Foi no verão de 2009. A Microsoft tinha acabado de enviar o código final do Windows 7 para as fabricantes de PC e estas por sua vez, começaram a gravá-lo em dezenas de milhões de novos computadores que iriam ser enviados para as lojas naquele natal.

Esse deve ter sido um momento triunfante para Steven Sinofsky.

Em apenas três anos cuidando do Windows, Sinofsky e sua equipe conseguiram eliminar os piores defeitos do Windows Vista e adicionar algumas novas funções e uma camadinha de tinta e – o mais importante – enviar a tempo, antes do natal.

O branding era revigorante e simples, um retorno ao começo da Microsoft: Windows 7. Os primeiros reviews eram ótimos. Os fabricantes de PC estavam cautelosamente otimistas sobre uma boa temporada de fim de ano depois do desastre de 2008. Os clientes de grandes negócios, que em sua maioria haviam ignorado o Vista e permanecido no XP, estava começando a falar sobre fazer upgrade.

Melhor de tudo, Steve Ballmer havia acabado de promover Sinofsky a Presidente – um título que o próprio Ballmer ostentou três anos antes de se tornar CEO. Mas ele já estava planejando os próximos passos da Microsoft.

Alguns meses depois*, um ex-executivo da Microsoft nos contou, Sinofsky estava em pé em frente à equipe do Windows no Seattle Convention Center, lendo um comunicado de imprensa do futuro.

Ele sabia que o Windows estava sob uma séria ameaça. O iPhone havia começado uma revolução de smartphones que estava tornando o PC menos relevante e a Apple havia anunciado um novo computador tipo tablet chamado de iPad – uma ideia que a Microsoft estava considerando há quase uma década.

Mas este tablet da Apple não seria como um Mac. Seria como um iPhone – bateria de longa duração, tela de toque grande, e milhares de apps que eram tão fáceis de instalar que uma criança de cinco anos conseguiria fazer.

O comunicado de imprensa de Sinofsky descreveu uma versão completamente repensada do Windows que iria tornar o PC mais acessível, mais fácil de usar e mais divertido. “Radicalmente humano”, ele disse.

Esta semana a Microsoft lançou o primeiro consumer preview do Windows 8, dando a todos uma chance de ver como ele é e como funciona. Baseado em demonstrações prévias, ele será exatamente o que foi prometido – uma versão completamente diferente e muito mais acessível do Windows. E ele será lançado bem a tempo, ainda este ano.

Mas não é surpresa – Steven Sinofsky é conhecido por cumprir exatamente o que ele promete, e sempre no prazo. Ele é uma figura extremamente polarizadora. Teimoso. Sigiloso. Ditatorial.

Várias pessoas com quem conversamos para este artigo alegam que a personalidade e influência de Sinofsky os levaram a deixar a empresa. Outro ex-funcionário o chamou de “câncer”. Outros usaram palavras muito mais grosseiras que essas. Mas mesmo os seus maiores detratores admitem que ele é brilhante quando se trata de enviar software complicado, de alta qualidade em uma agenda regular e previsível. Isso fez com que ele ganhasse a confiança e o respeito de Bill Gates e Steve Ballmer.

Então ame-o ou odeie-o, a maioria das pessoas que conhecem a Microsoft concordam.

A menos que o Windows 8 seja um fiasco, Steven Sinofsky será o próximo CEO da empresa.

*Nota: Há algumas controvérsias na Microsoft sobre os detalhes dessa história, e alguns dizem que não houve nenhuma reunião para discutir o futuro do Windows no verão de 2009. Entretanto, a Microsoft admite que aconteceu uma reunião na primavera de 2010.

A conquista de Sinofsky

A conquista já começou.

Alguns dizem que começou em 2009 em um retiro para os executivos da Microsoft, onde Steven Sinofsky fez uma apresentação sobre como ele iria comandar o grupo do Windows.

Steve Ballmer frequentemente falava para os outros líderes que eles precisavam se “alinhar” com a equipe do Windows, já que o Windows ainda era o produto que guiava boa parte do negócio da Microsoft. Muitos deles estavam confusos sobre o que isso significava, especialmente já que Sinofsky assumiu o desenvolvimento do Windows em 2006.

