As ações do Facebook chegaram a cair 22% depois do escândalo envolvendo a Cambridge Analytica, e teve gente aproveitando para dar aquela cutucada na gigante de redes sociais (e coleta de dados). O CEO da Apple, Tim Cook, foi uma dessas pessoas, chegando a pedir a regulamentação do site. Agora, no entanto, foi a vez de Mark Zuckerberg contra-atacar.

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Perguntado sobre o que faria se estivesse no lugar de Zuckerberg, Cook afirmou que “não estaria nessa situação”, argumentando que a Apple vende produtos às pessoas, e não usuários aos anunciantes. Perguntado pelo Vox sobre as declarações, o CEO do Facebook rebateu:

“Sabe, acho esse argumento, de que, se você não está pagando, de alguma forma não nos importamos com você, extremamente simplista. E nem um pouco alinhado com a verdade. A realidade aqui é que, se você quer construir um serviço que ajuda a conectar todas as pessoas no mundo, então haverá muita gente que não pode pagar. E, portanto, assim como muitas mídias, ter um modelo apoiado por publicidade é o único modelo racional que pode apoiar a construção desse serviço para alcançar pessoas.

Isso não significa que não estamos principalmente focados em servir às pessoas. Acho que, provavelmente para a insatisfação de nossa equipe de vendas aqui, tomo todas nossas decisões baseado no que vai importar para nossa comunidade e foco muito menos no lado publicitário do negócio.”

Independentemente das informações e revelações que saem na imprensa, Zuckerberg parece determinado em manter essa narrativa de grande foco na comunidade, que recentemente tomou a forma de prioridade às interações com amigos. A defesa de Zuckerberg prosseguiu, tornando-se depois um ataque nem tão sutil à Apple e aos seus preços altos praticados:

“Mas se você quer construir um serviço que não serve somente às pessoas ricas, então precisa ter algo que as pessoas possam bancar. Achei que Jeff Bezos disse algo excelente sobre isso em um de seus lançamentos de Kindle há alguns anos. Ele disse: ‘Existem empresas que trabalham duro para te cobrar mais, e existem empresas que trabalham duro para te cobrar menos’. E, no Facebook, estamos no campo das empresas que trabalham duro para te cobrar menos e fornecer um serviço gratuito que todos possam usar.”

Ignorando o fato de que o Facebook segue lucrando muito com seu modelo, mais até do que a Apple (o Facebook teve lucro operacional de mais de 50% no ano fiscal de 2017, contra 27% da Apple, como apontado pela jornalista Shira Ovide, da Bloomberg), Zuckerberg reforçou que não acha que isso signifique que eles não se importam com as pessoas.

“Pelo contrário, acho que é importante que não tenhamos síndrome de Estocolmo e que não deixemos empresas que trabalham duro para te cobrar mais te convencerem de que elas na verdade se importam mais com você. Porque isso soa ridículo para mim”, afirmou o CEO do Facebook.

A verdade é que, cada qual do seu jeito, Apple e Facebook estão preocupadas em lucrar o máximo possível, o que não deveria ser surpresa alguma para ninguém. A resposta de Zuckerberg, apesar de inteligente na maneira como tenta moldar a narrativa, não trata com a atenção devida a ideia principal da fala de Cook: a necessidade de regulamentação desses serviços.

Sim, em entrevista à CNN pouco após a revelação do escândalo da Cambridge Analytica, Zuckerberg até reconheceu que isso talvez precise ser discutido, mas com um tom de quem se resigna em uma situação sem saída.

[Vox]

Imagem do topo: Getty