Um novo documento tornado público nesta semana por meio do vazamento de documentos da NSA por Edward Snowden revela um alvo fascinante do programa de inteligência de sinais: a agência monitorou desenvolvimentos científicos internacionais na esperança de detectar projetos de engenharia genética “nefastos” há mais de uma década.

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O SIGINT é a coleta de informações ou inteligência pelo monitoramento de sinais eletrônicos e de comunicação. Em 2013, documentos vazados pelo contratante da NSA Edward Snowden revelaram a extensão da confiança da agência nesse tipo de inteligência para oferecer conhecimento sobre as capacidades e intenções de entidades estrangeiras, assim como de alvos domésticos. Nos anos desde então, documentos continuaram escorrendo do vazamento de Snowden, esclarecendo mais esses esforços.

Um desses documentos, tornado público nesta semana pelo The Intercept, descreve um uso da inteligência de sinais da NSA que não havia vindo a conhecimento do público anteriormente. Em 2004, uma criptoanalista estagiária da NSA descreveu uma busca por informações sobre sequenciamento genético na inteligência de sinais coletada pela agência.

“Os objetivos finais desse projeto são conseguir conhecimento geral sobre atividades de pesquisa de engenharia genética por entidades estrangeiras”, ela escreveu, “e identificar laboratórios e/ou indivíduos que possam estar envolvidos no uso nefasto de pesquisa genética”.

Trabalhando para o Escritório de Análise de Técnicas de Espionagem, sua função era desenvolver algoritmos que respondessem a perguntas específicas de metadados, buscando sequências genéticas em sinais e então, supostamente, tentando descobrir que tipo de atividade de pesquisa essas sequências indicavam. Isso não deveria ser completamente uma surpresa, afinal, funcionários de inteligência mais antigos já foram gravados chamando engenharia genética de uma “arma de destruição em massa“.

“Considerando a ampla distribuição, o baixo custo e o ritmo acelerado de desenvolvimento dessa tecnologia de uso duplo (engenharia genética), seu uso indevido, deliberado ou não, poderia levar a implicações econômicas e de segurança nacional enormes”, disse, no ano passado, um relatório de avaliação de ameaça mundial anual da CIA, da NSA e de outra meia dúzia de operações de espionagem e coleta de fatos nos Estados Unidos. Também no ano passado, a edição de genoma foi acrescentada à lista de ameaças à segurança nacional americana pela primeira vez.

O relatório do ano passado notou que novas descobertas “se movem facilmente na economia globalizada, assim como os profissionais com a expertise científica para projetá-las e usá-las” e apontou para a possibilidade do uso de técnicas CRISPR modernas de edição de genes para editar o DNA de embriões humanos.

Os documentos vazados pela NSA, no entanto, são de muito antes de o CRISPR entrar em cena. Mais de dez anos atrás, o governo americano estava preocupado com entidades estrangeiras que pudessem estar usando engenharia genética para o mal, seja criando bio-armas brutais ou super-soldados.

Esse único documento não dá indicação sobre a continuação do programa. Mas, em outros lugares, há sinais de que a comunidade de inteligência apenas aumentou seus esforços para manter a vigilância sobre desenvolvimentos científicos potencialmente ameaçadores. O FBI, o Pentágono e o escritório de bio-armas da Organização das Nações Unidas todos têm esforços mirando o monitoramento e estudo de utilizações potencialmente destrutivas do CRISPR. Conforme a tecnologia avança, é seguro presumir que esses esforços não vão sumir.

[The Intercept]

Imagem do topo: Shutterstock