Isso pode ser uma surpresa para você, mas nós não sabemos com o que nossa galáxia realmente se parece. Só conseguimos vê-la a partir de nosso ponto solitário no espaço e não podemos deixá-la para tirar uma foto de cima. Os cientistas querem mudar isso — e estão chegando perto.

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Uma equipe de pesquisadores de Estados Unidos e Alemanha agora está relatando ter feito a observação mais distante de nossa Via Láctea até agora: cerca de 20,4 quiloparsecs, ou mais de 60 mil anos-luz. O centro galáctico dispersa a luz visível recebida, então os pesquisadores usaram radiotelescópios especiais para observarem sua fonte. Essa pesquisa recente é parte de um esforço maior para mapear nosso lar.

“Essa é uma conquista técnica incrível”, disse ao Gizmodo o autor do estudo, Alberto Sanna, do Instituto Max Planck de Radioastronomia. “Agora conseguimos mapear toda a extensão de nossa galáxia. Isso é o que vamos fazer nos próximos anos: responder à pergunta: ‘Com o que a Via Láctea se parece’.”

Os pesquisadores usaram o Very Long Baseline Array, um conjunto de dez radiotelescópios no Novo México que agem meio que como um só telescópio muito grande. Esses telescópios poderiam detectar ondas de rádio da fonte distante, chamada G007.47+00.05, conforme elas passam por trás da poeira do centro galáctico (ondas de rádio são um tipo de luz invisível que não é dispersa pela poeira). A equipe publicou seu trabalho nesta quinta-feira (12), na Science.

A chave para observar um ponto tão distante foi descobrir paralaxes trigonométricas. Isso pode soar técnico, mas Sanna me disse para simplesmente pensar em colocar um dedo em frente aos nossos próprios olhos. Feche um olho, e seu dedo estará em um ponto, feche o outro, e seu dedo estará em outro. Combine as imagens e você pode descobrir as distâncias. Nesse caso, os dois olhos eram os locais da Terra em torno do Sol durante diferentes momentos do ano. “Por meio de geometria simples, você pode medir diretamente a distância do Sol para o objeto que você está observando”, afirmou Sanna.

Em última instância, os pesquisadores gostariam de combinar mais desses dados para mapear a Via Láctea e entender a estrutura de seus braços espirais como parte da pesquisa BeSSeL (Bar And Spiral Structure Legacy).

Outros astrônomos, como Debra Elmegreen, da Vassar College, contaram a Josh Sokol, da Science, que esse é um avanço enorme. A equipe do BeSSel não é a única tentando mapear a galáxia. No próximo ano, a sonda Gaia, da Agência Espacial Europeia, vai lançar coordenadas de um bilhão de estrelas na Via Láctea, escreve Sokol. Ainda assim, a Gaia observa principalmente luz óptica, deixando um ponto cego através das partes mais brilhantes e cheias de poeira da galáxia.

Com sorte, a pesquisa BeSSeL vai acabar com nossa cegueira. “Agora, estamos estendendo essas medições para o alcance mais distante da galáxia”, afirmou Sanna.

[Science]

Imagem do topo: ESO/Y. Beletsky/Wikimedia Commons