Isto é chamado “Estrela da Humanidade” e foi feita para nos lembrar de nossa insignificância no universo. Um pouco mais brilhante que outros pedaços de metal que já colocamos no espaço e com uma vida útil de 6 meses, esta bola de discoteca gigante é mais um truque de relações públicas — o que está deixando alguns astrônomos bem bravos.

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No último domingo (21), a Rocket Lab, uma empresa baseada na Califórnia, lançou o segundo estágio de seu foguete Electron de uma plataforma de lançamento na península Mahia, na Nova Zelândia. Além de enviar três satélites pequenos, o foguete — com o nome Still Testing (ainda testando, em tradução livre) — deixou a “Estrela da Humanidade” no espaço, o projeto de estimação do CEO da companhia, Peter Beck.

Entendendo a “Estrela da Humanidade”

Medindo quase um metro de largura, a esfera de fibra de carbono geodésico é equipada com 65 painéis reflexivos. Ela deve rodar tão rápido e refletir o Sol de tal modo que consigamos vê-la da superfície da Terra durante a noite. Vai ser brilhante, mas não super brilhante, exibindo uma luminosidade um pouco maior que algumas estrelas e outros satélites artificiais. A bola gigante vai percorrer o globo a cada 90 minutos, viajando cerca de 9.180 metros por segundo, ou 27 vezes a velocidade do som.

Peter Beck, da Rocket Lab, ao lado da “estrela” (Imagem: Rocket Lab)

Beck espera que a estrela seja o objeto mais brilhante do céu durante a noite — um lembrete perpétuo de que vivemos em um pedaço de pedra de um universo gigante. O CEO da empresa odeia a comparação com uma bola de discoteca, dizendo que a sua estrela representa algo maior — um tipo de “ponto focal” para a humanidade pensar sobre problemas maiores, como mudança climática e redução de recursos naturais.

Os astrônomos não curtiram

Ainda que Beck, da Rocket Lab, tenha supostas boas intenções, o fato é que o astrônomos não gostaram da iniciativa. Para alguns deles, em entrevista ao Guardian, a tal “Estrela da Humanidade” vai atrasar bastante o trabalho deles.

“Wow, graffiti espacial intencional com luz brilhante de longo termo. Muito obrigado, @RocketLab”, tuitou o astrônomo Mike Brown, do Cal (California Institute of Technology). Outra opinião crítica à “estrela” foi de Caleb Schwarf, diretor de astrobiologia da Universidade de Columbia. “Uma outra invasão em meu universo pessoal, um outro item brilhante pedindo por atenção”, disse em entrevista para a Scientific American.

Ainda que haja preocupação na comunidade científica, segundo especialistas os efeitos da “Estrela da Humanidade” não devem ser grande motivo de preocupação.

“Entendo a preocupação de muitos astrônomos, especialmente os que trabalham com observação óptica”, disse Abel Méndez, astrobiologista planetário e fellow da NASA na Universidade de Puerto Rico. “Há sempre a probabilidade de um satélite confundir ou ofuscar uma observação astronômica. Isso é exatamente o que pode acontecer com objetos brilhantes como a ‘Estrela da Humanidade’. Ainda bem que ela se move rapidamente, não atrapalhando tanto o campo de visão.”

Jonathan McDowell, um astrofísico no Centro Harvard-Smithsonian para Astrofísica e especialista em satélites artificiais, disse ao Gizmodo que a preocupação faz algum sentido, mas que a bola em si não deve causar muitos problemas.

“O que é particularmente chato sobre este satélite é que ele foi feito para ser visualmente brilhante e não tem nenhum outro propósito. É o equivalente no espaço a alguém colocar uma propaganda de neon do lado da janela de seu quarto”, disse o especialista.

Planos futuros

Ainda que ela percorra grande parte do planeta, poucas pessoas terão sorte de vê-la. A poluição visual é um problema sério em alguns lugares, além disso a grande bola de discoteca vai ser melhor visível de algumas regiões. Por exemplo, nas próximas seis semanas será melhor vista da Nova Zelândia e na Austrália. Em março é a vez da América do Norte. É possível ver o progresso da “Estrela da Humanidade” numa página da Rocket Lab.

Mapa com o trajeto da “Estrela da Humanidade” (Imagem por Humanity Star/Rocket Lab/Google)

Beck espera lançar mais “Estrelas da Humanidade” no futuro, mas ele está aguardando para ver qual será a resposta do público a esta que eles soltaram recentemente. Com toda a certeza, ele também deve avaliar o quanto que este artifício de relações públicas vai beneficiar sua empresa de foguetes. Além desse lançamento, a Rocket Lab disse que está próxima de lançar satélites comerciais. Quer forma melhor de divulgar sua empresa que jogando uma bola gigante brilhante no espaço.

[Washington PostBBC e Guardian]