O Twitter está finalmente está para implementar algo em sua plataforma que toda rede social deveria ter. A rede social do passarinho azul está trazendo de volta a timeline cronológica. Tenho usado um truque para visualizar o Twitter dessa forma e as pessoas não têm ideia do poder da Síndrome de Estocolmo algorítmica.

Além de banir nazistas e adicionar um botão para editar o que já foi postado, mostrar os tuítes em ordem cronológica é um dos grandes recursos pedidos pelos usuários. É como as coisas funcionavam antigamente, quando as pessoas tuitavam fotos do que comeram no café da manhã.

Em 2016, uma timeline controlada por algoritmo foi apresentada, o que acabou coincidindo com a época em que a rede se converteu em um espaço infernal com opiniões raivosas. Mas, nesta terça-feira (18), o Twitter anunciou que vai dar mais opções para os usuários.

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Em uma série de tuítes, a companhia disse que a timeline conduzida por algoritmos tem como objetivo mostrar “a você os tuítes mais recentes e tuítes que você provavelmente daria importância, mas nem sempre fornecemos o equilíbrio correto”.

Após ouvir os usuários, a empresa decidiu atualizar suas configurações de modo que você possa retirar a opção “mostrar os melhores tuítes primeiro” — você só verá tuítes de pessoas que você segue em ordem cronológica. Em breve, o Twitter disse que vai liberar uma ferramenta que permitirá alternar entre as duas opções de timeline.

É difícil medir a importância dessa decisão para o Twitter. É um movimento audacioso que contrataria o que foi feito por outras redes sociais, como o Facebook e o Instagram.

Ainda que essas plataformas argumentem que os algoritmos estão fazendo um favor aos usuários ao mostrar conteúdos que eles gostam, essas ferramentas tendem a amplificar conteúdos que tendem a causar discórdia e manipular emoções, pois oferece um tipo de conteúdo que gera mais “engajamento”.

Isso é ruim para todas as redes sociais, mas no Twitter isso é especialmente incômodo, pois as pessoas que usam a rede querem saber o que está ocorrendo naquele momento. A sede por um feed puro se tornou em um meme que segue mais ou menos este formato:

Cronológica? Nós queremos? Timeline! O que…agora! Quando teremos. Crédito: Captura de tela

Neste ponto, o Twitter é a única rede social que eu consigo tolerar. Tem muitos problemas, mas ainda é boa para notícias, comentários e piadas curtas. Mas, na minha experiência, achava que estava ficando um pouco ultrapassado. Parecia que eu só via as mesmas contas quando as pessoas falando dos mesmos assuntos.

Então, eu aderi a um truque do desenvolvedor Andy Baio, que possibilitou que eu usasse a timeline em ordem cronológica. Uma alma gentil disponibilizou essa forma de usar essa técnica — que é essencialmente uma busca personalizada do Twitter para mostrar todos os tweets, com a opção de mostrar os mais recentes primeiros — ao criar uma url realtwitter.com e direcionando para ela. Embora não seja conveniente como um aplicativo, tem sido um experimento interessante e que não foi tão problemático testar.

A princípio, presumi que estaria em estado de felicidade ao me tornar um usuário com super poderes, vendo todas as últimas notícias sem ter de visualizar os tuítes virais de pessoas que não conheço misturadas com posts de dois dias atrás, agrupados na opção “caso você tenha perdido”.

Não cheguei a ficar triste com a experiência, mas fiquei surpreso com os níveis de FOMO (fear of missing out — termo em inglês que significa algo como “medo de estar perdendo algo”) que senti sem ser guiado pelo algoritmo que bombeia minhas emoções no calor das maiores controvérsias.

A primeira coisa que notei é que passei a ver tuítes de pessoas que sigo e que não via há anos. Minha bolha do Twitter era mais diversa e interessante do que eu acreditava — eu só não estava vendo essas pessoas antes, pois não é sempre que elas fazem o tuíte perfeito, sobre o assunto do momento e que se torne viral que o algoritmo acredita que você vai gostar.

A experiência cronológica foi boa e, de modo geral, foi revigorante e mais calma do que esperava. Ver tudo em ordem é bom demais, e a experiência parecia menos uma competição entre usuários que tentavam emplacar a melhor piada.

