Donald Trump — que certa vez exigiu que o ex-funcionário da NSA Edward Snowden fosse executado por vazar informações confidenciais sobre o sistema distópico de vigilância de cidadãos norte-americanos — disse ter pensado que Snowden “não foi tratado com justiça” após um pedido do parlamentar republicano Thomas Massie para finalmente perdoá-lo.

Snowden, que vazou um grande número de documentos internos da NSA sobre programas secretos de vigilância em massa que invadem a privacidade, incluindo o PRISM, colaboração com outras agências de inteligência, coleta de dados e o “orçamento secreto” da NSA, agora vive na Rússia com medo de ser extraditado para os EUA e processado.

Em uma entrevista ao New York Post na quinta-feira, Trump citou Snowden como um mártir semelhante a si mesmo, repetindo afirmações infundadas de que a administração de Barack Obama teria grampeado a Trump Tower e espionava ilegalmente sua campanha presidencial de 2016.

“Há muitas pessoas que pensam que ele não está sendo tratado com justiça”, disse Trump ao Post. “Quer dizer, eu ouvi isso.”

Trump então divagou com alusões tipicamente vagas a Snowden estar entre as pessoas “sobre as quais eles” falam e ter “ouvido coisas dos dois lados”, antes de aproveitar a oportunidade para negar que ele e Snowden já haviam se conhecido — falando de forma bem confusa. De acordo com o NY Post:

“Snowden é uma das pessoas de quem eles falam. Eles falam sobre várias pessoas, mas ele certamente é uma das pessoas de quem falam”, disse Trump na quinta-feira, antes de se dirigir a seus assessores. “Eu acho que o DOJ está querendo extraditá-lo agora mesmo? […] Certamente é algo que eu poderia olhar. Muita gente está do lado dele, direi isso. Eu não o conheço, nunca o conheci. Mas muitas pessoas estão do lado dele.”

O presidente então perguntou a sua equipe: “O que você acha disso, do Snowden? Faz muito tempo que não ouço o nome.”

Depois de fazer uma pesquisa na sala, Trump acrescentou: “Eu ouvi coisas dos dois lados. De traidor a ser, você sabe, perseguido. Eu ouvi coisas dos dois lados.”

Uma grande coalizão, incluindo a ACLU, a Anistia Internacional, a Human Rights Watch, CEOs de tecnologia, ex-funcionários da administração Obama e da segurança nacional, membros da mídia e ativistas de direitos humanos concordam que Snowden merece um perdão, mas não está claro por que Trump pensa nisso ou com que profundidade ele analisou o caso. Também dá para saber claro pelo tom da conversa se Trump está considerando seriamente um perdão ou apenas brincando com a ideia como uma forma de se dizer outro alvo infeliz da comunidade de inteligência dos EUA.

No ano passado, o Departamento de Justiça de Trump processou com sucesso para impedir Snowden de lucrar com o lançamento de seu livro Permanent Record por ele não ter sido aprovado pela NSA ou pela CIA. O DOJ e as agências de inteligência continuam hostis a Snowden.

No Twitter, Snowden respondeu à matéria do Post apontando um perdão havia sido considerado em 2016, quando o ex-procurador-geral Eric Holder disse que os vazamentos tinham sido um “serviço público”. Na época, Holder disse que Snowden ainda deveria ser punido por não passar pelo Congresso para relatar suas preocupações. Obama afirmou mais tarde que não poderia perdoar Snowden, já que ele nunca compareceu a um tribunal dos EUA (a propósito, não é realmente assim que os perdões funcionam).

Snowden geralmente tem sido mais impopular entre conservadores do que entre liberais e libertários. Mas a questão não se encaixa perfeitamente nas linhas partidárias, e muitos democratas relutam em pedir seu perdão.

Em 2016, membros de ambos os partidos no Comitê de Inteligência da Câmara o rotularam como mentiroso. Massie foi um dos vários republicanos, incluindo o deputado Justin Amash e o senador Rand Paul, que se aliou a Snowden como um delator pelas liberdades civis.

Do lado democrata, os defensores do perdão incluem o senador Bernie Sanders e a congressista Tulsi Gabbard, bem como o ex-presidente Jimmy Carter, enquanto o apoio geral às revelações — além do próprio Snowden — veio de muitos membros democratas do Congresso.