Então, Sinofsky contou a eles como ele faz as coisas.

Planejar primeiro, e então construir. Eliminar boa parte da gerência intermediária. Entregar exatamente o que você prometer, no prazo exato.

“Eu sei que isso não foi bem recebido por muitos,” um ex-executivo da Microsoft nos conta, “porque as pessoas estavam muito mais acostumadas à abordagem menos estruturada que… outros líderes chave do Windows haviam trabalhado nas duas décadas anteriores.”

Os métodos de Sinofsky desde então se tornaram padrão por toda a empresa. Isto é verdade até mesmo para produtos que ele nunca trabalhou, como o software de busca e banco de dados do Bing.

Não estava claro se estes métodos foram impostos por ordem superiores ou adotados voluntariamente. Mas muitas pessoas disseram que Sinofsky está próximo de Bill Gates e Steve Ballmer, e seus métodos comprovadamente funcionaram para o Windows e o Office, os dois maiores produtos da Microsoft.

Então é fácil ver como outros executivos podem se sentir compelidos a seguir os métodos de Sinofsky, mesmo sem uma ordem superior direta.

Eventualmente, alguém resolveu falar: Um ex-gerente da parte online nos contou que exigiam que ele lesse e entendesse as postagens do blog interno de Sinofsky, e que esperavam que sua equipe fizesse as coisas do jeito Sinofsky.

Vários ex-funcionários da Microsoft alegam que a influência crescente de Sinofsky é a grande razão para que vários executivos e engenheiros sênior saíssem da empresa nos últimos três anos – não porque Steve Ballmer os demitiu por baixo desempenho e não porque eles discordaram sobre detalhes de estratégia.

Um deles disse que engenheiros veem códigos como arte e ciência. E muitos deles ficaram irritados por ter outra pessoa ditando a arte deles.

Windows Phone é o Próximo

Mais recentemente, a influência de Sinofsky se estendeu à plataforma mobile da Microsoft: Windows Phone.

Até 2010, o software de telefonia móvel da Microsoft era parte do grupo de Entretenimento & Dispositivos, assim como o Xbox e o Zune. Ele era considerado um produto do consumidor, e rodava em uma tecnologia secreta diferente do Windows.

Cerca de um ano atrás, a Microsoft decidiu alinhar os dois grupos.

Um ex-executivo disse que essa decisão foi compartilhada com o líder dos dispositivos móveis Andy Lees, que deixou claro que não concordava. A Microsoft decidiu deixar Lees encarregado de completar uma atualização crítica de software (“Mango”), selar a parceria com a Nokia, e então substituí-lo por Terry Myerson, que é um protegido de Sinofsky e tem liderado o desenvolvimento do Windows Phone desde 2009. Essa mudança aconteceu em dezembro.

Esta história tem controvérsias. Duas pessoas que deixaram a equipe do Windows Phone dizem que eles não viram sinais de que Sinofsky estava no cargo. Oficialmente, Myerson é subordinado a Ballmer, não a Sinofsky. (A Microsoft não quis comentar).

Mas outra pessoa que deixou a Microsoft ano passado disse que ele tinha ouvido em 2010 que Sinofsky iria eventualmente controlar o Windows Phone. Esta pessoa especula que a Microsoft irá esperar para fazer isso até depois do Windows 8 para evitar distrair a equipe do Windows – e porque muitos engenheiros da equipe do Windows Phone saíram do Windows alguns anos atrás em grande parte para escapar de Sinofsky.

Claro, depois que nós falamos com essas fontes, vazaram notícias de que a próxima versão do Windows Phone seria baseada no mesmo kernel e tecnologia de base do Windows 8, e iria sair por volta da mesma época.

Sinofsky pode não acabar controlando formalmente o Windows Phone, o que significaria que ele não iria controlar os funcionários ou verba. Mas o Windows Phone já está usando seus métodos de desenvolvimento, e em breve estará usando a tecnologia base que ele controla.

