Não há dúvidas de que a tecnologia causou transformações profundas no campo da arqueologia. Novas ferramentas abriram as portas para inúmeras descobertas ao levarem os arqueólogos a lugares onde eles jamais estiveram antes. Além disso, a tecnologia lançou uma luz sobre algumas interpretações, digamos, mais criativas dos artefatos arqueológicos.

Mas essas tais “interpretações criativas” têm um nome: teorias da conspiração. E não são poucas as pessoas que as espalham por aí. Como as ferramentas corretas nem sempre estiveram à disposição dos exploradores e cientistas, equívocos e até mesmo maluquices são uma ocorrência comum na história da arqueologia e não é raro que a datação errada de um artefato ou sítio arqueológico sejam o suficiente para que surja a crença em civilizações que nunca existiram. É aqui que entra a procura por Atlântida, a busca do Santo Graal e as histórias de que os povos antigos foram visitados por alienígenas. Para uma pessoa sã, muitas dessas teorias conspiratórias parecem absurdas. O problema é que nem todo mundo é são.

Mas como é bela a tecnologia, não? Usando desde coisas simples como a datação de carbono até métodos sofisticados de escavação, a boa e velha ciência tem feito maravilhas quando se trata de interpretações mais acuradas das evidências arqueológicas. Para ilustrar esse ponto, escolhemos algumas das nossas teorias da conspiração favoritas. Algumas delas são meio bobas e nenhuma é verdadeira, e é exatamente por isso que é tão divertido conhecê-las.

A Estrada de Bimini

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No Triângulo das Bermudas, não muito longe da costa norte das Ilhas de Bimini, nas Bahamas, há uma formação subterrânea estranhamente plana. Ela é feita de blocos de pedra quadrados, encaixados numa linha reta perfeita. Se você não sabe de nada, pode jurar que se trata de uma estrada construída milhares de anos atrás por uma civilização de engenheiros de trânsito super sofisticados. O único problema é que não existia uma civilização nas Bahamas milhares de anos atrás. Ao menos não uma que seja conhecida.

E é aqui que as teorias da conspiração sobre a Atlântida entram no jogo. Por décadas acreditou-se que a Estrada de Bimini era nada menos que um pedaço de Atlântida, uma estrutura remanescente da cidade-estado que teria submergido. Alguns acreditam que gigantescos cristais de poder estão enterrados por ali, guiando Óvnis para a Terra e confundindo os instrumentos de navegação de barcos e aviões – o Efeito Triângulo das Bermudas.

Mas os geólogos não tinham tanta certeza dessa história. Nos anos seguintes à descoberta, muitos cientistas trabalharam na datação por radiocarbono das pedras da Estrada de Bimini. Um estudo publicado na revista Nature usou a datação por carbono-14 para mostrar que as pedras tinham entre 2.000 e 4.000 anos de idade e eram, portanto, recentes demais para serem parte de uma cidade que Platão, no século 4 A.C., dizia ter pelo menos 7.000 anos.

Com isso em mente, os geólogos concluíram que a “estrada” era um tipo de rocha calcária que se forma no mar e é chamado de beachrock. O calcário, segundo eles, sofreu rachaduras que têm padrões geométricos, o que cria a ilusão de que são várias pedras que foram meticulosamente colocadas juntas. Esse certamente é um fenômeno muito raro, mas dificilmente se trata de algo místico. No entanto, com o famoso Triângulo das Bermudas por ali e um bocado de ceticismo para com a ciência, muita gente vai continuar acreditando que o lugar é, de fato, um restinho de Atlântida. Bom, não é.

A Arca de Noé

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O começo da história você já conhece: de acordo com a Bíblia, Noé construiu uma arca para salvar a família e todos os animais do Dilúvio. De acordo com alguns fanáticos religiosos, a arca está perto do cume do Monte Ararat, na Turquia. Esse palpite seria curioso se a própria Bíblia não dissesse que a arca veio a descansar “sobre as montanhas de Ararat”.

Desde o século passado, várias expedições escalaram a montanha em busca da arca. As mais recentes foram em 2007 e 2008, quando um grupo de religiosos de origem chinesa e turca alegaram ter encontrado na montanha vários compartimentos de madeira que, segundo eles, seriam os restos da arca. Eles também disseram que a madeira havia sido submetida a uma datação por carbono e teria cerca de 4.800 anos da idade, o que coincidiria com a época em que a arca de Noé supostamente zarpou. No entanto, nenhuma dessas alegações foram confirmadas por cientistas.

