Na terça-feira (16), a empresa de biotecnologia Bluebird suspendeu seus testes de terapia gênica como tratamento para doenças relacionadas ao sangue devido a preocupações com um possível aumento do risco de câncer. A empresa diz ter descoberto recentemente que dois pacientes submetidos ao tratamento experimental desenvolveram uma forma de câncer no sangue, juntamente com um caso semelhante documentado em 2018. Até o momento, porém, não está claro se o tratamento está realmente relacionado a esses incidentes.

A terapia gênica surgiu como um avanço potencial para o tratamento de doenças em grande parte ou totalmente relacionadas a mutações genéticas. Normalmente, o objetivo é criar mudanças duradouras ou mesmo permanentes em certas células, eliminando ou substituindo genes defeituosos. Em 2017, a primeira terapia gênica direcionada a uma mutação específica — que causa perda de visão — foi aprovada pela Food and Drug Administration (órgão dos EUA com atribuições semelhantes às da Anvisa).

Uma aplicação interessante para a terapia gênica tem sido a anemia falciforme, um distúrbio genético que faz com que os glóbulos vermelhos de uma pessoa fiquem deformados, rígidos e incapazes de se deslocar facilmente pelo corpo, levando à anemia crônica e, muitas vezes, ao encurtamento do tempo de vida.

As pessoas desenvolvem a doença devido a uma mutação (que deve ser herdada de ambos os pais) que altera a produção de hemoglobina, a proteína transportadora de oxigênio que dá cor aos glóbulos vermelhos. O tratamento de terapia genética da Bluebird, chamado Lentiglobin, introduz uma versão modificada do gene responsável pela hemoglobina na medula óssea de uma pessoa, com o objetivo de fazê-la produzir uma forma de hemoglobina que reduza diretamente os níveis da versão doente.

Nos primeiros dados clínicos, os resultados pareceram promissores. Os pacientes tiveram uma redução drástica nos sintomas relacionados e melhorias no trabalho executado pelo sangue. Mas em dezembro de 2018, a Bluebird relatou que um paciente que recebeu Lentiglobin desenvolveu a síndrome mielodisplásica (SMD), um câncer do sangue que deixa as células sanguíneas incapazes de crescer adequadamente. Na época, a empresa determinou que a condição do paciente provavelmente se devia à quimioterapia que recebeu antes da terapia gênica, que é usada para condicionar o corpo a aceitar o tratamento, já que a SMD é uma complicação conhecida. O paciente morreu no ano passado.

No entanto, pelo menos um outro paciente nos estudos com células falciformes desenvolveu SMD, enquanto um terceiro paciente desenvolveu leucemia mieloide aguda. Ambos haviam recebido terapia gênica anos antes, e a empresa disse que soube dos casos na semana passada. Esses relatos levaram a empresa a suspender todos os seus testes de terapia gênica em andamento, incluindo um teste de Fase III para células falciformes, e notificar agências de saúde relevantes nos EUA e na Europa.

“A segurança de cada paciente que participou de nossos estudos ou é tratado com nossas terapias gênicas é a maior prioridade para nós”, disse Nick Leschly, CEO da Bluebird, em um comunicado da empresa. “Estamos comprometidos em avaliar totalmente esses casos em parceria com os provedores de saúde que dão suporte a nossos estudos clínicos e agências regulatórias apropriadas. Nossa preocupação é com esses pacientes e suas famílias durante este período.”

A empresa observou que nenhum caso semelhante de câncer no sangue foi observado em ensaios que vem sendo feitos para uma terapia gênica semelhante para talassemia, outra doença hereditária caracterizada por hemoglobina prejudicial à saúde. Mas a companhia e o conselho de segurança independente que supervisiona esses testes agora investigarão se o método de entrega usado para a Lentiglobin, que depende de um lentivírus modificado para entregar a terapia às células, teve alguma influência nesses casos (um lentivírus notável é o HIV).

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Por mais promissores que sejam esses tratamentos de terapia gênica, os cientistas se preocupam com seus riscos potenciais a longo prazo e com a quimioterapia agressiva frequentemente necessária para fazê-los funcionar. Outra preocupação é que as terapias gênicas baseadas em vírus podem perder o efeito com o tempo. Essas terapias também tendem a ser excessivamente caras para a maioria das pessoas realmente usarem.

A suspensão de um ensaio clínico por razões de segurança é comum e não necessariamente um sinal de falha do tratamento. No ano passado, vários ensaios das vacinas contra Covid-19 foram suspensos, mas posteriormente retomados. O tempo dirá se esses relatos são evidências de um risco real elevado de câncer com esse tratamento.