Um ex-funcionário do Windows Phone nos contou, “Como Ballmer gosta de dizer, ‘Windows é o ar que respiramos’. É difícil evitar contato com a equipe do Windows… E isso tem sido o caso desde que Sinofsky se tornou presidente”.

Como ele chegou a esse cargo?

A ascensão ao poder de Sinofsky começou com ele ganhando a confiança de Bill Gates.

Sinofsky nasceu em Nova Iorque e passou boa parte de sua infância em Orlando, Flórida. Ele se graduou na Universidade de Cornell com honras e então pegou seu mestrado em ciências da computação na Universidade de Massachusetts, Amherst em 1989.

E então ele foi direto trabalhar na Microsoft.

Quando chegou lá, ele imediatamente se sentiu em casa. Como ele mesmo descreve em uma postagem do blog em 2005:

“Foi incrivelmente bacana quando eu apareci na Microsoft – eu tinha 23 anos e estava pronto para trabalhar. Eu não tinha amigos em Seattle. Minha família estava a 5000 km de distância. Eu vivia em um apartamento e podia ir andando para a Microsoft e eles tinham uma piscina onde pessoas bonitas costumavam se encontrar. Eu tinha uma verba disponível pela primeira vez na vida. Eu estava pronto para ser um daqueles caras bacanas de Melrose Place, exceto que eu rapidamente descobri que o trabalho na Microsoft era muito mais legal do que sentar na beira da piscina… Era o nosso próprio Melrose Place, mas com códigos C++ ao invés de uma agência de propaganda. E tinha a COMDEX ao invés da Venice Beach.”

Poucos anos depois de ter começado, Sinofsky teve uma grande chance quando Bill Gates o escolheu para ser um de seus assistentes técnicos. Ali, os dois formaram um laço de confiança que persiste até hoje.

Em 1994, em uma visita à Cornell, Sinofsky ficou preso na universidade durante uma tempestade de neve. Enquanto ele estava lá, ele viu que a Cornell estava aproveitando a internet com e-mail para estudantes e relação online de cursos.

Ele mandou um e-mail para Gates com o título “A Cornell está CABEADA!” enfatizando quão importante a internet estava se tornando.

O e-mail de Sinofsky desencadeou uma série de eventos que eventualmente levou Bill Gates a escrever seu famoso memorando “A Grande Onda da Internet” em 1995. Este memorando fez com que o grupo de produtos da Microsoft começasse a colocar conexão de internet em todos os produtos e preparasse o caminho para que o Internet Explorer fosse inserido no Windows, dando início à revolução da internet para os consumidores. (Isso também desencadeou o processo antitruste que iria perturbar a Microsoft por quase 10 anos no final da década de 90).

Posteriormente, quando Sinofsky assumiu o grupo do Office, sua habilidade de lançar produtos no prazo o tornou indispensável.

Um ex-funcionário da Microsoft lembrou-se de uma época na qual Sinofsky estava sendo particularmente teimoso sobre o que Gates queria que o grupo do Office fizesse. Gates levantou a possibilidade de substituí-lo.

Este ex-funcionário, que ouviu a conversa, diz, “O problema é que o Office era tão importante do ponto de vista de lucros, e Steven era tão importante para que o Office trouxesse aquele lucro, que eles não podiam demiti-lo.”

Eventualmente, Gates chegou a essa conclusão. Sinofsky agora é quase intocável, e ocasionalmente usou esse status para conseguir as coisas do seu jeito.

Um outro ex-funcionário nos contou que Sinofsky uma vez ameaçou sair quando não lhe foi dada uma tarefa que ele desejava. Gates disse que ele não conseguia imaginar uma Microsoft sem Steven. Como consolação, a liderança da Microsoft na época deixou alguns outros produtos sob o controle de Sinofsky.

Steve Ballmer também confia em Sinofsky porque ele demonstrou uma habilidade de entregar atualizações para seus produtos em uma agenda bem apertada de três anos.

Eis aqui porque ele importa tanto.

