Dados de seis lados podem possuir mais de 5 mil anos e sua origem vem da Persia, assim, a descoberta de um dado de 600 anos na Noruega não é nada especial. Mas este dado recém descoberto – com a evidente ausência dos lados de número um e dois – é bem única, apontando para algumas falcatruas presentes na era medieval.

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O dado trapaceiro foi descoberto em uma escavação em Bergen, na Noruega, por arqueólogos do Norwegian Institute for Cultural Heritage Research (Instituto Norueguês para a Pesquisa de Cultura Hereditária, em tradução livre; NIKU, na sigla em inglês). Os pesquisadores atualmente escavam as ruínas de uma rua de madeira do distrito medieval de Vågsbunnen do século XV. Naquele período, esta era uma área densamente povoada, repleta de pubs e pousadas. É bem possível que jogos – particularmente aqueles que envolviam apostas – eram jogados ali.

Créditos: Angela Weigand, UiB

Os arqueólogos em Bergen encontraram mais de 30 dados da Idade Média. Fica claro que o uso do item em jogos era popular. Neste caso, no entanto, parece que alguém decidiu melhorar as próprias chances na jogatina, já que esta relíquia não possui o lado de número um e o lado de número dois. No lugar destes, o dado contém um número quatro e um número cinco a mais. O gerente de projeto Per Christian Underhaug suspeita que a relíquia, baseada no contexto em que foi encontrada, foi perdida ou deliberadamente jogada fora.

De acordo com Ingrid Rekkavik, arqueóloga do NIKU, o dado foi provavelmente usado em Passe-diz (também conhecido como Passage, em inglês), um jogo de aposta antigo e de fácil entendimento. Nele, dois jogadores, cada um com três dados, os joga para somar pelo menos dez pontos. O jogador com uma pontuação menor que dez perde. A média de cada jogada é de 10,5 pontos, mas com o dado trapaceiro esta média sobe para 11,5.

Jogos de azar eram tão disseminados na Noruega durante a Idade Média que as autoridades a tornaram ilegal. Uma lei aprovada em 1276 autorizou o rei Ombudsmen a confiscar dinheiro em mesas de aposta e cobrar multas de meio marco de cada jogador, equivalente a 107 gramas de prata. Apesar da aplicação da lei, ainda existe uma boa razão para suspeitar que os jogos de azar continuaram populares na Noruega nos anos seguintes, de acordo com os pesquisadores.

Representação de um jogo de dados medieval. (Ilustração: “Olav the Sacred Saga,” 1899, National Museum)

“É entusiasmante imaginar o último jogo deste dado – teria sido revelado o trapaceiro? Se sim, quais foram as reações dos participantes?”, perguntou Rekkavik em um comunicado. “Era este um animado grupo de amigos em que tal violação seria humoristicamente compensada ou seria este um violente conflito de zangados apostadores? O que aconteceu com o dado? Teria ele sido jogado pelo nervoso trapaceiro correndo para se livrar da evidência? Ou teria ele sido jogado por um oponente, onde ele ficou para ser encontrado 600 anos depois?”

Infelizmente, provavelmente nunca saberemos, mas gosto de imaginar que este inescrupuloso jogador estava sendo socado na cara.

[Norsk institutt for kulturminneforskning via LiveScience]

Imagem de topo: Angela Weigand, UiB