em tempo real para eles, para saber quanto do movimento vem dos motores, e quanto vem da perna do paciente. E sim, isso definitivamente me faz sentir ainda mais como Robocop.

A Bionic Leg, no entanto, não é rápida. Eu tive fantasias de correr na rua como o Homem de Seis Milhões de Dólares e até fazer um chute a gol mas, infelizmente, a perna tem velocidade máxima de apenas 3 km/h. Ela foi feita para reabilitação física de baixo nível, então isso é muito bom; mas nós continuaremos sonhando com futuras versões que permitam a você correr ou, pelo menos, andar mais rápido.

Nota: Os pacientes que usam a AlterG Bionic Leg devem usar calças, tanto por razões de conforto e higiene. Eu não sabia disso antes, e eu só tinha shorts para fazer a demonstração.

Presente e futuro

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Dois estudos (reconhecidamente pequenos) foram realizados nos EUA usando a Bionic Leg com pacientes que sofreram AVC. Ambos os estudos concluíram que os pacientes tiveram melhorias significativas na marcha, equilíbrio, velocidade e desempenho funcional. Eles também concluíram que pacientes que usaram a Bionic Leg eram mais propensos a manter essas melhorias bem depois do tratamento acabar, quando comparados aos pacientes que usaram formas mais tradicionais de reabilitação. Isso é ótimo.

Atualmente, existem apenas cerca de 80 pernas biônicas da AlterG nos EUA, espalhadas por todo o país. Elas estão sendo usadas ​​com grande sucesso em diversos pacientes, que sofreram desde lesões traumáticas de joelho a doenças degenerativas. Ela custa cerca de US$ 40.000, mas pode ser alugada por US$ 700 a US$ 1.000 por mês, dependendo de quanto ela será usada. Obviamente, estas são ferramentas para especialistas em reabilitação, mas a AlterG agora está aumentando a produção, por isso espero que esses dispositivos se tornem cada vez mais comuns em locais de reabilitação por todo o mundo.

Esse foi o mais próximo que eu já estive de ser um super-herói. E esse é o melhor tipo de avanço que existe. [AlterG Therapy]

Vídeo por Michael Hession.