O negócio da Microsoft depende de grandes empresas comprando contratos de licença em longo prazo – pelo menos US$20 bilhões dos mais de US$70 bilhões anuais da Microsoft vêm desses contratos. Estes acordos tendem a funcionar em um ciclo de três anos, e incluem o direito de fazer atualização para uma nova versão dos produtos que saem durante esse prazo.

Se a Microsoft falha em entregar uma nova versão do produto dentro de três anos, como aconteceu com o Windows Vista e como aconteceu com outros produtos, como SQL Server – os clientes se perguntam “porque nós compramos um contrato de licença?” Isso torna vender renovações de contrato e atualizações muito mais difíceis da próxima vez.

Isto é o básico para Ballmer. Dizem que ele sabe e entende quase todos os aspectos das regas de licenciamento da Microsoft, e exatamente como as mudanças irão afetar os lucros em qualquer grupo de produtos.

A maioria dos executivos da Microsoft está ou no time do Bill Gates ou no de Steve Ballmer. Sinofsky está nos dois.

Como seria a Microsoft sob a liderança de Sinofsky?

Mesmo os seus maiores detratores admitem que Sinofsky tem habilidades notórias quando se trata de entregar projetos de software de alta qualidade, em escala massiva no prazo. Um crítico o chamou de “gênio”. Outro admitiu que ele é “brilhante”. Brad Silverberg, que liderou o grupo do Windows em parte dos anos 90 antes de sair para começar a empresa de capital de risco Ignition Partners, é um deles.

“Ele é um cara brilhante quando se trata de liderar um processo e enviar em uma agenda frequente. Ele fez um ótimo trabalho ao vir para o Windows, limpando aquela bagunça que foi o Vista, e transformando isso no Windows 7, que tem sido um grande sucesso.”

Outro ex-executivo diz que Sinofsky é exatamente o que a Microsoft precisa.

“Steven planejou uma estratégia para voltar a excelência. Ponto. Isso deixa as pessoas desconfortáveis, mas eu acredito que os resultados falam por si mesmos. A maioria das pessoas não consegue imaginar a escala e a complexidade daquele projeto [Windows]. É como construir as malditas pirâmides. É o equivalente digital a uma das maravilhas do mundo.”

Então, o que é exatamente esse jeito Sinofsky? Eis aqui algumas características importantes:

Qualidade e previsibilidade acima de funções. Sinofsky valoriza lançamentos de qualidade e timing acima de adicionar funções. Se uma função está demorando muito para ficar pronta, Sinofsky irá cortá-la – mesmo que seja uma função que os consumidores exigiram e que os competidores já possuem.

Como o timing é tão importante, Sinofsky não tem nenhuma tolerância para subordinados que prometem demais e cumprem de menos. Ou, até mesmo, o oposto – se você entrega mais do que você disse que iria entregar, ele irá assumir que você estava jogando suas expectativas para baixo para parecer melhor do que é, e irá pedir para você ser mais preciso da próxima vez.

Previsibilidade é tudo.

Orientação por dados. Uma pessoa que fazia parte do Microsoft Research nos contou que Sinofsky odeia os pequenos grupos de discussão que outros líderes de produto da Microsoft usam para projetar produtos.

“Ele é o campeão de projetos de dados em larga escala”, diz uma pessoa. “Isto é um lugar comum na Web, onde tudo fica no lado do servidor e você pode rastrear tudo através dela, mas em softwares fechados é na verdade bem pouco ortodoxo”.

Isso pode ser visto na paixão de Sinofsky por Watson, uma tecnologia da Microsoft que rastreia os erros que os usuários estão vendo, e então permite que os usuários relatem esses erros de volta para a Microsoft.

No seu livro “One Strategy”, Sinofsky chama Watson de “simplesmente a maior inovação em ciências da computação nos últimos 10 anos. Eu não digo isso levianamente e eu realmente quis dizer ciências da computação”.

A “tríade”. Esta é provavelmente a maior mudança, e aquela que causou o maior conflito.

Na Microsoft, desenvolvimento de software é organizado em três funções: desenvolvedores que escrevem o código, testers que fazem os testes e gerentes de programa que determinam especificações.