Mas não levou muito tempo para eu checar minha timeline guiada por algoritmos para ver o que eu estava perdendo. E, de fato, não estava perdendo nada. A única grande coisa que notei foi que passei a ver menos ícones de retuíte na casa dos seis dígitos. Mesmo assim, não parei de ficar testando as duas experiências.

Não é todo mundo que tem a consciência de que algoritmos estão guiando os feeds das pessoas, mas isso sempre está presente em mim. Então, para mim, foi um choque perceber que eu tinha sido treinado para esperar ver os conteúdos mais populares e, de alguma forma, também entrar nessa onda.

Os algoritmos são, acima de tudo, desenvolvidos para exibir propagandas relevantes aos usuários. Ao mesmo tempo, eles rearranjam o conteúdo que você quer ver com uma mistura secreta feita para deixar você o mais estimulado o possível para voltar a ter aquela experiência.

Isso não só aumenta seus níveis de ansiedade por exercer manipulação psicológica, mas também, e tenho convicção disso, contribui para o tipo de publicação que fazemos e como as fazemos.

Uma timeline cronológica dá menos oportunidade para que tuítes virais se tornem super virais. Se um tuíte popular é julgado por centenas de likes em vez de centenas de milhares, acho que veremos mais pessoas postando assuntos mais diversos e experimentando mais com o formato. Posso estar errado, e os usuários podem se contentar com expectativas mais baixas, enquanto ainda perseguem as tendências e pedindo para que todos vejam seu Soundcloud.

Entretanto, algo que é quase certo: é menos provável que sua vida seja arruinada por ter feito um tuíte ruim quando os algoritmos não estão controlando tudo. Conseguir 40 respostas apontando para o erro parece mais provável para provocar uma reflexão do que ser inundado com respostas com GIFs que aumentam essa proporção humilhante.

Toda manhã eu acordo e olho o que está acontecendo por aqui, e eu posto a coisa mais inteligente do dia, e centenas de pessoas vêm falar comigo dizendo “não é legal, chefe”, e eu pio, respondo de volta, chacoalho as barras da minha gaiola, e os cientistas jogam outro petisco, e aí eu vou para cama.

Embora dar a opção de uma timeline cronológica aos usuários pareça ótimo para a saúde mental de todos, a ação também é ótima para o Twitter. Dar aos usuários o poder de controlar como a timeline deles funciona deveria ser um caminho apara acabar os debates sobre o viés algorítmico.

Facebook e Twitter passaram meses rebatendo acusações de que suas plataformas suprimem pontos de vista de uma ideologia política em detrimento de outra. Deveríamos acreditar nas empresas, pois eles não têm motivos específicos para lucrar com isso, mas não muda o fato de que algoritmos têm um enviesamento natural.

Os humanos que desenvolvem essas regras são imperfeitos e frequentemente são enviesados sem pensar. Enquanto as decisões algorítmicas são feitas, nenhuma alegação de que os usuários controlam o que veem em uma plataforma deve ser levada a sério.

Ainda que eu acredite que a ordem cronológica seja melhor, não pude deixar de sentir que perder a opção de uma timeline com algoritmo seria apenas isso — uma perda. Por isso estou extremamente satisfeito com a forma com que o Twitter está lidando com a situação.

Perguntamos ao Twitter como vão funcionar as duas timelines e quando poderemos fazer essa troca, mas não recebemos uma resposta imediata. Tudo que sabemos é que os testes vão começar “na próximas semanas”. Mas é também importante notar que a timeline cronológica do Twitter é um pouco diferente do truque que estou utilizando.

Meu feed puro não inclui respostas e retuítes, e a nova opção cronológica inclui essa opção. Então, se você desativar o “Mostrar os melhores tuítes primeiro” agora, você ainda verá alguns tuítes aparecerem fora de ordem, pois alguém retuitou um post antigo. Por mim, ok. Eu gostaria de dar aos usuários do Twitter controle completo, mas retuítes são bons e podem manter um assunto interessante.

Pode ser que, no fim das contas, acabemos descobrindo que os usuários simplesmente preferem ser manipulados e continuar com o status quo. O mais importante será o resultado final do Twitter. Se todo mundo abandonar o algoritmo, e a empresa sofrer perdas em receita, podemos esperar que outras redes insistam em tirar controle do usuário. Mas se tudo der certo, usuários deveriam exigir que todas as plataformas seguissem o caminho do Twitter.

[Twitter]

GIF do topo por Gizmodo