Nesse caso, usar a tecnologia para provar as descobertas foi um tiro que saiu pela culatra dos teóricos da conspiração. De acordo com um professor da faculdade William Jennings Bryan, no Tennessee, a datação de radiocarbono na verdade prova que a madeira é jovem demais, já que a arca teria sido construída de árvores que cresceram antes do Dilúvio. E no final das contas, ele disse, as erupções do Monte Ararat, que é um vulcão, já teriam queimado a arca. Isso se nós resolvermos acreditar que os exploradores religiosos não tenham inventado a coisa toda, o que provavelmente aconteceu.

E esse é só um exemplo de como a ciência e a tecnologia desmentiram a história da arca. Existem várias outras análises que acabam com o mito da arca de Noé.

A Ilha de Oak

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Você quase deseja que esta teoria da conspiração seja verdadeira. Tem piratas, um tesouro escondido e rumores de envolvimento da Maçonaria. Tem também um buraco sem fundo conhecido como o Poço do Dinheiro. O que mais você poderia querer?

Para resumir a história: na ilha de Oak, perto da costa da Nova Escócia, um adolescente encontrou uma depressão circular numa clareira e começou a cavar para ver o que havia ali. E o que ele encontrou era bizarro: de acordo com a lenda, havia lajes sob a terra e vigas de sustentação a cada dez metros. Ao longo do caminho, havia também marcas na parede e algo que se parecia com camadas de massa de vidraceiro, além de carvão e fibras de coco. E isso já seria estranho o suficiente, já que não existem coqueiros na Nova Escócia.

Era um tesouro pirata? Uma câmara maçônica secreta? Uma mina abandonada? Pelos dois séculos seguintes, incontáveis grupos tentaram escavar o poço, mas sempre que eles chegavam a uma certa profundidade, tudo se enchia de água e era impossível continuar cavando. Em 1971, a tecnologia entrou no caso. Uma equipe chamada Triton Alliance levou câmeras para o poço e teria capturado imagens de arcas, ferramentas e restos mortais humanos. Essas fotos foram posteriormente consideradas inconclusivas.

E é aqui que a ciência vem a calhar: em meados da década de 1990, uma equipe de Boston conduziu um estudo científico no local e, com testes de marcação com corante, finalmente o mistério do poço que se enchia sozinho foi esclarecido. Antes, os exploradores acreditavam que quem tivesse construído o poço havia inundado os túneis para evitar que saqueadores chegassem ao fundo, mas os testes com corantes mostraram que se tratava simplesmente do fluxo natural do oceano vazando através do calcário. Essa descoberta, somada a outras evidências científicas, finalizou o assunto: o poço era só um sumidouro.

A Antártida da Hitler

Existem mais teorias da conspiração sobre nazismo do que nós poderíamos contar, mas umas são mais extraordinárias do que as outras. Algumas são simplesmente ridículas. Veja as histórias que falam de uma suposta atividade de Hitler na Antártida. De acordo com alguns relatos, Hitler enviou um time de tropas de elite para a Antártida no final da década de 1930 e eles logo encontraram uma série de túneis e cavernas onde teria sido construída uma base do tamanho de uma cidadezinha. (Imagine a fortaleza de gelo de Hitler como o esconderijo secreto do mal supremo). Em algum momento, eles também descobriram a tecnologia que uma raça alienígena superior havia deixado para trás: tecnologia essa que os nazistas deveriam usar para vencer a guerra.

De alguma forma, os nazistas teriam aproveitado esse abrigo na Antártida para se esconderem depois que a guerra foi vencida (há rumores muito loucos de que Hitler realmente escapou para a Antártida em vez de cometer suicídio, mas essa é outra lenda que vai ficar pra outra dia). De qualquer forma, os arqueólogos não conseguiriam encontrar a base, porque, segundo os teóricos da conspiração, os norte-americanos a teriam varrido do mapa usando armas nucleares. Na verdade, essa é quase o oposto das teorias da conspiração arqueológicas, já que a maior prova da existência da base seria a ausência de qualquer vestígio dela.

Mas isso não aconteceu de verdade. Uma equipe alemã realmente fez uma expedição para a Antártida no final dos anos 1930, mas eles não foram para lá para construir uma base secreta do tamanho de uma cidade. Na verdade, eles estavam só tentando descobrir maneiras de expandir a indústria baleeira alemã. E eles também não encontraram tecnologia alienígena super sofisticada. Como muitas outras teorias da conspiração, isso aí é só conversa de maluco.