Se você espera que a tecnologia te ajude a viver por mais tempo, vale a pena dar uma olhada no que os tubarões-da-groenlândia têm a nos oferecer. De acordo com um novo estudo, essa espécie consegue viver até 400 anos e é considerado o animal vertebrado mais longevo do mundo.

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Há 400 anos, um navio chamado Mayflower estava prestes a partir para o Novo Mundo. Os tubarões-da-groenlândia mais velhos deviam ser bebês quando os primeiros colonos ingleses atravessaram o oceano Atlântico. Ou talvez eles já fossem jovens adultos. Uma análise de 28 fêmeas de tubarões-da-groenlândia, publicada na revista Science, revelou que a mais velha entre elas viveu entre 272 e 512 anos. E é bem provável que ela já tivesse 390 anos quando um navio de pesquisa a içou acidentalmente.

E mesmo que a longevidade do tubarão-da-groenlândia esteja no menor valor dessa escala, ela ainda é impressionante. O outro vertebrado que chega perto dessa expectativa de vida é a baleia-da-groenlândia, mas não chega nem a alcançar a marca de dois séculos de idade.

Descobrindo o tubarão-da-groenlândia

Os tubarões-da-groenlândia estão entre as espécies menos estudadas pela biologia marinha. Eles vivem nas águas profundas e geladas do Atlântico Norte e já foram capturados diversas vezes como fauna acompanhante, além de terem sido caçados por pouco tempo no início dos anos 1900, quando extraíam seu óleo de fígado.

Embora a nossa relação com esses tubarões já tenha uma certa história, não sabemos praticamente nada sobre eles, como o tamanho de sua população, a distribuição e ecologia. A Lista Vermelha da IUCN a descreve com duas simples palavras: “dados insuficientes”.

“Eu acho que, no geral, as pessoas trataram os tubarão-da-groenlândia como um animal sem importância ecológica ou econômica”, disse Julius Nielsen, líder do estudo, ao Gizmodo. “Nunca existiu um interesse científico.”

Doutorando na Universidade de Copenhague, Nielsen ficou fascinado com os tubarões-da-groenlândia há mais ou menos cinco anos, quando um deles foi içado acidentalmente num navio de pesquisa em que ele estava trabalhando. “Foi uma experiência incrível, ver um animal tão grande,” disse. “Eu comecei a investigar o que se sabia quanto a essa espécie, e fiquei surpreso com a pequena quantidade de informação que existia.”

Datação por carbono-14

Para Nielsen, um dos aspectos mais intrigantes do tubarão-da-groenlândia é o ritmo de crescimento incrivelmente lento — menos de um centímetro por ano, na média. Isso é um forte indicador da longevidade da espécie. Eles não envelhecem de uma forma tradicional porque não possuem tecidos calcificados, e isso acaba prejudicando a forma com que se consegue analisar a idade dele.

O orientador de Nielsen pensou numa alternativa para esse problema: fazer a datação por radiocarbono usando a pálpebra do tubarão. Ela é composta por células transparentes com proteínas cristalizadas inertes. “É basicamente um tecido morto,” disse Nielsen, descrevendo como as células vão se acumulando na pálpebra durante a vida do animal.

Com esse método, Nielsen e seus colegas obtiveram 28 amostras de diferentes tubarões que foram capturados como fauna acompanhante entre 2010 e 2013, durante a pesquisa anual da Greenland Institute of Natural Resources. Depois de descamar a célula até chegar à parte mais velha, os pesquisadores fizeram a análise de carbono-14 e conseguiram estimar a idade dos animais.

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Um tubarão-da-groenlândia nas águas de Disko Bay, na Groenlândia. Foto por: Julius Nielsen

Logo de cara, eles perceberam algo incomum: a maioria das amostras não tinha os sinais de carbono-14 compatíveis com a assinatura dos testes armas nucleares na década de 1960, indicando que os tubarões tinham nascido há mais de 50 anos. “Percebemos desde o começo que estávamos lidando com algo extremo”, disse Nielsen.

Apenas três tubarões, que eram os menores entre eles, nasceram há menos de 50 anos. Uma análise posterior mostrou que a maioria deles tinham nascido no século XIX ou no começo do século XX. E mesmo que seja difícil determinar a idade precisa dos dois maiores tubarões, dá para dizer que eles são muito velhos: entre 75 e 335 anos e entre 120 e 392 anos.