Anteriormente, funcionários nessas três funções se reportavam aos “líderes de funções”. Estes líderes de funções coordenavam todas as funções para que elas fossem finalizadas ao mesmo tempo e funcionassem corretamente em conjunto. Eles se reportavam a um líder de produto, que por sua vez se reportava a um líder de um grupo de produtos, e assim seguia.

Sob o comando de Sinofsky, a maioria desses gerentes intermediários sumiram. Basicamente, desenvolvedores, testers e gerentes de programas reportam direto ao líder sênior do produto, ou em alguns casos ao líder sênior de todo o grupo de produtos – como Sinofsky.

Sinofsky foi bem claro a respeito de não gostar de muitas gerências intermediárias. Como ele coloca em uma postagem do blog em 2005: “Nós construímos o SharePoint do zero dentro do nosso time, e fizemos isso sem gerentes intermediários aparecendo e tentando complicar as coisas”.

Isso pode parecer ótimo vendo de fora – a burocracia exagerada da Microsoft era um dos motivos pelo qual a empresa ficou tão lenta.

Mas isso eliminou oportunidades para avançar na carreira e deu mais poder aos executivos que já estavam em cargos mais elevados. Isso levou muitas pessoas experientes a saírem da empresa.

Como um ex-engenheiro explica, em uma organização ao estilo Sinofsky, não há lugar para arquitetos que pensam sobre estratégia – se você não quiser gerenciar pessoas, você terá que escrever códigos, testar produtos ou pensar em especificações. “Então em cargos mais elevados, as pessoas estão sob forte pressão para encontrar funções que elas consideram apropriadas. Isso está fazendo com que muito dos sêniores deixem a empresa”.

Outro ex-funcionário nos disse que a Amazon, em particular, está se beneficiando dessa migração.

Ágil, mas não “ágil”. De muitas maneiras, o método Sinofsky é o extremo oposto do método de desenvolvimento de software “ágil” usado pelo Facebook, Amazon, e muitas outras empresas de tecnologia vistas como inovadoras.

Desenvolvimento ágil organiza grupos em equipes pequenas – algumas de apenas duas pessoas – e cada uma trabalha em um backlog específico associado ao produto. Conforme estes backlogs são eliminados, o produto lentamente vai se formando. Os times passam rapidamente de tarefa em tarefa, não demorando mais do que algumas poucas semanas e algumas vezes mudando no meio do caminho, e a equipe pode ser desfeita e refeita com membros diferentes.

O método Sinofsky é um tanto diferente: Um líder de produto define a visão do produto logo no começo, e então equipes seguem um caminho muito bem definido para chegar àquela visão. É meio um “meça duas vezes, corte uma vez” com “estágios bem discretos”, diz um ex-executivo que aprova os métodos de Sinofsky.

Sinofsky não tem muita paciência com pessoas que reclamam que seus métodos não são “ágeis” o suficiente.

Em uma postagem do blog, ele explica como a equipe do Office decidiu fazer um aplicativo para tomar notas, o OneNote, sem fazer reuniões ou procurar aprovação de quem estava de fora.

“Se você tem uma organização que pode desenvolver um produto novo e leva-lo ao mercado em 2 anos sem nenhuma ‘aprovação’ então eu diria que esta é uma organização ágil. Por outro lado, se você propõe algo que não consegue ser completado pela organização então eu garanto que você irá rapidamente se tornar o porta-voz do motivo pela qual a organização não tem agilidade”.

Sem perdas de tempo bobas. Os funcionários da Microsoft que odeiam este processo podem pelo menos se consolar que Sinofsky não tem muita paciência para o tipo de evento que torna “The Office” tão desconfortável de assistir.

Eis aqui o que ele escreveu sobre um retiro exigido pelo departamento de Recursos Humanos no final dos anos 90:

“Nós recebemos todo tipo de instrução estranha como não levar celulares ou comida, e alguns caras tiveram que chegar (em um pequeno acampamento em Cape Cod) um dia antes. Foi assustador e eu estava super desconfortável. Usando analogias de hoje, era como se O Aprendiz encontrasse No Limite ou algo assim, exceto que não havia incentivos lucrativos esperando por nós depois que terminamos… Sem entrar em muitos detalhes, é suficiente dizer que um grupo de pessoas da Microsoft conseguiu ‘quebrar’ a simulação. Alguns ‘facilitadores’ acabaram em lágrimas e terminaram o jogo dois dias antes. Foi uma tortura. Eu desisti de todas as atividades relacionadas aos Recursos Humanos por cerca de cinco anos depois disso.”

