Neste mês, em Oslo, na Noruega, um estudante de arquitetura chamado Martin McSherry apresentou uma ideia controversa para um grupo de profissionais de cemitérios e funerárias. O que foi? Seu design para um “cemitério vertical” que, na teoria, resolveria o crescente dilema de cemitérios na Noruega.

Na visão de McSherry para Oslo – apresentada durante a Conferência para Cemitérios Nórdicos em Oslo – os mortos descansariam em um edifício alto localizado no centro da cidade. Começaria como uma simples armação branca com um guindaste adjacente permanente para levantar os caixões e posicioná-los em entradas na estrutura. A torre cresceria ao longo dos anos, conforme o guindaste acrescentasse mais e mais caixões à rede – ao longo do tempo, o edifício passaria a representar a soma dos cidadãos da cidade, um lembrete e um memorial ao mesmo tempo.

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“Com o tempo, o maior prédio da cidade se tornará o túmulo dos seus cidadãos – um monumento em constante mudança”, continuou McSherry. A terra preciosa economizada no chão poderia ser usada para parques e prédios residenciais. A ideia encontrou alguma resistência – mas também recebeu um forte apoio.

Mas por que a ideia de um cemitério em um arranha-céu incomoda tanta gente?

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Em primeiro lugar, é bom entender um pouco sobre a situação da Noruega. Como muitos outros países com limitações de terra, a Noruega pratica a reciclagem de túmulos. Os cidadãos ficam duas décadas no mesmo lugar antes do túmulo ser reusado para outros corpos (uma família pode pagar para usar o espaço por mais tempo, se assim desejar). É uma solução prática e que funcionou muito bem até a Segunda Guerra mundial.

Foi aí que a legislação norueguesa passou a exigir que os corpos fossem enterrados dentro de invólucros de plástico apertados – a ideia era que isso evitasse a contaminação do solo e da fonte de água. Mas quando a primeira leva de túmulos foi retirada para reutilização, os corpos ainda não haviam decompostos completamente – graças à proteção de plástico. Como resultado, o país rapidamente passou a sofrer de falta de espaços para enterrar seus cidadãos.

Surgiu até uma pequena indústria a partir dessa questão: um funcionário do cemitério pode injetar um composto de calcário no caixão para acelerar o processo de decomposição por US$ 670 por lote. Pode parecer caro – mas já foi usado por 17 mil deles.

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Injetores de cal da Kjell Larsen Otsbye, via Rehabilitation of Grave Sites (PDF).

A Noruega não está sozinha nessa história. Quando a geração dos Baby Boomers chegar à terceira idade, muitos países enfrentarão crises parecidas. A BBC diz que a Inglaterra está perto de ficar sem espaço para túmulos, enquanto alguns pesquisadores calculam que é necessário um pedaço de terra do tamanho de Las Vegas para enterrar as 76 milhões de pessoas que devem morrer entre 2024 e 2042. Um editorial de outubro do The New York Times assinado por Christopher Coutts defendeu a adoção de “enterro natural embalsamado que permite a reutilização de lotes de cemitérios após a decomposição” nos Estados Unidos.

Mas não é tão simples assim. Morte e enterro – em quase qualquer lugar do mundo – é uma tradição com forte significado, e “revolucionar” esses rituais de passagem é complicado. Acima de tudo, a ideia é manter a dignidade da pessoa morta. E, para alguns, conceitos como torres de cemitérios não fazem nada para ajudar. “Por favor, não me enterre em um arranha-céu”, pediu Memphis Barker, do The Independent, adicionando que “a poesia por trás disso não está nem um pouco certa“:

Não há nada elegíaco em um arranha-céu: eles são ambiciosos e agitados. Muitos de nós passamos a vida inteira indo de prédio alto para prédio alto; sem querer parecer muito Alain de Botton, uma mudança de cenário é sem dúvida um dos aspectos mais atraentes dessa mudança de estado.

Pessoalmente, discordo que arranha-céus não podem ser elegíacos (basta olhar para Louis Sullivan). Na verdade, designers de cemitérios já estão adotando projetos verticais – em Israel e aqui mesmo no Brasil, por exemplo. E se olharmos para trás na história cultural dos enterros, lembraremos que cemitérios verticais não são novidade.

No Egito há o Gebel al Mawta, ou a Montanha da Morte, um cemitério dos tempos romanos que se destaca no cenário do Oásis de Siuá:

Travel Trip Egyptian Safari

 Imagem: AP/Kim Gamel.

Muitos países europeus por muito tempo empilharam túmulos para formar uma necrópole alta, como este na Itália:

ITALY ALL SOULS DAY

Imagem: AP Photo/Alessandra Tarantino.

Em Nova Orleans, nos Estados Unidos, por muito tempo os túmulos também foram por muito tempo empilhados – uma forma de evitar que mortos aparecessem na cidade de baixa altitude durante inundações e tempestades.

New Orleans

Aqui no Brasil, na cidade de Santos, temos o Memorial Necrópole Ecumênica, que empilha os mortos da cidade nos seus 32 andares há 28 anos. Temos aqui o cemitério mais alto do mundo.

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Mas acredito que o desgosto por cemitérios verticais tem motivos culturais: pensamos em arranha-céus como fazendas de formigas da nossa civilização, cheios de dinheiro, vida e trabalho em geral. Mas pensando em uma escala histórica, é difícil imaginar um futuro onde a verticalização não continue – e não vá para os cemitérios.

O futuro é alto. Isso significa que vamos continuar construindo prédios altos não apenas para morar ou trabalhar, mas também para colocar academias, hospitais, centros comunitários, parques e até mesmo cemitérios.