Por que você precisa assistir a nova série True Detective? Porque cada episódio é uma surra bem dada, daquelas de arrancar dentes. Ela estreou em 12 de janeiro; depois de cinco episódios, não há como negar que a série é fenomenal.

Começando pela abertura: se eu me forçar a esquecer a obra de arte que abre os episódios de Game of Thrones (também da HBO), não consigo me lembrar de outra abertura tão bonita e cuja intersecção entre imagens e música sirva tão bem ao propósito de definir uma história, resumi-la e ainda ficar grudada na sua cabeça.

A premissa da série é velha: uma dupla de detetives investiga um assassinato com características ritualísticas. O típico policial fictício norte-americano – durão, sem o que se possa chamar de, ó, um primor de intelecto, mas competente – pode ser imediatamente identificado na figura de Martin Hart (Woody Harrelson). À primeira vista, Rustin Cohle (Matthew McConaughey) parece ser só a parte inteligente e meio esquisitona da dupla. Mas não se engane: ele é muito mais que isso. Rustin Cohle é o dono dessa temporada, e também vai ser o dono da sua completa atenção enquanto você estiver assistindo.

Todo mundo conhece um babaca metido a besta. Mas também não é incomum conhecer um babaca metido a besta que nos causa ainda mais raiva que o normal, porque ele é suficientemente bom no que faz para ter o direito de ser babaca e metido a besta. Este é Rustin Cohle. O detetive não tem família (uma história trágica que vamos entendendo aos poucos), sua casa não tem móveis e ele não tem o menor interesse em socializar com os colegas e nem com seres humanos em geral. A cada fala que ele solta, você fica mais convencido de que ele não se importa com nada, a não ser com o caso a ser resolvido. Saído da divisão de narcóticos, onde foi usado como infiltrado nas gangues de traficantes por um longo tempo, Cohle agora está na homicídios de um distrito no meio do mato da Louisiana. Mas por que um investigador tão inteligente e meticuloso foi pra roça?

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Aqui entra a linha narrativa diferente de True Detective: costurada de forma sinuosa, indo, voltando e girando sobre si mesma, a história é contada em dois planos temporais: um se passa nos anos noventa, mostrando a investigação do assassinato e o outro, alguns anos à frente, com Hart e Cohle mais velhos narrando a história da investigação em depoimentos. Vemos algumas desculpas para que isso aconteça: a polícia perdeu os arquivos do caso; aparentemente um criminoso está usando os mesmos métodos do serial killer ritualístico. Mas enquanto os depoimentos de Hust e Cohle vão rolando, você começa a sentir que a polícia não está exatamente atrás disso.

A fórmula funciona muito bem para escapar de uma armadilha em que muitas séries policiais acabam caindo: se ela fosse mostrar a morosidade com que uma investigação ocorre na vida real, a série ficaria chata e não se sustentaria como narrativa. No entanto, também não dá pra usar os expedientes dos CSIs da vida, que fazem parecer que qualquer caso pode ser resolvido do dia pra noite. A fórmula de True Detective usa os depoimentos para fazer a trama andar e entregar detalhes que funcionam melhor sendo contados do que mostrados.

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A série é a estreia do escritor Nic Pizzolatto como argumentista e roteirista. O diretor, Cary Fukunaga, já ganhou um prêmio em Sundance, mas também não é muito conhecido. Mas nenhum dos dois deixa fica devendo nada para as grandes obras anteriores da HBO: a linha temporal da série é complexa, mas graças a uma excelente edição, não vai dar nó na sua cabeça. Além disso, o roteiro de Pizzolatto tem fôlego e diálogos maravilhosos, com destaque para as longas digressões de Cohle.

Além disso, True Detective consegue um efeito que raramente vemos sendo feito do jeito certo: fazer com que o ambiente se torne um personagem da história. Nem vou começar a falar da cena de ação de seis minutos que está no quarto episódio e foi gravada sem cortes. É daquelas que incita uma enxurrada de palavrões elogiosos assim que termina (e você volta a respirar do jeito certo).

As temporadas de True Detective serão feitas no formato de antologia: cada temporada é uma história fechada com personagens próprios. Na próxima temporada teremos outra história e novos atores. Nisso, o formato de True Detective lembra um pouco o de The Wire, mas é ainda mais ousado – já que ao que tudo indica, o elenco não será mantido.

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True Detective mostra a polícia de verdade, com a incompetência da chefia, forças políticas se aproveitando do poder para direcionar a resolução dos casos, os fins que justificam os meios. Mas mostra também o terror, o vazio e a falta de sentido de tudo, tudo isso catalisado na figura de Cohle. A completa falta de interesse de Cohle por tudo que não seja o caso traz um nível de niilismo que seria canastrão e caricato se suas falas longas não estivessem com Matthew McConaughey, que está absurdo de tão bom no papel.

Figuras policiais costumam ser mediadores no choque entre a exigência da perfeição no exercício da autoridade e a humanidade dos personagens que têm suas fraquezas. Num dado momento da série, ele diz que, se alguém precisa das regras da religião para ser uma pessoa decente, então essa pessoa não vale nada. E ele está coberto de razão. Cohle não serve para mediar, mas para jogar toda a falta de sentido do mundo na nossa cara. Estranhamente, ele tem um senso de propósito muito forte e parece disposto a tudo para resolver o caso. Mas será que essa impressão é verdadeira?

O caso é que True Detective é mais complexa do que parece. O detetive Cohle provoca um estranhamento incomum e os caminhos bizarros a que a investigação leva a dupla de detetives fizeram com que alguns começassem a descrever a série como “um Twin Peaks com toques lovecraftianos“. E só o fato de a série passar essa sensação sem usar nenhuma cena ou artifício efetivamente sobrenatural já mostra que ela vale muito a pena.

True Detective é exibida pelo canal HBO aos domingos, às 23h (horário de Brasília), com transmissão simultânea entre Brasil e EUA. Também há reprises ao longo da semana; confira a programação aqui.