Não funciona 24/7. Sinofsky também acredita em equilíbrio entre trabalho e vida, e acha que a vida 24/7 de startups e alguns competidores (a Amazon é frequentemente citada) é um grande erro.

Como ele escreveu uma vez:

“Qualquer um que diz como é legal virar a noite em um software comercial ou qualquer um que diga ‘Eu vivo no escritório’ e realmente esteja falando sério, é alguém que eu realmente não quero que verifique o código do meu projeto. Sendo bem direto, não tem como você fazer um trabalho de qualidade se você não der um descanso ao seu cérebro… Se uma empresa está levando você a trabalhar em horários malucos como esse, seja porque você quer, ou porque eles exigem que você faça isso, não é legal.”

Sigilo absoluto

Espere que a Microsoft liderada por Sinofsky seja totalmente fechada. Um dos comentários mais comuns sobre Sinofsky é que ele não irá compartilhar informações – mesmo com outros grupos de produtos da Microsoft – até que ele esteja pronto para fazer isso.

Um ex-veterano disse, “É meio estranho que um super sênior dentro da empresa cuja função é saber o que está acontecendo não pode nem mesmo saber o que a outra equipe está fazendo.”

Este nível de sigilo é padrão para muitas empresas orientadas ao consumidor como a Apple e a Amazon.

Mas pode ser um problema para grandes empresas que são os clientes mais importantes da Microsoft, assim como os fabricantes de PC que precisam planejar o próximo lançamento do Windows.

“As empresas não compram tanto o produto atual quanto comprariam a visão do próximo… Elas ficam realmente frustradas em não ter informações mais cedo. A mesma coisa vale para as fabricantes de PC, elas não estão recebendo informação cedo o suficiente para saber onde a Microsoft pretende chegar e como reagir”, diz um ex-funcionário.

Sinofsky escreveu uma postagem no blog intitulada “Transparência X translucência” onde ele explica sua lógica: Se os planos de um produto vazam antes, consumidores e parceiros fazem planos baseados em informações que podem mudar depois. Isso custa dinheiro de verdade.

E esqueça o tempo correto sobre o lançamento de informações para as notícias circularem.

Sinofsky Escreveu, “Perceba que a audiências são nossos consumidores e parceiros e que o objetivo não é permitir que as notícias circulassem ou as necessidades da imprensa de guiar o tempo certo de divulgação e os conteúdos.”

Na verdade, uma pessoa nos disse que Sinofsky tem pressionado o grupo de relações públicas da Microsoft a falar menos com a imprensa e reconsiderar aparecer em grandes eventos públicos como o Consumer Eletronics Show (o qual a Microsoft não irá comparecer ano que vem, pela primeira vez na história).

Em relação a vazamentos, Sinofsky tem tolerância zero. Um ex-funcionário do grupo do Windows disse que várias pessoas foram demitidas no ato quando os vazamentos sobre o Windows 7 foram rastreados e ligados à eles. Outro ex-funcionário disse que a empresa tem uma equipe forense que usa para rastrear vazamentos, em especial de pessoas com cargos mais externos (relacionamento com o cliente, relações públicas, e por aí vai).

A mensagem foi passada adiante.

Os funcionários atuais da Microsoft são extremamente relutantes em discutir Sinofsky ou Windows – não apenas com repórteres, mas com qualquer um. Um ex-membro do grupo do Windows nos contou que quando ele menciona Sinofsky em uma conversa com velhos amigos que ainda estão na empresa, eles reviram os olhos e mudam de assunto.

E quanto ao próprio Sinofsky, ele se recusou a comentar esta história, e nunca cooperou em um perfil. Um representante explicou, “Ele não gosta de perfis”.

