O mundo da ciência acordou na segunda-feira (8) com uma notícia que, de repente, lança uma dúvida desconfortável em cima de cinco anos de grandes avanços: um novo estudo havia identificado uma possível barreira no uso da revolucionária ferramenta CRISPR-Cas9 em humanos. A notícia levou a uma histeria temporária que derrubou as ações das três maiores empresas de biotecnologia CRISPR nos leilões de pré-abertura, caindo em até 11,9%.

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Nos últimos anos, o CRISPR se tornou um jargão com a fama de ter o poder de corrigir um grande número de doenças devastadoras. Pesquisadores usaram-no para curar ratos de condições genéticas mortais como hemofilia B, doença de Lou Gehrig e doença de Huntington. Nos Estados Unidos, os primeiros testes humanos com CRISPR estão programados para começar neste ano.

Porém, em um novo estudo, a presença de proteínas Cas9, responsáveis por repartir o DNA no sistema CRISPR, desencadearam uma resposta imune em amostras de sangue humano. Isso sugeriu que muitas pessoas podem ser imunes a tratamentos com CRISPR ou que podem correr risco de ter efeitos colaterais perigosos por causa delas — uma implicação ruim para as esperanças de que o CRISPR seja um cura-tudo do século XXI. O estudo, publicado em pré-impressão na última sexta-feira (5) pouco antes das maiores conferências de biotecnologia do ano, fez com que as ações das empresas CRISPR Therapeutics, Editas e Intellia começassem o dia em baixa na segunda-feira. Um influente blog financeiro disse que as ações agora podem “não valer nada”.

Mas não precisa entrar em pânico. Isso não é a morte do CRISPR — pelo menos não ainda.

“Isso não é um bloqueio. Acho que é um solavanco”, disse Matthew Porteus, autor sênior do estudo da Universidade Stanford, em entrevista ao Gizmodo. “O quão grande é esse solavanco? Ainda é cedo para dizer.”

No estudo pré-impressão postado no site bioRxiv na sexta-feira, os pesquisadores testaram a reação imune contra duas das proteínas Cas9 mais comuns usadas no sistema CRISPR. O CRISPR-Cas9 é o sistema CRISPR mais comum, e as proteínas Cas9 vêm de bactérias. As proteínas Cas9 mais comuns vêm de duas bactérias, chamadas de S. aureus e S. pyogenes, encontradas frequentemente por humanos. Eles pegaram amostras de sangue de 22 recém-nascidos e 12 adultos, descobrindo que 79% dos doadores tinham anticorpos contra o Cas9 S. aureus e 65%, contra o Cas9 S. pyogenes. Essas são porcentagens bem altas.

Eles então procuraram células imunes chamadas células T e descobriram que cerca de metade dos doadores tinha células T que visavam especificamente o Cas9 S. aureus, o que significa que, se as células imunes detectassem a presença dessa proteína CRISPR, elas tentariam destruí-la. Eles não encontraram células T visando o Cas9 S. pyogenes.

“As pessoas falavam: ‘Vocês estão preocupados que vá haver uma resposta imune?’ E pensamos: ‘Ok, vamos dar uma olhada rápida’”, afirmou Porteus. “Está ali. Agora a pergunta é: o que fazemos sobre isso?”

Cientistas não envolvidos no estudo reforçaram os comentários de Porteus, sugerindo que os resultados dificilmente segurariam o campo da edição genética, que avança rapidamente.

“Essa foi uma observação completamente esperada, já que estamos todos constantemente expostos a muitos micróbios”, disse o geneticista George Church, de Harvard.

“Esse foi um fascinante artigo que, penso, era esperado, de certa forma”, afirmou o cientista da Universidade da Califórnia em Berkeley David Schaffer, em entrevista ao Gizmodo.

“Não vou perder meu sono por causa disso”, assegurou Daniel Anderson, do MIT.

As proteínas Cas9 são derivadas de bactérias normalmente encontradas pelas pessoas e, portanto, disseram os especialistas, não foi exatamente surpreendente descobrir que nossos corpos desenvolveram respostas imunes a elas.

Church disse que existem várias soluções potenciais para o problema, como simplesmente usar outras proteínas Cas9, talvez aquelas derivadas de bactérias encontradas com menor frequência pelos humanos.

A reação também pode ser evitada ao editar células fora do corpo, como é comum para doenças que afetam o sangue. Para a edição dentro do corpo, novos mecanismos de entrega poderiam potencialmente ser desenvolvidos para proteger o sistema CRISPR-Cas9 de respostas imunes e detecções.

Anderson apontou que também não está claro o quão grave a resposta imune seria. No pior cenário, ela poderia desencadear um ataque inflamatório perigoso em um paciente. Ela também poderia simplesmente não funcionar. Ou pode ter pouco efeito na eficácia do tratamento.

O geneticista do Instituto de Pesquisa Scripps Eric Topol não foi o único a achar que o estudo foi, na verdade, algo bom para a indústria — é melhor saber sobre possíveis obstáculos tecnológicos com antecedência.

“Isso enfatiza a necessidade de se fazer triagem em busca de uma resposta imune, checando anticorpos e respostas de células T, nos testes clínicos que estão decolando agora”, afirmou.

Porteus disse que sua equipe decidiu publicar o estudo como pré-impressão — antes que passasse pelo rigor tradicional da revisão por pares — exatamente por esse motivo. Seu próprio trabalho é focado em encontrar uma cura por CRISPR para doença falciforme. Eles planejam fazer um pedido de teste clínico para a FDA no fim de 2018, começando os testes em 2019.

“Queríamos tornar isso público, não para dizer que não é possível usar o CRISPR para tratar doenças em humanos, mas para dizer: ‘Vamos pensar nisso como um campo antes que seja tarde demais’”, disse. “Soa ruim, mas acho que, na verdade, é uma boa coisa.”

Imagem do topo: AP