Marte já contou com um vasto oceano que cobria seu hemisfério norte. Novas evidências sugerem que esse mar marciano passou por ao menos dois “megatsunamis” que começaram após impactos de meteoros. Vestígios desses eventos cataclísmicos ainda podem ser vistos na superfície do planeta, e eles ainda podem conter sinais de vida antiga.

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Oceanos gigantes e tsunamis enormes não são as primeiras coisas que vêm à cabeça quando pensamos em Marte, mas o planeta já foi bem diferente do que é hoje. Há cerca de 3,4 bilhões de anos, explosões subterrâneas desencadearam uma torrente de água que produziu um oceano frio e salino cobrindo as planícies do norte do planeta. Em algumas regiões, ele tinha cerca de 1,6 km de profundidade. E pode ter sido até lar de vidas microbióticas. Mas o clima de Marte mudou, e a maior parte da água evaporou para o espaço.

Essa é a teoria. Essa ideia é baseada principalmente nas estimativas de quanta água Marte já teve e onde ela esteve na superfície do planeta. Mas poucos dados observacionais sobre isso existem. Dada a ausência de características de cortes no litoral, cientistas não têm certeza de que de fato um grande oceano enfeitou o norte do planeta vermelho.

Mas novas evidências, apresentadas por cientistas do Instituto de Ciência Planetária de Tucson (PSI), nos EUA, oferece uma prova mais concreta de que o oceano existiu – e que ele testemunhou dois megatsunamis extremamente poderosos.

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Esquerda: modelo digital do estudo de área mostrando as duas propostas de nível de costa do oceano de Marte que existiu a aproximadamente 3.4 bilhões de anos. Direita: Áreas cobertas pelos tsunamis a partir da costa. (Imagens: Alexis Rodriguez)

O pesquisador J. Alex P. Rodriguez do PSI, junto a colegas da Universidade de Cornell, recentemente conduziu uma análise detalhada da superfície da planície ao norte de Marte. Os cientistas descobriram traços de um antigo oceano – apesar de ele não estar exatamente onde eles esperavam encontrar.

A forma geológica das linhas litorâneas de Marte e suas áreas próximas indicam que dois grandes meteoritos – que atingiram o planeta com milhões de anos de diferença – geraram dois megatsunamis. As ondas resultantes, que atingiram a terra no planeta, redesenharam o cenário marciano, deixando características na superfície que podem ser vistas até hoje.

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Este lóbulo de material escuro pode conter os restos de um megatsunami marciano. (Imagem: A. Rodriguez)

O impacto dos dois meteoros criou crateras de cerca de 30 km de largura, e teriam gerado ondas de tsunami com até 120 metros de altura. Em comparação, o tsunami que atingiu o Japão em 2011 chegou a uma altura máxima de 29 metros.

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As setas brancas mostram o alcance do primeiro tsunami. (Imagem: Alexis Rodriguez)

O primeiro tsunami criou canais que fizeram a água voltar ao mar. Essas características podem ser vistas ainda hoje na forma de grandes depósitos sedimentares. O segundo impacto ocorreu alguns milhões de anos depois (um grande meteoro atinge Marte a cada três milhões de anos). Mas nesse estágio da história marciana, o clima já estava consideravelmente mais frio. A água estava virando gelo, e a costa original tinha recuado para o interior. O segundo megatsunami deixou evidências físicas diferentes, incluindo lóbulos arredondados de gelo.

“Esses lóbulos congelaram na terra conforme eles atingiram sua extensão máxima e o gelo nunca voltou ao oceano – o que significa que o oceano estava ao menos parcialmente congelado naquele tempo,” diz o coautor do estudo e cientista de Cornell Aberto Fairén. “Nosso artigo oferece evidências bastante sólidas da existência de oceanos congelados em Marte.”

Conforme a água do tsunami recuou e se transformou em gelo, os lóbulos mantiveram seus limites e formas relacionados ao fluxo. Isso sugere que a água era saturada com sal – o que, de uma perspectiva habitável, é uma ótima notícia. O sal mantém a água em estado líquido, e isso é importante para o surgimento de vida.

“Se existiu vida em Marte, esses lóbulos congelados são um bom lugar para buscar bioassinaturas,” explicou Fairén. “Essa composição salina pode ter permitido aos oceanos marcianos se manter em forma líquida por dezenas de milhões de anos.” E Rodriguez disse ao Gizmodo: “as implicações astrobiológicas são enormes”.

Para explorar mais essa ideia – e para ajudar futuras missões em Marte – os pesquisadores identificaram regiões que foram inundadas pelas águas do tsunami, particularmente áreas em que o sedimento deslocado aparece, e onde os depósitos salinos ou minerais foram deixados para trás após a evaporação da água. Esses são bons destinos para sondas futuras – ou até mesmo exploradores humanos – investigarem.

[Scientific Reports]

Imagem de topo: ESO/M. Kornmesser/N. Risinger