Uma estratégia, um líder

Sinofsky também seria um líder absoluto. Várias pessoas nos contaram que ele exige 100% de lealdade para seus métodos – e ele pode ser cruel e sarcástico para acabar com as pessoas que discordam dele.

Uma pessoa que trabalhou com ele conta que “Ele é incrivelmente cabeça-dura. Em qualquer discussão, ele realmente defende o seu ponto. Em qualquer conversa, qualquer tentativa de mudar seu posicionamento falha.”

Um ex-executivo diz que Sinofsky tem que ser um ditador porque a maneira anterior não estava funcionando, como os problemas com o Windows Vista mostraram. “Devido à escala, ele precisava ter um estilo mais militar e impor as coisas. Precisava. Outros dizem que ele chegou a tentar outras abordagens, mas isso simplesmente não funcionou.”

Sinofsky deixa aberto para debate e feedback até certo ponto. Uma pessoa que trabalhou na Microsoft Research por volta do ano 2000 diz que Sinofsky era “Impressionante por ser alguém que está no e-mail o tempo todo, por sempre responder seus próprios e-mails. Ele irá receber feedback e discutir coisas com algum estagiário que acabou de começar.”

Mas sua tendência de estar sempre no e-mail o tempo todo tem um lado negativo também.

“Se você entrar em uma guerra no e-mail com o cara você está ferrado”, um ex-executivo nos contou, “porque ele pode escrever enciclopédias, e a aparentemente faz isso a qualquer hora do dia”.

Essa pessoa e várias outras também disseram que sinofsky iria fazer de tudo para acabar com pessoas que não concordassem com ele.

Por exemplo, esta pessoa nos contou que Sinofsky às vezes “conseguia encontrar apenas uma ou duas pessoas que concordavam com ele, então ele simplesmente sentava e era um babaca. Para a maioria dos executivos que são inspirados e estão tentando construir um negócio e criar uma visão, a vida é curta demais para esse tipo de coisa.”

É revelador que o “One Strategy”, o livro que Sinofsky escreveu sobre estratégia corporativa com o professor da Harvard Business School, Marco Iansiti, começa com a seguinte sequência: “Uma estratégia descreve uma abordagem geral para organizações alcançarem uma única perspectiva estratégica compartilhada e traduzir essa perspectiva em ação.” (Ênfase nossa).

Em uma organização com uma única perspectiva compartilhada, não há muito espaço para divergência.

Ele tem habilidade, mas será que tem a visão?

Existe outro executivo notável que salvou um negócio que estava lutando para sobreviver, conseguiu fama por entregar produtos de qualidade no prazo, exigia sigilo e lealdade absolutos, e era famoso por ser difícil de lidar.

Steve Jobs.

Na verdade, uma pessoa que conhece Sinofsky diz que ele se inspira em Jobs e imita-o de algumas maneiras – ele prefere simplicidade e organização estilo japonês, e controla com cuidado suas aparições públicas com um uniforme consistente composto por um suéter com gola V e uma camiseta de cor sólida por baixo.

O único problema com essa comparação, de acordo com detratores, é que falta em Sinofsky a visão de Steve Jobs. Os produtos mantém o negócio, mas eles não inspiram.

Uma pessoa que saiu recentemente coloca dessa maneira: “Seu histórico de entregar produtos é excepcional. Mas o nível de empolgação não é. Não houve muita empolgação a respeito de seus produtos”.

Um ex-executivo explica, “Ele não é um cara criativo, ele não irá inspirar criatividade em outros”.

Outro ex-executivo diz que os pontos fortes de Sinofsky estão em outro lugar. “Steven é muito, muito mais competente em consertar, refinar, afinar e melhorar”.

O Windows 8 é a chance de Sinofsky de mudar essa percepção. Ele tem um design revigorante para telas de toque que foi emprestado do Windows Phone – é chamado de Metro, e não se parece em nada com o Windows que você está acostumado a ver.

Windows 8 pode rodar nos processadores ARM super eficientes que alimentam a maioria dos tablets como o iPad – uma grande mudança pra um produto que já foi considerado tão dependente da arquitetura do processador Intel que quem estava de fora cunhou “Wintel” para descrever os dois.

