Um abrigo de animais de San Francisco, nos Estados Unidos, está sendo alvo de críticas pesadas por usar um robô de segurança, chamado de K9, para retirar moradores de rua acampados perto do local. Capital “disruptiva” dos Estados Unidos, San Francisco tem, ao mesmo tempo, uma crise de moradia enorme e uma abundância de startups usando robôs automatizados para fazer de tudo, de entregas de sanduíches a prevenção de crimes.

O K9 em questão é, na verdade, uma unidade K5 da Knightscope, uma empresa de segurança de Mountain View. O K5 provavelmente é mais conhecido por ser o robô de segurança que cometeu suicídio ao se afogar em uma fonte e que atropelou uma criança pequena.

Como parte de uma repressão mais ampla aos robôs, San Francisco já ameaçou multar o abrigo por operar o robô nas calçadas sem permissão. No início deste mês, o supervisor Norman Yee propôs uma proibição completa aos robôs — principalmente os ligados a aplicativos de entrega de comida —, mas aceitou um acordo por permissões. A cidade vai emitir um total de nove permissões a empresas usando robôs de entrega, com cada permissão incluindo até três robôs. O abrigo de animais, parte de uma organização chamada SPCA, não tem uma dessas permissões.

Jennifer Scarlett, presidente da SPCA da cidade, disse ao San Francisco Business Times que, embora robôs de entrega e de segurança possam ser um incômodo, o K5 deles não era o problema, mas, sim, o acampamento de moradores de rua.

“Não estávamos conseguindo usar as calçadas, com agulhas e tendas e bicicletas lá, então, do ponto de vista de caminhar, acho o robô muito mais fácil de se andar através do que um acampamento”, afirmou Scarlett.

Empresas acham que podem economizar dinheiro suplantando trabalhadores humanos com robôs, mas, ao fazê-lo, estão reduzindo os empregos e exacerbando o problema da falta de moradia. Essa questão é uma crise de recursos, mas é tratada como se fosse crime — acampamentos são ilegais, a repressão é frequente, e abrigos estão sobrecarregados. De quebra, uma tecnologia de segurança feita para dissuadir criminosos está sendo exaltada por intimidar moradores de rua.

O problema tem mais a ver com as consequências sociais de sua aplicação, algo que deveria sempre ser considerado quando falamos de tecnologia colocada em meio ao público, do que com a tecnologia em si (embora as habilidades de vigilância imensa da Knightscope sejam problemáticas).

“Nem toda inovação é ótima para a sociedade”, Yee contou ao Guardian. “Se não valorizarmos nossa sociedade, se não valorizarmos ter a chance de ir até a loja sem ser atropelado por um robô… o que está acontecendo?”

[The Verge via San Francisco Business Times]

Imagem do topo: Knightscope