“O ponto central é que o tubarão-da-groenlândia tem pelo menos 272 anos, e é o vertebrado mais velho do mundo,” disse Nielsen. “Eu acho que é a primeira vez na história que uma pessoa faz uma determinação da idade e chega a mais de 240 anos e ainda diz que é um sucesso.”

“Este é um dos métodos mais inovadores para avaliar a idade que eu já vi,” disse Jay Olshansky, especialista em longevidade e envelhecimento na Universidade de Chicago, que não esteve envolvido no estudo. “A história do tubarão-da-groenlândia adiciona outra noção na escala de longevidade – mesmo que ainda não saibamos alguns detalhes sobre essa espécie, não será difícil preencher as lacunas restantes.”

Essas “lacunas” incluem o tempo até que cheguem à puberdade, a janela reprodutiva e a taxa de sobrevivência da prole. Levando em conta que esses atributos costumam depender da longevidade dos animais, Olshansky acredita que o tubarão-da-groenlândia tem uma janela reprodutiva grande e não sofra com predadores. A análise de Nielsen, que definiu que os animais não chegam à maturidade sexual até completarem 150 anos, aparentemente sustenta a hipótese.

Segredos da longevidade

Tudo isso tem grandes implicações na conservação dos tubarões-da-groenlândia. Como você pode imaginar, uma espécie que não se reproduz até a metade do seu segundo século de vida pode ser prejudicada pela pesca comercial. “Eu não os considero ameaçados, mas os considero vulneráveis,” disse Nielsen. “Definitivamente defendo uma abordagem de precaução, em termos de exploração.”

Sonja Fordham, presidente da Shark Advocates International, concorda. “Embora os cientistas continuem o debate sobre a longevidade absoluta do animal, já é claro que ele cresce muito devagar, demora a se tornar um adulto e vive muito tempo, mesmo para os padrões dos tubarões,” contou ao Gizmodo. “Como acontece com a maioria dos tubarões, essas características o tornam mais suscetível à exploração excessiva, que seria dificílima de reverter.”

Sem dúvidas, o tubarão-da-groenlândia merece a nossa proteção pela sua simples existência. Mas também há uma razão egoísta pela qual é interessante preservá-lo: descobrir alguns segredos da longevidade.

“Esse artigo destaca como a ciência sabe pouco sobre a história de vida dessa e de outras criaturas incríveis”, disse Kevin Perrott, cientistas da Buck Institute for Research on Aging e co-fundador da SENS Research Foundation. “Ele também ressalta como seria fácil perder essa fonte de informação por causa de mudanças climáticas e danos ambientais.”

Ao destruir a biodiversidade, “corremos o risco de perder a oportunidade de estudar organismos com informações valiosas sobre um dos nossos maiores desafios médicos, que é o processo de envelhecimento”, completou.

Olshansky concorda. “Ter um ser vertebrado vivendo por tanto tempo nos mostra que a seleção natural manteve uma espécie capaz de evitar ou retardar doenças como o câncer ou distúrbios neurológicos, por períodos muito mais longos do que aquele que somos capazes de viver.”

Aubrey de Gray, gerontologista e especialista em antienvelhecimento, alerta que os fatores que contribuíram para a longevidade do tubarão-da-groenlândia talvez não se traduza para os humanos, devido à diferença entre a pressão do ambiente de cada um.

“Precisamos lembrar que espécies de sangue frio, especialmente aquelas que vivem em ambientes muito gelados, têm menos problemas com a oxidação do que outros mamíferos, porque a principal fonte de radicais livres em nosso corpo é o metabolismo do oxigênio que precisamos fazer para nos mantermos aquecidos,” disse ela ao Gizmodo. “Além disso, os tubarões talvez não tenham nenhum truque que possa ser aplicado em nós, mesmo que tenham vivido por tanto tempo.”

“Mas talvez eles possam ter!”, adicionou. “Definitivamente precisamos estudá-los a fundo.”

Foto: O tubarão-da-groenlândia agora é considerado o vertebrado mais longevo do mundo, podendo viver até 400 anos (Julius Nielsen)