Créditos para Sinofsky por estar disposto a correr estes riscos.

O antigo líder do Windows, Brad Silverberg, acredita que o Windows 8 é a chance de Sinofsky de provar que ele tem visão.

“Steven fez um ótimo trabalho vindo para o Grupo Windows, expandindo o papel do Windows para tablets e pegando a Interface de Usuário do metro do Xbox e Windows Phone e trazendo para o Windows. Estes são grandes avanços para a empresa e para o Windows, e eu atribuo isso à habilidade de Steven de ver mais adiante.”

Não que isso será fácil. Um ex-executivo diz que revitalizar o Windows é “o maior desafio e de mais ampla escala da história dos negócios modernos”.

Se não for Sinofsky, quem será?

Ninguém quer ser anunciado como futuro rei enquanto o atual ainda está no trono. É o caminho mais rápido para a masmorra.

Steve Ballmer contou aos executivos da Microsoft e disse em público que ele não tem planos para se aposentar até que seu filho mais novo entre na faculdade, o que significa algo por volta de 2017.

Mas o planejamento para a sucessão certamente já começou. E se Bill Gates serve de exemplo, a Microsoft irá anunciar suas intenções bem cedo.

Gates entregou as rédeas de CEO para Ballmer em 2000. Em 2006, ele anunciou seus planos de se aposentar das obrigações em tempo integral e nomeou Ray Ozzie como seu sucessor no papel de Líder de Arquiteto de Software. Mas ele não abandonou realmente das obrigações do dia-a-dia na Microsoft até 2008.

Se Ballmer irá seguir o mesmo plano de transição lento, ele provavelmente irá começar a falar sobre sucessão em 2015 – um bom tempo para ver se o Windows 8 é um sucesso, um fiasco, ou algo entre esses dois.

A menos que o Windows 8 seja um desastre, Sinofsky provavelmente será o próximo da fila.

“Ele com certeza é o próximo CEO,” diz um ex-executivo.

“Ele é definitivamente o herdeiro natural”, segundo outra pessoa que veio para a Microsoft através de uma aquisição e trabalhou lá por muitos anos.

Um outro ex-executivo concordou, mas disse que Sinofsky poderia escolher alguém para ajuda-lo.

“A empresa era melhor com Bill [Gates] e Steve [Ballmer] juntos. Eu adoraria ver esse tipo de liderança simbiótica acontecendo de novo aqui, mas faz tempo que não acontece. Não apenas o Windows é mais importante do que a pessoa que o controla, mas a Microsoft foi mais importante do que a pessoa que a controla por muito tempo – certamente sempre foi.”

Se não for Sinofsky, quem será?

Um outro nome surgiu algumas vezes: Paul Maritz

Maritz era um dos maiores líderes da Microsoft quando ele saiu em 1999. Ele então se tornou o CEO da VMWare, que compete com a Microsoft no negócio de infraestrutura de software.

Ele é amplamente respeitado entre os funcionários que trabalharam na Microsoft durante seu reinado, e muitas pessoas acreditam que ele tem visão para fazer coisas inovadoras.

Como uma pessoa colocou, “Se você pudesse tirar Paul Maritz da VMWare para voltar para a Microsoft, isso iria… receber amplo apoio interno e externo. Eu não sei se isso é possível, já que o relacionamento de Bill com Maritz se deteriorou depois que Paul se tornou um competidor”.

Outro concorda: “Se Steven se tornar CEO, seria um sinal para a empresa e para as pessoas na empresa, que nós seríamos apenas ferramentas, continuando a enviar as coisas que vínhamos enviando. Se você colocar Maritz ali, você iria chegar a uma empresa totalmente diferente”.

A pergunta é – será que Bill Gates, Steve Ballmer, o conselho de diretores, e os investidores querem que a Microsoft seja uma empresa muito diferente?

O sucesso ou fracasso do Windows 8 irão determinar a resposta.

Relatos e edição adicional por Nicholas Carlson.

Republicado com permissão do The Business Insider